O tempo é parte inseparável da experiência humana: medimos horas, contamos dias e sentimos sua passagem nos corpos e na memória. Mas, para a física, ele vai além da percepção subjetiva — é uma dimensão fundamental do universo.
Se teve início com o Big Bang, também pode ter um fim. E, segundo os modelos mais aceitos hoje, esse fim não será marcado por explosões ou catástrofes repentinas, mas por um congelamento lento e inevitável.
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O tempo como dimensão real
Adam Smith, doutor em astrofísica e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), explica que o tempo está entrelaçado aos próprios processos físicos. “Fisicamente, o tempo é uma dimensão. Assim como largura, comprimento e profundidade. Ele faz parte de todos os processos do universo”, ensina.
Essa visão moderna rompe com a ideia newtoniana de tempo absoluto, que seria fixo e imutável. Einstein mostrou que ele pode se dilatar ou se contrair conforme a velocidade ou a gravidade, o que altera não só a percepção, mas a própria estrutura da realidade.
Raphael Tromer, professor do Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB), lembra que essa discussão acompanha a humanidade desde a Antiguidade. “Newton tratou o tempo como absoluto, homogêneo e independente de qualquer observador. Einstein revolucionou ao demonstrar que espaço e tempo compõem um tecido único e relativo”, destaca.
Entropia: a seta que aponta para o futuro
Se o tempo é uma dimensão, por que só o percebemos avançando? A resposta está na segunda lei da termodinâmica, que estabelece que a entropia — a desordem de um sistema — nunca diminui. “O caos sempre vai aumentar. Isso enfraquece a ideia de viajar ao passado, porque seria preciso reorganizar o universo, algo praticamente impossível”, explica Smith.
Na mesma linha, Tromer reforça a irreversibilidade desse processo: “É mais provável que uma xícara caia e se quebre em mil pedaços do que os cacos se juntarem espontaneamente para formar uma xícara perfeita. Essa irreversibilidade estatística é o que dá ao tempo sua flecha”.
Assim, a passagem do tempo não é apenas uma questão psicológica ou cultural, mas consequência direta das leis físicas que regem o cosmos.
Segundo o físico Raphael Tromer, o tempo passado corresponde a um universo mais denso e mais quente; o futuro, mais rarefeito e frio
O fim do tempo no universo
Se o tempo tem uma direção, qual será seu destino? Segundo os especialistas, existem alguns cenários que já são discutidos na sociedade científica.
“Com o tempo, as estrelas vão se apagar, a matéria vai se espalhar e o universo atingirá uma temperatura uniforme e extremamente baixa, sem mais processos físicos ativos. Nesse estado final, o tempo pode se tornar irrelevante, já que nada mais mudaria”, descreve Smith. Tromer detalha outros possíveis caminhos:
O Big Freeze (Grande Congelamento)
Esse é o cenário mais aceito hoje em dia. O universo está em expansão acelerada, impulsionada pela chamada energia escura. Se isso continuar indefinidamente, as galáxias se afastam cada vez mais, as estrelas se apagam e a matéria se diluirá.
Em um futuro extremamente distante, restariam apenas buracos negros que, segundo a teoria de Hawking, também evaporariam. O resultado seria um universo frio, escuro e praticamente vazio, onde o tempo perderia sentido porque nada mais mudaria.
O Big Crunch (Grande Colapso)
Se a expansão cósmica fosse revertida, o universo poderia contrair-se até colapsar em si mesmo, voltando a um estado de densidade extrema. Nesse caso, o tempo terminaria de maneira simétrica ao Big Bang, em um ponto de compressão máxima. Contudo, as evidências atuais de expansão acelerada tornam esse cenário menos provável.
Outra hipótese é o Big Rip, em que a energia escura faria o espaço-tempo se esticar tanto que até átomos seriam destruídos. Seja congelamento, colapso ou ruptura, o futuro do tempo está ligado ao destino do próprio universo.
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