Por que a previsão do tempo no Brasil erra tanto?

Para muitos usuários, a sensação é clara: aplicativos e boletins meteorológicos parecem errar bastante no Brasil. Na verdade, a percepção ainda pode ir além, indicando que em países desenvolvidos como os Estados Unidos e até mesmo nações europeias, a previsão é mais… precisa? Essa ideia não surge do nada. Em boa parte dos casos, a previsão realmente tende a ser mais consistente nessas regiões — mas não apenas por falta de capacidade técnica brasileira.

A explicação envolve uma combinação de fatores: posição geográfica, tipo de clima, infraestrutura de observação e os próprios limites físicos da atmosfera. Enquanto Europa e EUA estão majoritariamente em latitudes onde o tempo é controlado por sistemas grandes e bem organizados, o Brasil se encontra, em grande parte, sob domínio do clima tropical, onde os eventos são mais rápidos, localizados e difíceis de antecipar com precisão fina.

Para entender esses detalhes o Olhar Digital conversou com o coordenador-geral de Ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), José Aravéquia, que explicou por que comparar previsões entre países tão distintos pode ser enganoso.

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Estações meteorológicas: mais dados, previsões mais refinadas

Um ponto-chave está na disponibilidade de dados observacionais, especialmente das estações meteorológicas de superfície. O Brasil tem dimensões continentais e grandes áreas pouco povoadas, o que resulta em regiões ainda pouco monitoradas. Menos estações significam menos medições diretas para alimentar os modelos, principalmente quando o objetivo é prever fenômenos muito localizados.

Aravéquia resume esse desafio ao afirmar que grandes áreas do país ainda estão “subobservadas em questões de estações de superfície”. Nos Estados Unidos, o cenário costuma ser diferente: há uma rede muito mais densa e acessível de estações meteorológicas, sustentada por décadas de investimento público e privado. Isso permite previsões locais mais detalhadas e alertas rápidos, sobretudo para eventos severos.

Estação Meteorológica (Imagem: Shutterstock/Snapshot freddy)

No caso brasileiro, essa lacuna vem sendo parcialmente compensada por outra tecnologia. “Sem os satélites meteorológicos, a previsibilidade no Brasil seria muito menor”, explica o pesquisador. Hoje, satélites geoestacionários, de órbita polar e até o uso de sinais de GPS ajudam a suprir a falta de medições em solo, aproximando o nível de informação de regiões mais bem monitoradas.

Clima tropical: quando o tempo muda rápido demais

Mesmo com bons dados e modelos, há um obstáculo estrutural: a própria natureza do clima tropical. Grande parte do Brasil está próxima ao Equador, onde os principais eventos de tempo são gerados por processos convectivos — nuvens que se formam rapidamente a partir do calor e da umidade.

Previsão do tempo Imagem: reprodução/Inpe

Segundo Aravéquia, nos trópicos “os eventos que trazem alterações no tempo são muito mais associados à convecção”, frequentemente acompanhada de turbulência. Isso significa que uma tempestade pode se intensificar ou desaparecer em poucas horas, dificultando previsões detalhadas de curto prazo.

Em contraste, muitas regiões da Europa e dos EUA são dominadas por sistemas de escala sinótica, como frentes frias e ciclones extratropicais, que evoluem de forma mais lenta e previsível. “Isso torna a previsibilidade lá maior do que em casos como nos trópicos”, aponta o pesquisador.

Mas a comparação não é sempre desfavorável. Em previsões de escala sazonal, o Brasil pode ter vantagens. Fenômenos como El Niño e La Niña e as temperaturas do Atlântico tropical influenciam de forma consistente o regime de chuvas, especialmente no Nordeste.

Nessas situações, como explica Aravéquia, as condições do oceano “ancoram” os grandes sistemas atmosféricos, o que aumenta a previsibilidade da estação chuvosa em regiões como o semiárido.

Os mesmos modelos, resultados diferentes

Outro fator pouco conhecido é que muitos serviços de previsão usados no Brasil se baseiam nos mesmos modelos globais empregados nos EUA e na Europa, como o GFS (americano) e o ECMWF (europeu). A diferença não está apenas no modelo, mas no ambiente atmosférico onde ele é aplicado.

Isso não significa que o Brasil não tenha tecnologia própria. O INPE opera o BAM (Brazilian Atmospheric Model) e modelos regionais, além de investir no Monan, considerado o modelo de nova geração do país. Em escala climática, Aravéquia destaca que o BAM apresenta “um acerto muito bom, talvez superior ao de outros países sobre a nossa região tropical”, um modelo pensado justamente para o clima brasileiro.

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Tecnologia chega para colocar o Brasil na vanguarda

Para transformar mais dados em melhor previsão, não basta ter satélite: é preciso ainda ter máquina para analisar essa quantidade absurda de informações. O supercomputador Tupã foi referência por muitos anos, mas após uma década de uso, a tecnologia ficou defasada e sem atualizações, o sistema começou a não dar conta de tantos dados. “Como não houve renovação desse equipamento, diversas implementações e experimentos foram postergados”, explica.

Tupã (Imagem: Divulgação/Inpe)

Mas a chegada do novo supercomputador do INPE, o Jaci, pode mudar o cenário. “Felizmente, agora, a Jaci, essa infraestrutura de supercomputação, nos abre de novo o horizonte, aprimorando ainda mais a previsibilidade, especialmente sobre as regiões tropicais e também subtropicais da América do Sul”.

Jaci (Imagem/MCTI)

Na visão dele, a Jaci permite “usar todo o conteúdo de informação colhida por redes mundiais tanto de superfície quanto de satélite” e, com isso, chegar a “um diagnóstico mais preciso e detalhado” e rodar modelos com “resolução espacial e temporal mais refinada”.

Mas o que isso tudo significa?

Resumindo, Aravéquia aponta que muitas vezes parece que a previsão do tempo nos EUA ou na Europa é mais avançada — porque lá há, em geral, mais observação de superfície disponível (estações mais acessíveis e disseminadas) e porque o tempo é frequentemente governado por sistemas de grande escala mais previsíveis. Mas ele também deixa claro que, no Brasil, o desafio é físico e geográfico. E, ainda assim, em certas escalas (como a sazonal, especialmente no Nordeste), o país pode ter vantagens reais de previsibilidade quando o oceano “ancora” o clima.

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