Evolução dos pássaros é mais antiga e complexa do que se imaginava, aponta estudo

Durante mais de um século, a história da evolução dos pássaros teve um único protagonista no período Jurássico: o Archaeopteryx. No entanto, novas descobertas paleontológicas, incluindo um fóssil descrito em 2025, estão reescrevendo esse capítulo da biologia, sugerindo que a origem das aves é muito mais antiga e complexa do que os cientistas supunham.

Segundo a Nature, há cerca de 150 milhões de anos, a Europa era um arquipélago tropical submerso em um mar raso. Foi nesse cenário, onde hoje fica a Alemanha, que viveram os Archaeopteryx: criaturas do tamanho de corvos, com penas pretas, dentes e garras nas asas – características que não existem em nenhuma ave adulta moderna.

Fóssil de Archaeopteryx, criatura que viveu há cerca de 150 milhões de anos na Europa. Com dentes, garras nas asas e uma longa cauda óssea, ele é um ícone da transição entre dinossauros e aves, e por mais de um século foi o único registro conhecido desse período. Imagem: Delaney Drummond/Field Museum

Por muito tempo, ele foi o único gênero de ave conhecido do Jurássico, criando uma lacuna no registro fóssil até o período seguinte, o Cretáceo, quando as aves já haviam se diversificado globalmente. Essa falta de “elos perdidos” tornava a reconstrução da história evolutiva uma tarefa difícil, agravada pela fragilidade dos ossos ocos das aves, que raramente se preservam.

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O novo concorrente: Baminornis

O cenário mudou com a descrição do Baminornis, um novo gênero de ave do Jurássico descoberto na China. Diferente do Archaeopteryx, que possuía uma cauda longa óssea (herança de seus ancestrais dinossauros), o Baminornis apresentava uma característica surpreendentemente moderna: o pigostilo.

O pigostilo é uma estrutura formada pela fusão das últimas vértebras da cauda, comum em pássaros atuais, mas ausente no Archaeopteryx. O fato de o Baminornis já possuir essa adaptação anatômica, vivendo na mesma época que o “primo” de cauda longa, chocou os pesquisadores.

O pesquisador Min Wang, do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP), analisa o fóssil do Baminornis zhenghensis em Pequim. A descoberta da espécie de 150 milhões de anos reescreve a história da evolução das aves. Imagem: Jin Liwang / Xinhua. Imagem: Jin Liwang / Xinhua

Isso nos mostra que as aves já estavam experimentando e desenvolvendo estilos de voo e aerodinâmica mais sofisticados no final do Jurássico.

Stephen Brusatte, paleontólogo da Universidade de Edimburgo, Reino Unido.

Origem antecipada

A coexistência de espécies tão distintas – uma com características primitivas e outra com traços modernos – sugere que a “árvore genealógica” das aves começou a se ramificar muito antes do que se pensava.

Min Wang, paleontólogo do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia de Pequim, argumenta que a descoberta empurra a origem das aves para um período anterior. “É possível que algumas aves do Jurássico médio ou inferior já tivessem evoluído?”, questiona o pesquisador.

O mistério do voo

Além da diversidade, os fósseis reacendem o debate sobre como essas primeiras aves voavam. O Archaeopteryx, por exemplo, é um enigma. Embora tivesse penas, ele carecia de um esterno ósseo (o osso do peito onde se prendem os músculos das asas). Sem isso, seu voo seria fraco, talvez apenas um bater de asas desajeitado para escapar de predadores ou se deslocar no solo.

Já o Baminornis, com sua cauda fundida, indica uma evolução em direção a corpos mais compactos e aerodinâmicos.

As novas evidências vêm da Fauna de Zhenghe, na província de Fujian, China. O local, que foi um pântano há 150 milhões de anos, revelou-se um tesouro para a paleontologia, preservando não apenas o Baminornis, mas também criaturas como o Fujianvenator, um dinossauro com características de ave e pernas longas, indicando que ele vivia vadeando na água.

Embora o registro fóssil do Jurássico ainda seja escasso, as novas peças do quebra-cabeça mostram que a transição de dinossauros para aves não foi uma linha reta, mas uma explosão de diversidade que começou muito antes do que os livros de história contavam.

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