Mercado de dívida domina tecnologia e deixa IPOs em segundo plano

O entusiasmo em torno de uma possível abertura de capital da SpaceX e de eventuais listagens de OpenAI e Anthropic tem alimentado conversas sobre uma retomada das ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) em tecnologia. No entanto, em 2026, o movimento predominante em Wall Street ocorre em outra frente: o mercado de dívida corporativa.

Relatórios recentes indicam que empresas de tecnologia, especialmente as ligadas à inteligência artificial (IA), estão recorrendo de forma intensa à emissão de títulos para financiar a expansão de infraestrutura. Segundo o UBS, a emissão global de dívida relacionada a tecnologia e IA mais do que dobrou no ano passado, atingindo US$ 710 bilhões, e pode chegar a US$ 990 bilhões em 2026.

Apesar da expectativa para a IPO da SpaceX, que recentemente adquiriu a xAI, o mercado está voltando seus olhos com mais foco para dívidas corporativas (Imagem: Sergii Chernov / Shutterstock – Edição: Ana Figueiredo / Olhar Digital)

Gigantes ampliam captação para sustentar IA

As quatro chamadas hyperscalers — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — devem investir juntas cerca de US$ 700 bilhões neste ano em despesas de capital e contratos de arrendamento financeiro para ampliar sua capacidade em IA, diante do que classificam como níveis históricos de demanda por recursos computacionais.

Parte desses investimentos pode ser coberta com caixa acumulado nos últimos anos, mas as empresas também estão ampliando a captação via dívida. O Morgan Stanley projeta uma lacuna de financiamento de US$ 1,5 trilhão para a expansão da IA, que tende a ser preenchida principalmente por crédito, à medida que as companhias deixam de conseguir bancar integralmente seus próprios investimentos.

Entre as maiores emissões do ano estão as de Oracle e Alphabet. A Oracle anunciou no início de fevereiro planos para levantar entre US$ 45 bilhões e US$ 50 bilhões em 2026 para expandir sua capacidade em IA, e rapidamente vendeu US$ 25 bilhões em dívida no mercado de grau de investimento. Já a Alphabet ampliou nesta semana sua oferta para mais de US$ 30 bilhões, após uma captação de US$ 25 bilhões em novembro.

Alphabet ampliou sua oferta esta semana, após outra captação bilionária em novembro do ano passado (Imagem: Markus Mainka / Shutterstock.com)

A Alphabet precificou títulos com vencimento em 2029 a 3,7% e papéis para 2031 a 4,1%. Após captar US$ 20 bilhões nos Estados Unidos, a empresa buscou cerca de US$ 11 bilhões adicionais na Europa. A operação foi relatada como cinco vezes superior à demanda, embora analistas apontem que uma oferta elevada tende a pressionar preços e elevar rendimentos no futuro.

Outras empresas sinalizaram possíveis captações. A Amazon registrou um pedido que permite levantar uma combinação de dívida e ações. A diretora financeira da Meta, Susan Li, afirmou que a companhia pode complementar seu fluxo de caixa com “quantidades prudentes de financiamento externo com custo eficiente”. Já o CFO da Tesla, Vaibhav Taneja, declarou que a empresa pode buscar recursos externos, “seja por meio de mais dívida ou outros meios”.

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IPOs seguem limitados apesar das expectativas

Enquanto isso, o mercado de IPOs permanece contido. Não houve registros relevantes de empresas de tecnologia dos Estados Unidos neste ano. Embora haja relatos de que a SpaceX poderia abrir capital em meados de 2026, após a fusão com a xAI, formando uma empresa avaliada por Elon Musk em US$ 1,25 trilhão, não há confirmação oficial.

OpenAI e Anthropic, avaliadas em centenas de bilhões de dólares, também são citadas em reportagens sobre possíveis estreias na bolsa, mas sem cronogramas definidos. O Goldman Sachs estima 120 IPOs neste ano, com captação de US$ 160 bilhões, acima das 61 ofertas registradas no ano passado.

IPOs de OpenAI e Anthropic podem acontecer, mas ainda não há data definida (Imagem: Ascannio/Shutterstock)

Em 2025, ocorreram 31 IPOs de tecnologia nos Estados Unidos, mais do que nos três anos anteriores somados, mas ainda abaixo das 121 operações realizadas em 2021, segundo dados compilados pelo professor Jay Ritter, da Universidade da Flórida.

Analistas apontam que a volatilidade nos mercados públicos, preocupações geopolíticas e números fracos de emprego contribuem para manter startups apoiadas por venture capital fora da bolsa. Ao mesmo tempo, o aumento concentrado de dívida em poucas empresas eleva o peso do setor de tecnologia nos índices de crédito corporativo de grau de investimento, que já representam cerca de 9% desses indicadores e podem alcançar percentuais na faixa de dois dígitos.

Com maior oferta de títulos, especialistas alertam que investidores tendem a exigir rendimentos mais altos, o que encarece o custo de capital. Empresas que precisarem retornar ao mercado nos próximos anos podem enfrentar condições menos favoráveis, com impacto direto nas despesas financeiras.

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