Pesquisadores estão começando a desvendar como o cérebro acompanha tudo o que acontece dentro do corpo — do ritmo do coração à presença de toxinas. Esse processo, chamado de interocepção, ganhou novo impulso com estudos sobre a proteína Piezo.
Segundo o The New York Times, o interesse cresceu porque a Piezo parece ser uma peça essencial para entender como os órgãos enviam sinais ao cérebro — e como falhas nesse caminho podem influenciar emoções e até transtornos psiquiátricos.
Piezo: a proteína que transformou a forma de “sentir” o corpo
A Piezo ficou conhecida por permitir que o corpo percebesse pressão na pele. Mas as pesquisas do Dr. Ardem Patapoutian, vencedor do Nobel e descobridor da proteína, mostram que ela atua bem além do toque.
Dentro do corpo, a Piezo funciona como um sensor nas terminações nervosas que percorrem órgãos como pulmões, bexiga e aorta. Essas fibras captam mudanças de pressão e as enviam ao cérebro, formando uma base importante do que entendemos como interocepção.
Para observar esse processo, a equipe de Patapoutian recorre a vírus geneticamente modificados que fazem neurônios “acenderem” quando ativados. Isso permite mapear onde a Piezo trabalha e como reage a diferentes estímulos internos. Hoje se sabe que:
A Piezo detecta a expansão dos pulmões a cada respiração.
Sente a pressão arterial na aorta.
Registra o enchimento da bexiga.
Captura variações internas constantes que nem percebemos.
Essa conexão entre pressão interna e sinais enviados ao cérebro é uma das engrenagens mais importantes da interocepção.
Como o cérebro usa esses sinais para manter o corpo funcionando
Os sinais captados pela Piezo chegam ao tronco encefálico e se distribuem por áreas que regulam o funcionamento interno. Uma parte expressiva dessa comunicação viaja pelo nervo vago — um feixe com cerca de 100 mil neurônios que transporta informações sobre pressão, acidez, temperatura, nutrientes e até micróbios do intestino. É um sistema que não desliga.
O cérebro é constantemente guiado por esses sinais internos.
Diego Bohórquez, neurocientista da Universidade Duke, ao NYT.
Quando a Piezo aponta que os pulmões se expandiram demais, o cérebro reduz a respiração para evitar danos ao tecido. Se o intestino identifica toxinas, o nervo vago dispara um alerta que leva ao vômito quase de imediato. Em uma infecção, células de defesa e terminações nervosas avisam ao cérebro, que ajusta temperatura, apetite e sono.
A interocepção também aprende com as experiências. Como diz a neurocientista Camilla Nord, “você não quer apenas saber quando está ficando sem oxigênio — você quer saber quando vai ficar sem oxigênio”.
Essa capacidade de antecipação ajuda o cérebro a prever riscos e preparar o corpo antes que algo aconteça.
Quando o sexto sentido falha: interocepção e saúde mental
Uma área inteira da ciência investiga como falhas nesses sinais internos podem contribuir para ansiedade, depressão, anorexia, esquizofrenia e outros transtornos. A equipe da Dra. Nord identificou alterações na ínsula média — região central para interpretar sinais do corpo — em diferentes pacientes.
Hoje, ela testa ondas ultrassônicas de baixa frequência nessa área para tentar ajustar a forma como o cérebro lê esses sinais.
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Uma lógica parecida aparece em medicamentos para perda de peso, como os GLP-1, que imitam sinais vindos do intestino e reduzem o apetite — um modo direto de influenciar a interocepção.
Mesmo assim, tudo ainda é incipiente. Patapoutian lembra que não sabemos controlar esse sistema com precisão. Sua equipe trabalha na criação de um “atlas da interocepção”, um mapa de onde esses sensores existem e como funcionam. Uma das descobertas mais curiosas é que até a gordura corporal possui terminações com proteínas piezoelétricas — um lembrete de que ainda há muito a desvendar.
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