A Apple começou a tratar a sucessão do seu CEO, Tim Cook, como algo concreto, não mais hipotético. Segundo o New York Times, o planejamento interno foi acelerado nos últimos meses. E um nome passou a aparecer com mais força do que os demais: John Ternus, atual chefe de engenharia de hardware da empresa.
Aos 50 anos, Ternus reúne atributos que lembram o próprio Tim Cook quando assumiu o cargo de CEO: atenção obsessiva aos detalhes, domínio da cadeia de suprimentos e um estilo de gestão discreto, focado em execução.
No entanto, sua possível ascensão reacende um debate antigo na Apple: a empresa precisa seguir no caminho incremental que a tornou previsível e extremamente lucrativa ou buscar um novo impulso visionário num momento de pressão global e corrida pela inteligência artificial (IA)?
John Ternus construiu sua carreira na Apple com pragmatismo, proximidade e controle de custos
A reportagem mostra que a trajetória de Ternus na Apple não é meteórica, mas longa e contínua. Ele entrou na empresa em 2001, trabalhando em telas de Macs, e foi subindo degrau por degrau até se tornar o membro mais jovem do time executivo. Não houve um “momento Jobs”. Houve constância, entrega e confiança acumulada ao longo de mais de duas décadas.
Esse perfil aparece também na forma como ele se relaciona com as equipes. Segundo ex-colegas ouvidos pelo jornal, Ternus recusou por duas vezes a chance de trabalhar num escritório fechado, preferindo permanecer em áreas abertas, ao lado dos times. Dentro da Apple, isso ajudou a consolidar a imagem de alguém acessível e que não curte hierarquias rígidas.
O pragmatismo financeiro é outro traço importante. Em 2018, quando a Apple discutia incluir um laser de mapeamento nos iPhones (tecnologia que melhoraria fotos, realidade aumentada e leitura do ambiente), Ternus foi quem sugeriu limitar o recurso aos modelos Pro.
A lógica era simples: clientes mais fiéis pagariam pela novidade; o consumidor médio provavelmente não sentiria falta. O custo estimado era de US$ 40 (aproximadamente R$ 216) por aparelho, alto o suficiente para pressionar margens. A decisão virou exemplo interno de como equilibrar inovação e lucro.
Esse mesmo raciocínio aparece nos grandes projetos que ele liderou. A transição dos chips Intel para processadores próprios da Apple, iniciada em 2020, exigiu coordenação técnica, logística e industrial em escala global. Mais recentemente, Ternus também esteve à frente do iPhone Air (aquele ultrafino), além de participar de experimentos com celulares dobráveis, ainda mantidos sob sigilo.
Apesar da imagem “pé no chão”, o New York Times ressalta que Ternus não é avesso a ideias ousadas. Um caso citado é o uso de ímãs para fixar telas de vidro em iMacs, solução vista com ceticismo na época, mas que acabou adotada. Segundo um ex-chefe ouvido pelo jornal, quando surgia uma proposta fora do padrão, Ternus tendia a defendê-la. Desde que fosse viável na prática.
Sucessão vai ocorrer em meio a pressões e dúvidas sobre o futuro da Apple
O pano de fundo dessa possível transição é delicado. De acordo com a apuração do New York Times, Tim Cook, hoje com 65 anos, teria dito a líderes que está cansado e pretende reduzir sua carga de trabalho. A expectativa interna é que, quando deixar o cargo de CEO, ele assuma a presidência do conselho, o que vai preservar parte de sua influência estratégica sobre a empresa.
Embora Ternus seja tratado como favorito, a disputa não está formalmente encerrada. Cook estaria preparando outros nomes como alternativas. Entre eles, estariam: Craig Federighi, chefe de software; Eddy Cue, responsável pela área de serviços; e Greg Joswiak, líder de marketing.
A dúvida central, segundo ex-funcionários e executivos ouvidos pelo jornal, é sobre qual tipo de liderança a empresa precisa agora. Sob Cook, a Apple se tornou mais previsível, incremental e altamente lucrativa. Mas já faz anos que não lança um produto com o impacto cultural do iPhone ou do iPad. Isso alimenta a comparação inevitável com a era Steve Jobs. E a pergunta sobre se o próximo CEO deve ser um grande gestor ou um grande visionário.
Essa questão fica ainda mais sensível quando entra em cena a inteligência artificial. Enquanto concorrentes investiram dezenas de bilhões de dólares e reformularam produtos em torno da IA, a Apple avançou com cautela. Segundo o NYT, a empresa ficou à margem da corrida e adiou mudanças profundas em seus aparelhos, o que coloca pressão adicional sobre quem assumir o comando.
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Por fim, há fatores externos difíceis de controlar. O próximo CEO herdará um cenário de tensões geopolíticas, com tarifas comerciais instáveis nos Estados Unidos e uma dependência estrutural da manufatura chinesa. Navegar por esse ambiente exige não apenas visão tecnológica, mas habilidade política. Neste ponto, Ternus teve pouca exposição direta até o momento, segundo o jornal.
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