Como autossabotagem se relaciona com instintos de sobrevivência?

Comportamentos, como roer unhas, procrastinar, se autodepreciar ou até evitar pessoas, podem parecer ilógicos ou prejudiciais, mas têm raízes profundas nos mecanismos evolutivos de sobrevivência, segundo uma nova análise psicológica. A ideia é defendida pelo psicólogo clínico Dr. Charlie Heriot-Maitland em seu livro “Controlled Explosions in Mental Health”.

De acordo com o autor, comportamentos autossabotadores e até autolesivos funcionam como uma espécie de “dose controlada de dano”, usada pelo cérebro para evitar ameaças percebidas como maiores. Um exemplo citado é a procrastinação: ao adiar o início de um projeto, a pessoa causa a si mesma um prejuízo imediato, mas tenta evitar um risco mais grave, como o fracasso ou a rejeição.

Nosso cérebro é uma máquina de sobrevivência. Ele não foi programado para otimizar nossa felicidade ou bem-estar, mas para nos manter vivos”, explica Heriot-Maitland ao Medical Xpress. “Ele precisa que vivamos em um mundo previsível. Ele não gosta de surpresas. Não quer que sejamos pegos desprevenidos.”

Segundo o psicólogo, a maior vulnerabilidade humana não é apenas a exposição a perigos, mas a exposição a ameaças imprevisíveis. “Nosso cérebro não pode permitir isso e irá intervir para nos dar versões mais controladas e previsíveis da ameaça”, afirma.

Para ele, o cérebro prefere que o indivíduo seja “o árbitro da própria queda” a correr o risco de ser surpreendido por algo externo. “Ele prefere que estejamos bem ensaiados em receber hostilidade criada internamente do que despreparados para recebê-la dos outros.”

Para o psicólogo, o cérebro prefere que o indivíduo seja “o árbitro da própria queda” a correr o risco de ser surpreendido por algo externo (Imagem: Pedro Spadoni via ChatGPT/Olhar Digital)

Como funciona o sistema de ameaça do cérebro

O funcionamento desse mecanismo protetivo se baseia em um princípio fundamental: o cérebro prefere lidar com a certeza de uma ameaça conhecida e controlada a enfrentar a possibilidade de uma ameaça desconhecida e fora de controle;

A explicação está ligada à forma como o cérebro humano evoluiu. Ele foi moldado prioritariamente para garantir a sobrevivência, e não a felicidade;

Por isso, é altamente treinado para identificar perigos em todos os lugares, uma característica que ajudou a espécie humana a sobreviver, mas que hoje faz com que as pessoas fiquem excessivamente atentas a possíveis danos físicos ou emocionais;

Heriot-Maitland descreve essa estratégia evolutiva como um “melhor prevenir do que remediar”. Segundo ele, isso explica comportamentos aparentemente irracionais, como comer um pacote inteiro de chocolates para evitar a vergonha maior do fracasso, ou evitar alguém mesmo sem evidências de rejeição, apenas para não enfrentar a possibilidade dessa rejeição.

“Nossos cérebros evoluíram para favorecer a percepção de ameaça, mesmo quando ela não existe, a fim de provocar uma resposta protetiva em nós”, afirma. “Todos nós herdamos um sistema altamente sensível de detecção e resposta a ameaças.”

Formas comuns de autossabotagem

Entre os comportamentos autossabotadores mais comuns estão procrastinação, perfeccionismo e pessimismo. Embora relacionados, eles atuam por mecanismos distintos.

O perfeccionismo, por exemplo, funciona de maneira semelhante à procrastinação, mas com estratégia oposta. Enquanto a procrastinação desvia a atenção das tarefas, o perfeccionista tende ao hiperfoco e à atenção excessiva aos detalhes, na tentativa de evitar erros. A motivação central, em ambos os casos, é evitar o fracasso, mas o perfeccionismo frequentemente leva a estresse intenso e esgotamento.

A autocrítica é outra forma de autossabotagem. Seja na tentativa de melhorar a si mesmo ou de se culpar, esse comportamento cria uma sensação de controle e agência. Segundo o autor, trata-se de um “sequestro neurológico”, no qual o sistema de resposta à ameaça do cérebro passa a utilizar funções cognitivas superiores, como imaginação e raciocínio.

Por isso, explica ele, quando alguém sente medo, a imaginação pode ser rapidamente inundada por cenários preditivos ligados à ameaça.

Um dos principais problemas desses comportamentos é que eles tendem a se tornar profecias autorrealizáveis. “Se achamos que não somos muito bons em algo, podemos não nos esforçar ao máximo e acabar tendo um desempenho pior do que teríamos se fizéssemos uma previsão diferente”, afirma Heriot-Maitland.

Da mesma forma, se alguém acredita que outra pessoa não gosta dela e, por isso, evita o contato, o medo da rejeição pode acabar impedindo a construção de um relacionamento.

Roer unhas é uma atitude autossabotadora (Imagem: BLACKDAY/Shutterstock)

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Compreender para enfrentar a autossabotagem

Segundo o psicólogo, mesmo quando reconhecemos que esses comportamentos não são úteis, enfrentá-los exige, antes de tudo, compreender sua função protetiva, e não simplesmente tentar eliminá-los.

Usando a metáfora das “explosões controladas”, Heriot-Maitland explica: “O esquadrão antibombas não é nosso inimigo. Ele está protegendo algo grande; algo machucado; algo ferido ou doloroso.” Ele ressalta, porém, que essas explosões controladas também causam danos e isso não deve ser ignorado.

As intervenções psicológicas mais eficazes, segundo ele, concentram-se em processar a dor emocional subjacente, ainda que isso seja uma escolha difícil e distante de soluções rápidas.

“Resolver danos subjacentes geralmente envolve dois aspectos: criar segurança em torno da situação e do sentimento temidos; e viver o luto pela perda de uma necessidade central que não foi atendida, foi negada ou descartada”, explica.

Avançar com autocompaixão

Para Heriot-Maitland, a saída do ciclo de autossabotagem não passa por mais autocrítica, que apenas reforça caminhos neurais já consolidados, mas pela autocompaixão.

Aproveitar a neuroplasticidade do cérebro e aprender hábitos menos prejudiciais exige uma escolha deliberada de reconhecer e compreender esses comportamentos. “Inserir motivações compassivas em um processo como esse não é algo automático. Exige tempo, esforço e intencionalidade”, afirma.

Nosso cérebro usa a autossabotagem para se prevenir (Imagem: Alexander Sikov/iStock)

Ao compreender a base evolutiva da autossabotagem, o autor defende que é possível reconhecer sua função protetiva e, ao mesmo tempo, enfrentar os danos que ela causa, sem julgamento. “Não queremos lutar contra esses comportamentos, mas, também, não queremos apaziguá-los e deixá-los continuar controlando, ditando e sabotando nossas vidas. Existem escolhas a fazer”, conclui Heriot-Maitland.

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