Um artigo publicado na revista científica Nature Astronomy na segunda-feira (2) traz revelações surpreendentes sobre o maior planeta do Sistema Solar. Segundo o estudo, Júpiter é um pouco menor e mais achatado do que se acreditava até agora.
Essa conclusão resulta de medições muito mais precisas feitas a partir de dados recentes da missão Juno, da NASA.
Em resumo:
Estudo revela que Júpiter é menor e mais achatado do que se pensava;
Novos dados vieram da sonda Juno, que orbita o planeta desde 2016;
Sinal de rádio da espaçonave atravessou a atmosfera de Júpiter, permitindo medições precisas de tamanho e forma;
Ajustes melhoram modelos do interior e explicam ventos e ciclones extremos;
Descobertas ajudam a entender a formação dos gigantes gasosos.
Representação artística da sonda Juno na órbita de Júpiter. Crédito: NASA/JPL-Caltech
Tecnologia aprimorou medições de Júpiter
Durante cinco décadas, o tamanho e a forma de Júpiter pareciam bem conhecidos. Essas estimativas, no entanto, se baseavam em observações feitas no fim do século passado por sondas desbravadoras, como as missões Voyager e Pioneer. Com o avanço da tecnologia, cientistas passaram a questionar se esses números refletiam a realidade com precisão.
Conduzida pelo Instituto Weizmann de Ciências, em Israel, em colaboração com cientistas da Itália, dos EUA, da França e da Suíça, a pesquisa resultou na medição mais detalhada já feita do tamanho e do formato do gigante gasoso.
Em um comunicado, Yohai Kaspi, professor do Departamento de Ciências da Terra e Planetárias do Instituto Weizmann, explica que medir um planeta gigante não é simples. Em teoria, bastaria conhecer a distância até ele e acompanhar sua rotação. “Mas fazer medições realmente precisas exige métodos mais sofisticados”, afirma Kaspi.
Uma ilustração de Júpiter mostrando a discrepância entre as observações da sonda Juno e as das sondas Voyager e Pioneer. Crédito: Instituto Weizmann de Ciências
Até então, o formato de Júpiter havia sido calculado com base em apenas seis medições feitas há quase 50 anos. Apesar de fundamentais para a época, essas observações ofereciam visão limitada do planeta. A diferença agora está na quantidade e na qualidade dos dados: a equipe analisou até 26 medições feitas pela sonda Juno, reduzindo incertezas e refinando os cálculos.
Lançada em 2011, Juno começou a orbitar Júpiter em 2016, enviando grandes volumes de dados à Terra sobre a estrutura, o campo gravitacional e a atmosfera do planeta. Em 2021, a missão foi estendida e a órbita da sonda ajustada, permitindo que ela passasse atrás do planeta em relação à Terra, o que significava uma oportunidade única para novas medições.
Quando Juno passa atrás de Júpiter, o sinal de rádio da sonda atravessa a atmosfera do planeta antes de chegar à Terra. Nesse percurso, a emissão é levemente bloqueada e curvada. Ao analisar essas alterações, os cientistas conseguem medir com extrema precisão o tamanho de Júpiter. Scott Bolton, investigador principal da missão Juno e pesquisador sênior do Southwest Research Institute (SwRI), nos EUA, explica que o sinal de rádio funciona como um “raio X”, revelando informações sobre a atmosfera e o formato do planeta.
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Planeta continua gigantesco
A equipe do professor Kaspi desenvolveu novas técnicas de análise, incluindo o método criado pela doutoranda Maria Smirnova, que processa os sinais curvados e transforma os dados em mapas detalhados de temperatura e densidade.
Os resultados mostram que Júpiter tem cerca de 8 km a menos de diâmetro no equador do que se estimava, e o achatamento nos polos é aproximadamente 24 km menor. Em termos simples, o planeta continua enorme, mas sua geometria agora é mais fiel à realidade do que qualquer cálculo anterior.
Embora pequenas, essas diferenças são importantes. Ajustar o tamanho de Júpiter melhora significativamente os modelos que descrevem seu interior, conciliando dados de gravidade, medições atmosféricas e teorias sobre sua estrutura. Outro ponto central do estudo foi incluir os ventos extremamente fortes do planeta, que influenciam seu formato e explicam discrepâncias antigas entre diferentes medições.
Com os ventos incluídos nos cálculos, os cientistas puderam enxergar melhor o que acontece abaixo das nuvens densas de Júpiter. Os sinais de rádio permitem observar até que profundidade esses ventos e grandes tempestades se estendem no interior do planeta.
O estudo também se conecta a pesquisas sobre os ciclones nos polos de Júpiter. Compreender esses fenômenos ajuda a explicar a relação entre a atmosfera visível e as camadas mais profundas, revelando como tudo está interligado.
O professor Yohai Kaspi (com as mãos nos bolsos), junto com a equipe liderada por ele no estudo que redefine as dimensões de Júpiter. Crédito: Instituto Weizmann de Ciências
Entender a estrutura de Júpiter ajuda a aprimorar teorias sobre a formação e evolução de gigantes gasosos dentro e fora do Sistema Solar. Como foi provavelmente o primeiro mundo a se formar, seu interior oferece pistas sobre a história da formação de sistemas planetários, inclusive da Terra.
Em breve, as técnicas desenvolvidas neste estudo serão aplicadas aos dados da missão JUICE, lançada pela Agência Espacial Europeia (ESA) em 2023 e com chegada a Júpiter prevista para 2031. A espaçonave leva um instrumento criado pelo Instituto Weizmann, que permitirá observar ainda mais profundamente a atmosfera do planeta e ampliar nosso entendimento sobre ele.
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