A missão que seria o ápice da exploração de Marte na próxima década foi efetivamente cancelada. Após anos de planejamento e investimento, o projeto central da Mars Sample Return (Missão de Retorno de Amostras de Marte ou MSR na sigla) foi retirado do orçamento federal, cedendo à pressão por cortes financeiros. A decisão, embora tecnicamente cubra apenas o ano fiscal atual, é vista como o fim da iniciativa no curto e médio prazo, deixando em suspenso o destino de amostras preciosas coletadas pelo rover Perseverance.
A missão foi declarada a maior prioridade da NASA em ciência planetária em 2011. Seu objetivo era ambicioso: trazer à Terra, pela primeira vez, amostras do solo e das rochas marcianas para análise laboratorial detalhada. A primeira fase foi um sucesso completo. O rover Perseverance coletou e armazenou 33 tubos com material geologicamente promissor na cratera Jezero. No entanto, os custos para a fase seguinte — que envolvia pousar um novo veículo, recuperar os tubos, lançá-los à órbita marciana e trazê-los de volta — dispararam, chegando a uma estimativa de US$ 11 bilhões em 2024.
Orçamento inflado e ceticismo político selam o destino da missão
Apesar de a NASA ter apresentado um plano revisado com custo estimado em US$ 7 bilhões, o projeto enfrentou ceticismo no Congresso sobre sua viabilidade financeira. Em um contexto de restrições orçamentárias e estouros de custo em outros programas da agência, a MSR tornou-se um alvo político. A decisão reflete a meta do governo de reduzir drasticamente os gastos da NASA, colocando um projeto caro e de longo prazo em rota de colisão com a realidade fiscal.
A comunidade científica planetária reage com frustração. “Isso é profundamente decepcionante”, declarou a Dra. Victoria Hamilton, presidente do Grupo de Análise do Programa de Exploração de Marte da NASA, à revista Science. Especialistas destacam a contradição: enquanto o governo defende a liderança espacial dos EUA, abandona uma das missões científicas mais complexas já concebidas.
O que acontece com as amostras e o futuro da exploração marciana?
As amostras coletadas pelo Perseverance permanecem seguras na superfície de Marte, onde podem resistir por décadas. O orçamento aprovado destina US$ 110 milhões para “Missões Futuras a Marte”, focando no desenvolvimento de tecnologias de pouso mais eficientes — um conhecimento que será útil se uma missão de retorno de amostras for retomada no futuro.
Enquanto isso, a corrida por amostras marcianas continua em outros países. A China planeja sua própria missão de retorno, programada para 2031, embora seu plano seja coletar rochas de forma mais rápida e menos seletiva em um único local de pouso. O Japão também estuda uma missão para trazer amostras de Fobos, uma lua de Marte, que pode conter fragmentos do planeta.
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O cancelamento da MSR libera recursos que poderiam financiar outras missões planetárias de alto perfil, como um orbitador para Urano ou o telescópio espacial Observatório de Mundos Habitáveis. No entanto, em um ambiente de cortes, não há garantia de que a verba economizada será reinvestida na exploração espacial.
A incapacidade de executar esta missão complexa serve como um lembrete de que, apesar da ambição de colonizar Marte, desafios logísticos e financeiros fundamentais ainda estão longe de ser superados. As rochas mais promissoras para encontrar sinais de vida passada em Marte continuarão, por enquanto, fora do alcance dos melhores laboratórios da Terra.
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