O Teatro Baccarelli, inaugurado em novembro dentro da favela de Heliópolis, tem tudo para se tornar um espaço vibrante da cena cultural paulistana. Estive lá no dia 25 de janeiro, quando São Paulo completava 472 anos, para um concerto que reuniu a Orquestra Sinfônica Heliópolis e Simoninha – e pude vivenciar o quanto palco e platéia caminham juntos.
Desde os primeiros minutos, o que mais me chamou a atenção foi a forma como a atmosfera foge do protocolo: cadeiras coloridas, o maestro chamando o público a se levantar, Simoninha puxando o coro em “Meu limão, meu limoeiro”. A música circula pela sala como uma conversa aberta, em que ninguém fica de fora.
A chegada
Por fora, o prédio é simples, mas se destaca entre as construções da favela. O verde puxado para o turquesa e o amarelo chamam atenção. O teatro pertence ao Instituto Baccarelli, organização que há quase três décadas atua em Heliópolis oferecendo ensino musical gratuito.
O prédio do Instituto Baccarelli é colado ao teatrogovernosp/threads/Reprodução
Chegar até o teatro exige um pouco de jogo de cintura. Ele fica na Estrada das Lágrimas, e na ida o Uber me deixou alguns metros depois do ponto exato. Na volta, ficou mais claro: o teatro não aparecia como opção de embarque, então precisei selecionar o CEU Heliópolis e avisar o motorista que eu estava no Instituto Baccarelli. Nada complicado, mas vale ficar atento.
Na entrada, basta apresentar o ingresso e seguir em frente. Não há saguões monumentais nem excessos arquitetônicos. À esquerda, o espaço se liga ao Instituto, onde ficam os banheiros de portas azuis – simples, limpos e funcionais – e o restaurante que serve refeições diárias aos alunos. Lá, há também um elevador e placas indicando que, nos pisos superiores, estão as salas de ensaio.
Banheiros e restaurante do Instituto Baccarelli, espaços simples e funcionaisCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Mas a alma do teatro se revela quando não viramos à esquerda, e sim quando seguimos reto.
A sala de concertos é o coração
Na parede, o nome “Teatro Baccarelli” aparece em letras metálicas, marcando duas entradas laterais para a sala de concertos. É ali que tudo acontece.
O nome Teatro Baccarelli em letras metálicas marca as entradas da sala de concertosCecília Carrilho/Arquivo pessoal
As 533 poltronas coloridas, inspiradas nas casas de Heliópolis, chamam atenção logo de cara. Confortáveis e bem distribuídas, organizam-se entre plateia baixa, plateia alta, balcões laterais, frontal e até um balcão atrás do palco. Sentei na plateia alta, e tive uma visão bastante ampla, consegui acompanhar a animação de quem estava mais perto do palco e, ao mesmo tempo, observar a dinâmica da orquestra.
A disposição da sala permite acompanhar o concerto de diferentes ângulosCecília Carrilho/Arquivo pessoal
A acústica impressiona. Placas ovais penduradas no teto e formas geométricas nas paredes funcionam como rebatedores de som, espalhando a música de maneira uniforme. Quando o palco se enche de instrumentos, tudo soa claro de qualquer ponto da sala – tanto que a voz do maestro chega nítida mesmo antes do microfone entrar em cena. O projeto acústico, de nível internacional, é assinado por José Nepomuceno, responsável também pela Sala São Paulo, pelo Teatro Cultura Artística e pelo listening bar Formosa Hi-Fi, que fica em frente ao Theatro Municipal.
Retângulos e quadrados nas paredes ajudam a conduzir o som pelo Teatro BaccarelliCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Quando a música vira conversa
Com a orquestra posicionada, o maestro Edilson Ventureli recebeu a plateia. Pouco depois, Simoninha subiu ao palco cantando “Sá Marina”, eternizada por seu pai, Wilson Simonal. A partir dali, ficou claro que não seria um concerto convencional.
