O Fórum Econômico Mundial de Davos chegou ao seu terceiro dia nesta quarta-feira (21). O evento é uma forma de governos, empresas e lideranças da sociedade civil se reunirem para discutir assuntos urgentes e buscar soluções em conjunto… mas parece que isso está mudando.
Peter S Goodman, repórter do The New York Times que esteve presente no fórum, relatou que, neste ano, o clima está diferente. Entre filas, festas patrocinadas por gigantes da tecnologia e debates políticos ficando em segundo plano, o evento revelou um retrato claro de suas prioridades atuais: a inteligência artificial e as oportunidades de negócios no centro do palco, enquanto temas sociais e humanitários ficam às margens.
IA e tecnologia dominam as ruas de Davos
Na noite de segunda-feira, uma fila com dezenas de pessoas se formava diante da AI House, uma organização sem fins lucrativos criada para promover diálogo e colaboração sobre o futuro da inteligência artificial. Poucos metros adiante, uma multidão ainda maior tentava entrar em um evento sobre IA e cibersegurança promovido pela Axios.
O clima era de euforia. Participantes trocavam dicas sobre convites para eventos exclusivos, tiravam selfies e circulavam entre lounges iluminados por néon, financiados por empresas de tecnologia, criptomoedas e inteligência artificial.
Enquanto isso, iniciativas com foco social passavam quase despercebidas. Um espaço da Aliança para o Bem Global — Equidade e Igualdade de Gênero, lançada pelo governo da Índia para fortalecer saúde e educação feminina, estava praticamente vazio.
Segundo a reportagem, a cena simbolizou o que o evento se tornou. Discussões sobre mudanças climáticas, refugiados ou o futuro da saúde até existiam, mas estavam restritas a salas menores e menos concorridas. O protagonismo era dos grandes grupos empresariais e da expectativa de lucros ligados à nova onda tecnológica.
Presença de Trump
A 56ª edição do fórum reuniu cerca de 3.000 participantes de 130 países, a maior presença já registrada no Fórum Econômico. A grande expectativa era com a chegada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prevista para esta quarta-feira (21), que forçou o aumento na segurança e na circulação nas ruas de Davos.
Conforme relatado por Goodman, o clima político era sensível. Isso porque Trump adentraria um ambiente historicamente associado ao multilateralismo europeu em meio a declarações polêmicas, como a ameaça de reivindicar a Groenlândia (que pertence à Dinamarca).
Segundo o repórter, as autoridades europeias não esconderam o desconforto. Na terça-feira, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, afirmou esperar uma resposta firme da Europa diante da pressão norte-americana. Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou que a resposta europeia ao caso da Groenlândia será “inabalável, unida e proporcional”.
Em encontros paralelos, diplomatas e ativistas europeus debateram o impacto da volta de Trump ao centro da política global. Houve críticas à postura dos EUA em relação à Ucrânia, vista por parlamentares europeus como algo orientado puramente por interesses econômicos.
Big techs em destaque
Apesar das tensões políticas, o que mais chamava atenção eram os espaços físicos ocupados pelas big techs. As principais lojas da avenida central foram transformadas em espaços dedicados a empresas como Meta, Salesforce, Tata e grandes consultorias globais.
Um dos pontos mais disputados era a USA House, patrocinada pela McKinsey e Microsoft. O espaço destacava temas ligados à liderança americana, inovação e valores democráticos. Logo a frente, vinha o prédio da Palantir, empresa associada a projetos de vigilância do governo dos EUA.
E enquanto parte da Europa discutia como reagir a Trump, executivos do setor de tecnologia pareciam enxergá-lo sob outra ótica. A expectativa de um encontro do presidente americano com CEOs na quarta-feira gerava curiosidade e otimismo entre líderes empresariais. Segundo Daniel Newman, a maioria deles está focada em criar valor para acionistas e vê com bons olhos a promessa de desregulamentação e redução de burocracia.
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Já temas como diversidade, equidade e sustentabilidade, antes recorrentes nos discursos corporativos em Davos, perderam espaço.
Para Goodman, o cenário observado no Fórum Econômico Mundial reforça uma percepção antiga, agora mais explícita: Davos se consolida cada vez mais como uma grande vitrine de negócios, com a inteligência artificial no centro das atenções. Debates sobre valores, direitos humanos e cooperação internacional continuam existindo, mas já não definem o tom do evento.
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