Uma doutoranda da Universidade de Sydney, na Austrália, criou poeira cósmica num laboratório usando apenas gases e uma descarga elétrica de dez mil volts. O experimento imita o que acontece no espaço para produzir minúsculos grãos de poeira feitos de carbono, fundamentais para entendermos o surgimento da vida. Com essa técnica, cientistas podem estudar a química do Universo sem ter que esperar um asteroide cair na Terra ou buscar fragmentos raros no gelo.
A pesquisa, publicada na revista científica The Astrophysical Journal, criou um método para descobrir se a poeira espacial foi transformada pelo calor ou pelo impacto de partículas de energia (chamadas de íons). Por meio de um catálogo de “impressões digitais” de luz infravermelha, agora é possível ler a história de cada grão de poeira vindo do espaço. Esse estudo é um passo importante para mapear como os ingredientes básicos da vida apareceram no vácuo espacial muito antes do nosso planeta existir.
Experimento imita o ambiente das estrelas para entender a origem da química espacial
Para criar a poeira, a pesquisadora misturou gases como acetileno, dióxido de carbono e nitrogênio numa câmara de vácuo. Essa mistura simula o ar ao redor de estrelas e supernovas, onde a poeira nasce naturalmente no espaço. Ao aplicar a alta voltagem por uma hora, as moléculas dos gases se quebraram e se juntaram novamente. E isso formou uma camada de poeira de carbono sólida no fundo do recipiente.
A equipe usou uma técnica de luz infravermelha para analisar a “assinatura” química dessa poeira produzida em laboratório. Eles descobriram que a poeira artificial brilha e reflete a luz de forma quase idêntica às nuvens de poeira reais capturadas por grandes telescópios. Além de provar que o experimento funciona, isso permite que cientistas testem como o calor e o choque de partículas mudam a matéria orgânica no espaço.
Um diferencial do estudo foi o uso de uma ferramenta estatística para organizar as informações complexas da luz. Essa ferramenta ajudou a separar claramente dois efeitos diferentes: o desgaste causado por partículas rápidas e o efeito do calor comum. Essa distinção resolve uma dúvida antiga de astrônomos, permitindo identificar exatamente o que moldou cada grão de poeira. Agora, cientistas conseguem ver com clareza as transformações químicas ocorridas perto de estrelas.
Antigamente, para estudar esse material, era preciso coletar micrometeoritos na Antártida ou usar aviões especiais que buscam poeira na parte mais alta da atmosfera. O novo banco de dados funciona como um manual que ajuda a interpretar o que está escrito nos asteroides e cometas sem precisar buscá-los fisicamente. Ao ler essas “impressões digitais”, pesquisadores conseguem reconstruir o caminho que a poeira fez e onde a química que gera vida começou.
O projeto agora quer aumentar esse catálogo para ajudar telescópios modernos, como o James Webb, a entender melhor o que estão vendo nas profundezas do espaço. Além disso, ter essa poeira disponível no laboratório acelera a descoberta de como os elementos químicos se espalham pelo Universo.
(Essa matéria também usou informações da Universidade de Sydney.)
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