Na noite de domingo (25), moradores de Alfredo Wagner, na Serra Catarinense, interromperam a rotina para olhar o céu. Tons de verde, azul, roxo e branco tomaram a paisagem em um fenômeno raro no Brasil, que chamou a atenção pela intensidade das cores e pela visibilidade a olho nu.
Pouco comuns em latitudes brasileiras, manifestações luminosas desse tipo costumam ser discretas quando ocorrem. Em Alfredo Wagner, no entanto, o céu ganhou luzes coloridas favorecidas por condições igualmente raras, como noites limpas, poucas nuvens e baixa interferência luminosa.
Apesar de lembrar a aurora boreal, conhecida por iluminar os céus de países do extremo norte, como Noruega e Islândia, o fenômeno observado em Santa Catarina ocorreu no Hemisfério Sul. Por isso, passou a ser associado à chamada aurora austral.
O que é a aurora austral?
Auroras se formam quando partículas carregadas emitidas pelo Sol, conhecidas como vento solar, interagem com o campo magnético da Terra. Em períodos de maior atividade solar – que seguem ciclos de cerca de 11 anos – esse fluxo se intensifica, aumentando a frequência e a intensidade do fenômeno e permitindo que ele seja observado, em episódios mais extremos, fora das regiões polares, onde são mais comuns.
Ao atingir a atmosfera terrestre, essas partículas colidem com gases como oxigênio e nitrogênio, liberando energia em forma de luz. O resultado são as faixas e manchas coloridas vistas de forma dançante no céu noturno, com tons que variam do verde ao vermelho, passando por nuances rosadas e arroxeadas.
Em Alfredo Wagner, o registro coincidiu justamente com uma fase de maior atividade solar e condições meteorológicas favoráveis. O céu limpo dos últimos dias em Santa Catarina ajudou a tornar o fenômeno mais visível, tanto a olho nu quanto em registros fotográficos.
Com áreas pouco urbanizadas e baixa poluição luminosa, o município ofereceu o cenário ideal para a observação. Foi ali que o fotógrafo Vitor Tatagiba, que estava hospedado na região, conseguiu registrar as luzes no céu.
Registro feito pelo fotógrafo Vitor Tatagiba mostra cores incomuns no céu de Alfredo WagnerVitor Tatagiba/Reprodução
As imagens geraram questionamentos após a publicação pelo governo de Santa Catarina. Nas redes sociais, surgiram dúvidas sobre a natureza do fenômeno, com sugestões de que as cores poderiam estar relacionadas à poluição luminosa ou a outros efeitos atmosféricos, e não necessariamente a uma aurora. Entre as hipóteses levantadas, apareceu o airglow – um brilho difuso provocado por processos químicos na alta atmosfera.
Apesar das dúvidas, o fenômeno foi identificado como aurora austral pelo técnico em meteorologia Paulo Metling. Segundo ele, as condições registradas em Alfredo Wagner eram favoráveis à ocorrência do fenômeno.
Por que as auroras são raras no Brasil?
As auroras costumam se concentrar nas regiões próximas aos polos magnéticos, onde o campo da Terra direciona com mais intensidade as partículas solares. O Brasil está distante dessas áreas, o que torna esse tipo de ocorrência incomum e, quando acontece, geralmente discreta.
Para quem tenta registrar o fenômeno, a recomendação é utilizar câmeras com longa exposição – inclusive as de celular – e ter paciência. A atividade solar é variável, e as cores podem surgir e desaparecer em questão de minutos.
Quanto mais ao sul do planeta, maiores são as chances de observar a aurora austral. As melhores condições estão em regiões próximas à Antártica, como as Ilhas Shetland do Sul e as Ilhas Orkneys do Sul. Saiba mais sobre o fenômeno e onde ele costuma ocorrer nesta matéria.
Um céu roxo no Rio Grande do Sul: aurora ou outro fenômeno?
Dias antes do episódio em Santa Catarina, na terça-feira (20), um registro intrigante chamou a atenção em Cambará do Sul, no Rio Grande do Sul. Por cerca de cinco minutos, uma faixa roxa apareceu no céu noturno, levantando dúvidas entre especialistas.
O fenômeno, que ocorreu após uma tempestade solar intensa, lembra uma aurora austral, mas ainda não há consenso científico sobre sua origem. Parte dos pesquisadores avalia que o acontecimento possa estar relacionado a eventos associados à atividade solar extrema, enquanto outros levantam hipóteses alternativas.
Entre elas, está o já mencionado airglow, um brilho atmosférico causado pela recombinação de átomos na alta atmosfera após eventos magnéticos. Outra possibilidade discutida é a de ser um Arco Vermelho de Aurora (SAR), uma manifestação luminosa de cor vermelha, visível durante tempestades geomagnéticas.
O debate ganhou repercussão internacional e chamou a atenção de pesquisadores ligados a plataforma Space Weather, que destacaram a raridade de qualquer fenômeno luminoso desse tipo no sul do Brasil – ainda mais dentro da chamada Anomalia do Atlântico Sul, região onde o campo magnético terrestre é mais fraco.
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