Nova (e minúscula) espécie remodela a árvore genealógica dos dinossauros  

Um artigo publicado na revista Papers in Palaeontology descreve uma espécie até então desconhecida, de pequeno porte, cuja descoberta ajuda a reinterpretar a evolução dos dinossauros herbívoros do período Cretáceo. Batizada de Foskeia pelendonum, ela destaca a relevância de formas diminutas no desenvolvimento e diversificação do grupo.

A descoberta envolve pelo menos cinco fósseis individuais encontrados na Formação Castrillo de la Reina, no norte da Espanha. Os restos são formados por ossos muito pequenos, o que inicialmente levantou dúvidas entre os pesquisadores. A principal questão era saber se aqueles fragmentos pertenciam a filhotes de dinossauros grandes ou a adultos de uma espécie naturalmente minúscula.

Em resumo:

Nova espécie minúscula redefine evolução dos dinossauros herbívoros cretáceos;

Fósseis na Espanha levantaram dúvida entre filhotes grandes ou adultos pequenos;

Tomografia revelou espécime adulto, confirmando espécie naturalmente diminuta;

Anatomia incomum mostra miniaturização associada a alta especialização evolutiva;

Achado preenche lacuna fóssil e destaca importância de dinossauros pequenos.

Reconstrução digital do crânio de F. pelendonum. Crédito: Dieudonné et al. 2026

Um filhote grande ou um adulto pequeno

Quando os primeiros ossos foram identificados, em 1998, não havia informações suficientes para uma conclusão definitiva. Dinossauros pequenos costumam confundir os cientistas, pois juvenis e adultos de espécies distintas podem ter tamanhos semelhantes. Com o passar do tempo, novas escavações revelaram mais materiais, permitindo uma análise mais completa do conjunto.

O avanço decisivo veio com o uso de tomografia computadorizada de alta resolução. Essa técnica permitiu examinar a estrutura interna dos ossos sem danificá-los. A equipe liderada por Paul-Émile Dieudonné, da Universidade Nacional de Río Negro, concluiu que pelo menos um dos espécimes era um adulto sexualmente maduro que teria cerca de meio metro de altura.

O nome faz referência aos pelendonos, um povo celta que habitava a região da descoberta na Antiguidade. A expressão pode ser traduzida como “forrageador pelendono leve”, destacando tanto o comportamento alimentar quanto o pequeno porte do animal.

Imagem composta do esqueleto do pé de Foskeia pelendonum, a localidade da descoberta e uma comparação de tamanho com um ser humano. Crédito: Dieudonné et al. 2026

Além do tamanho reduzido, a espécie apresenta características anatômicas incomuns. Os dentes, a mandíbula e as patas traseiras têm formas diferentes das observadas em outros ornitópodes conhecidos. O estudo descreve essas estruturas em detalhes, pois elas são essenciais para entender como o animal se alimentava e se locomovia.

Um trabalho publicado em 2016 já havia analisado parte desses fósseis, mas sem definir uma nova espécie. Na época, os autores sugeriram uma relação próxima com o Muttaburrasaurus, um dinossauro encontrado na Austrália. A comparação chamou atenção pela enorme diferença de escala entre os dois animais.

O Muttaburrasaurus podia alcançar cerca de oito metros de comprimento e pesar várias toneladas. Já o Foskeia pelendonum está entre os menores ornitópodes já identificados. Para os cientistas, essa disparidade mostra que a evolução do grupo não seguiu apenas o caminho do aumento de tamanho.

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Segundo Marcos Becerra, da Universidade Nacional de Córdoba, o pequeno porte não significa simplicidade. Em um comunicado, ele destaca que o crânio da espécie é altamente especializado, indicando uma longa história evolutiva. Essa combinação de miniaturização e complexidade desafia ideias antigas sobre a evolução dos dinossauros.

Trajetória de crescimento da espécie Foskeia pelendonum, comparada à de uma galinha adulta. Essa trajetória baseia-se em elementos ósseos de tamanhos diferentes e em sua histologia. Observe os membros anteriores proporcionalmente menores nos indivíduos mais maduros. Crédito: Dieudonné et al. 2026

Os pesquisadores afirmam que a nova espécie ajuda a preencher uma lacuna de cerca de 70 milhões de anos no registro fóssil. Segundo eles, o animal não é apenas uma versão reduzida de outros dinossauros, mas uma peça-chave para entender a origem de diferentes linhagens.

Outro aspecto curioso é o modo de locomoção. Evidências indicam que o Foskeia caminhava sobre quatro patas quando jovem e só adotava o bipedalismo mais tarde. Além disso, estudos sugerem que seu metabolismo era relativamente elevado, semelhante ao de pequenos mamíferos ou aves atuais.

Os autores classificam a espécie no grupo Rhabdodontomorpha e defendem que ela representa uma das primeiras ramificações desse ramo evolutivo. Também a consideram herbívora, embora essa classificação ainda gere debate entre especialistas. Para sobreviver em um ambiente repleto de predadores, o pequeno dinossauro provavelmente dependia de velocidade e agilidade em florestas densas.

Para Dieudonné, a descoberta reforça a importância de fósseis modestos. Segundo ele, a evolução não experimentou apenas com gigantes, mas também com formas pequenas e discretas. Prestar atenção a esses achados pode revelar capítulos inteiros da história dos dinossauros que ainda permanecem ocultos.

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