Os oceanos ao redor do mundo sempre despertaram curiosidade por abrigarem paisagens variadas, espécies únicas de animais e características que mudam de uma região para outra. Entre eles, Pacífico e Atlântico se destacam por contrastes que vão da composição das águas ao papel que desempenham na vida marinha.
Uma das primeiras distinções entre Pacífico e Atlântico está na temperatura e na salinidade. O engenheiro ambiental Alessandro Bertolino, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explica que esses fatores moldam boa parte do comportamento das águas.
“As águas do Atlântico tendem a ser mais quentes em muitas regiões, e isso influencia diretamente a forma como as massas d’água se misturam”, afirma o engenheiro ambiental.
A salinidade também não é igual nos dois lados. “O Atlântico pode apresentar maior salinidade em alguns trechos por causa das taxas de evaporação, das chuvas e da entrada de água doce de rios”, acrescenta.
Essas variações interferem na densidade e criam camadas temporárias que se reorganizam conforme as condições locais. Segundo o professor, isso ajuda a explicar por que, em certos pontos, as cores parecem tão diferentes.
“A presença de nutrientes e fitoplâncton, microalgas que flutuam na água e formam a base de grande parte das cadeias alimentares marinhas, muda conforme a região. No Atlântico Norte, por exemplo, a maior disponibilidade de nutrientes favorece a concentração de fitoplâncton, o que altera bastante a tonalidade”, diz Bertolino.
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A ideia de que os oceanos “não se misturam” não é real
Um dos mitos mais difundidos nas redes é o de que Pacífico e Atlântico seriam separados por uma barreira invisível. Para Morgana Bruno, coordenadora do curso de Ciências Biológicas da Universidade Católica de Brasília (UCB), essa ideia não faz sentido científico.
“É um mito. O que existe são transições graduais entre massas d’água com propriedades diferentes, chamadas de frentes, haloclinas e termoclinas”, esclarece.
Essas zonas podem formar contrastes temporários de cor e turbidez que criam a impressão de uma divisão nítida. “Às vezes parecem linhas claras separando os oceanos, mas não são muros naturais”, afirma.
Segundo a bióloga, a mistura acontece continuamente e em grande escala. Correntes, ventos e marés movimentam trilhões de toneladas de água o tempo todo. “Eles se misturam sim, e de forma muito intensa”, diz.
Essas transições ocorrem em vários pontos do planeta, incluindo o sul da América do Sul, próximo ao Cabo Horn, onde as massas d’água dos dois oceanos entram em contato.
Efeitos ambientais e ecológicos
Ainda que não exista uma divisão real, as diferenças físicas entre os oceanos podem influenciar a biodiversidade e o clima. Alessandro explica que variações de temperatura, salinidade e nutrientes moldam os ecossistemas locais.
“Esses fatores determinam o tipo de fitoplâncton presente e a distribuição de espécies marinhas. Isso impacta a cadeia alimentar e a biodiversidade como um todo”, diz.
As mudanças na densidade e na temperatura também interferem na circulação oceânica. “Elas podem alterar a forma como as águas dos dois oceanos interagem e influenciar correntes importantes para o clima global”, afirma.
A vida humana também sente esses efeitos. A pesca e a navegação dependem das características de cada região. Algumas espécies preferem determinadas condições, e as correntes oceânicas afetam a rota dos navios, explica o professor.
Para Morgana, esses contrastes podem trazer impactos positivos em muitos casos. “As frentes oceânicas são áreas de grande produtividade biológica porque concentram nutrientes e atraem peixes, aves e espécies migratórias”, afirma.
Na maior parte das vezes, o fenômeno é natural e não representa risco. “A diferença visual costuma ser neutra. É apenas o encontro de massas d’água distintas”, diz a bióloga.
Mas quando esse contraste é causado por poluição, o cenário muda. “Descargas de rios poluídos ou escoamentos costeiros podem gerar eutrofização, queda de oxigênio e proliferação de algas nocivas, afetando ecossistemas inteiros”, alerta.
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