Em um espetáculo cósmico que desafia a compreensão, um buraco negro supermassivo está protagonizando um caso de “indigestão” extrema e prolongada. Quatro anos após despedaçar e consumir uma estrela que se aproximou demais, o objeto não só não se acalmou, como vem expelindo um jato de energia que aumenta exponencialmente de brilho. A descoberta, liderada pela astrofísica Yvette Cendes da Universidade de Oregon, revela um fenômeno sem precedentes que pode se tornar um dos eventos individuais mais energéticos já observados.
O episódio começou de forma comum em 2018, quando telescópios ópticos registraram um evento de ruptura de maré — o momento em que a gravidade colossal de um buraco negro destrói uma estrela, esticando-a como um espaguete. Na época, o evento catalogado como AT2018hyz parecia banal. A surpresa veio anos depois, quando observações de rádio revelaram que o buraco negro, longe de ter “digerido” a estrela em silêncio, estava emitindo quantidades colossais de energia na forma de ondas de rádio, e essa emissão só fazia aumentar.
“Na verdade, é incomum”, disse Cendes, cuja equipe publicou os resultados no Astrophysical Journal, em comunicado. “Seria difícil imaginar algo subindo dessa forma por um período tão longo.” Desde sua detecção em rádio em 2019, o brilho do jato aumentou 50 vezes. A análise dos dados indica que a radiação é emitida em um jato unilateral, potencialmente explicando por que ele passou despercebido inicialmente — se o feixe não estivesse direcionado para a Terra, seu brilho óptico seria fraco.
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A escala de energia é de tirar o fôlego. Cálculos da equipe mostram que o fluxo de rádio é comparável ao das poderosas explosões de raios gama, situando-o entre os eventos mais poderosos do Universo. Para dar uma dimensão palpável, os cientistas fizeram uma comparação lúdica com a cultura pop: enquanto fãs calcularam a energia da fictícia Estrela da Morte de Star Wars, o buraco negro “Jetty McJetface” (apelido carinhoso dado em referência ao navio Boaty McBoatface) emite entre um trilhão e 100 trilhões de vezes mais energia.
O fenômeno está longe do fim. Com base na trajetória atual, os astrofísicos preveem que o jato continuará a crescer em brilho até atingir seu pico máximo por volta de 2027. Este calendário oferece uma oportunidade rara para a comunidade científica acompanhar a evolução completa de um evento tão extremo.
A descoberta, além de seu recorde potencial, tem um impacto profundo na astronomia. Ela sugere que outros buracos negros podem estar exibindo comportamentos semelhantes de forma tardia, simplesmente porque ninguém pensou em procurar por emissões anos após a ruptura inicial de uma estrela. “Se ocorre uma explosão, por que esperar que algo seja detectado anos depois, se nada foi visto antes?”, questiona Cendes, que agora vasculha os dados em busca de outros “comedores” tardios.
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