Durante cerca de uma hora, a Orquestra Sinfônica Heliópolis e Simoninha passearam por clássicos da música brasileira como “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Nem Luxo Nem Lixo”, “País Tropical” e até “Exagerado”, escolhida para homenagear uma São Paulo que nunca foi discreta.
Durante toda o concerto, o maestro e o cantor puxavam o público para cantar junto, e puxavam mesmo. O coro coletivo preenchia a sala com aquela mistura bonita e imperfeita de vozes, acompanhada também por uma intérprete de Libras posicionada ao lado do palco.
Maestro Ventureli e Simoninha conduzem a plateia em um concerto que vira participação coletivaCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Em determinado momento, o convite foi para levantar da cadeira e dançar. E ninguém estranhou. As luzes se acenderam nas músicas finais, quando a plateia já estava de pé, e o teatro virou uma celebração compartilhada.
Antes do encerramento, os discursos reforçaram o que já estava evidente: aquele não é um teatro comum. O maestro Ventureli falou da importância do espaço, da programação futura – incluindo uma saideira de Carnaval marcada para 22 de fevereiro – e deixou claro que ali não existem códigos rígidos de comportamento.
A proposta é que o palco receba óperas, balés, filmes, peças e shows de música popular, além de apresentações de funk, rap e trap. Na programação, os domingos ficam reservados à música clássica; aos sábados, o teatro se abre para outras linguagens. Assim, a música clássica chega à favela sem que o palco se limite a um único gênero.
Final do concerto, com as luzes acessas e o público de péCecília Carrilho/Arquivo pessoal
No Teatro Baccarelli, pode fotografar, filmar, marcar nas redes sociais, cantar, dançar. Não há constrangimento nem laser vermelho apontado para quem tira o celular do bolso. A ideia é que o teatro circule, seja comentado, vivido e ocupado, principalmente pela comunidade de Heliópolis.
Cultura que não exige traje
Talvez esse seja um dos pontos mais fortes do espaço. Para muitos moradores da comunidade, o teatro ainda carrega um peso simbólico: a dúvida sobre que roupa usar, como se comportar, se aquele lugar é “para eles”. No Baccarelli, essa barreira cai rápido. Não há exigência estética nem social.
Luz baixa, sala cheia e a orquestra ocupando o centro da cenaCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Os ingressos custam até R$ 20 a inteira, com meia-entrada a R$ 10, e parte da bilheteria ajuda a manter o projeto que atende gratuitamente cerca de 1.600 crianças e jovens. Mais do que formar músicos, o Instituto Baccarelli atua usando a música como ferramenta de transformação.
Nada disso acontece fora de contexto. Heliópolis é a maior favela de São Paulo, com mais de 200 mil habitantes e uma longa história marcada pela organização comunitária e pela disputa por direitos. Lá, o Teatro Baccarelli não surge como um corpo estranho, mas como continuidade de um trabalho já enraizado, que amplia a circulação da cultura e reposiciona quem historicamente costuma ficar fora da salas de concerto.
A sala pronta para receber o público, com luzes acesas e a atmosfera convidativaCecília Carrilho/Arquivo pessoal
Para que esse teatro exista, há também uma engrenagem menos visível. Cerca de 85% do financiamento do Instituto Baccarelli vem da Lei Rouanet, principal instrumento de fomento à cultura no Brasil. Somados a doações e outras leis de incentivo, esses recursos viabilizaram os cerca de R$ 48 milhões investidos na obra – um investimento que se traduz em ingressos acessíveis e programação ativa.
Ao final da tarde, saí com a sensação de ter assistido a algo maior do que um concerto. O Teatro Baccarelli é um espaço que muda a lógica de quem pode ocupar um palco, quem pode sentar na plateia e, principalmente, quem pode se reconhecer ali. Até porque, quando a música clássica se encontra com a favela, os acordem ganham outro significado.
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