Você faz dieta, tenta se cuidar, mas o peso simplesmente não cede?
Muitas pessoas chegam ao consultório achando que o problema é falta de força de vontade. Na prática clínica, vejo todos os dias que o intestino tem um papel muito maior no emagrecimento do que imaginamos.
Hoje já sabemos que o intestino não é apenas um “tubo” por onde o alimento passa. Ele funciona como um verdadeiro órgão metabólico e hormonal, capaz de influenciar a fome, a saciedade, a inflamação do corpo e até a forma como armazenamos gordura.
A microbiota intestinal pode sabotar sua dieta
Dentro do intestino vivem trilhões de microrganismos — a chamada microbiota intestinal. Essas bactérias ajudam na digestão, produzem substâncias importantes para o organismo e se comunicam diretamente com o nosso metabolismo.
Quando existe um desequilíbrio dessa microbiota, conhecido como disbiose, o corpo pode passar a extrair mais calorias dos alimentos, aumentar a inflamação crônica e desenvolver maior resistência à insulina. Além disso, esse desequilíbrio interfere nos hormônios que regulam a fome e a saciedade.
Ou seja: não é apenas o que você come, mas o que suas bactérias fazem com o que você come.
Intestino e cérebro: uma conversa que mexe com a fome
O intestino produz hormônios fundamentais no controle do apetite, como o GLP-1, o PYY e a grelina — substâncias que avisam o cérebro quando já comemos o suficiente ou quando ainda estamos com fome.
Quando a microbiota está desregulada, essa comunicação pode falhar. O resultado costuma ser mais fome, menor sensação de saciedade e um aumento do desejo por açúcar e alimentos ultraprocessados.
É por isso que muitas pessoas dizem: “Eu faço dieta, mas sinto uma fome que não é normal”.
Intestino preso dificulta o emagrecimento?
Aqui é importante separar sensação de realidade metabólica.
A constipação intestinal, popularmente chamada de intestino preso, pode causar distensão abdominal, inchaço e a impressão de uma “barriga maior”. Isso gera desconforto e sensação de peso, mas não significa aumento real de gordura corporal.
O que acontece é que o acúmulo de fezes e gases distende o abdômen. Além disso, a constipação costuma estar associada a baixa ingestão de fibras, pouca ingestão de água e sedentarismo.
Esses três fatores, sim, atrapalham o emagrecimento. Portanto, o intestino preso não “engorda”, mas pode estar ligado a um estilo de vida que dificulta a perda de peso.
Glúten e lactose atrapalham o emagrecimento?
Para a maioria das pessoas, não.
Glúten e lactose só interferem quando existe doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca ou intolerância à lactose. Nesses casos, o consumo pode causar gases, distensão e desconforto abdominal, aumentando a sensação de inchaço — o que não é o mesmo que ganho de gordura.
Retirar esses alimentos sem diagnóstico pode, inclusive, piorar a qualidade da alimentação, reduzindo a ingestão de fibras e nutrientes importantes para a saúde intestinal.
Emagrecer também é cuidar do intestino
O intestino influencia o peso de forma indireta, mas poderosa.
Ele participa do controle da fome, da inflamação, do metabolismo e até do comportamento alimentar.
Por isso, estratégias que ajudam o intestino também favorecem o emagrecimento. Vale investir em uma alimentação rica em fibras (verduras, legumes, frutas e grãos), aumentar a ingestão de água, praticar atividade física regularmente, dormir bem e reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados.
Entenda: o intestino não é o vilão do seu processo de perda de peso.
Mas, quando não está funcionando bem, pode se tornar um sabotador silencioso. Cuidar dele é parte fundamental de qualquer plano sério, saudável e duradouro de emagrecimento.
Cirurgião do aparelho digestivo, especialista em cirurgia bariátrica e coloproctologia.
Membro Corpo clínico dos hospitais Sírio-Libanês e Nove de Julho.
CEO do Instituto Medicina em Foco.





