O Banco Central (BC) decretou, nesta quarta-feira (18), a liquidação extrajudicial do Banco Pleno (antigo Voiter) e da corretora Pleno DTVM. A medida ocorre após a autoridade monetária identificar uma deterioração severa na saúde financeira da instituição e o descumprimento de normas operacionais. O banco, que pertenceu ao conglomerado do Banco Master, era controlado por Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.
A decisão do BC congela os bens de controladores e administradores, além de interromper as atividades da instituição de forma imediata. Estima-se que o rombo a ser coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) alcance a marca de R$ 5 bilhões, somando-se aos vultosos desembolsos já realizados para sanear outras frentes ligadas ao grupo.
Motivações e o impacto no Sistema Financeiro
De acordo com o comunicado oficial do órgão regulador, a intervenção foi necessária devido ao comprometimento da liquidez e à “inobservância das determinações do Banco Central do Brasil”. Embora o Pleno seja classificado na categoria S4 – representando apenas 0,04% dos ativos totais do Sistema Financeiro Nacional (SFN) –, sua queda expõe fragilidades em modelos de captação agressivos.
Assim como o Banco Master, o Pleno adotava uma estratégia de oferecer rendimentos em CDBs bem acima da média de mercado para atrair investidores. Conforme a colunista Mariana Barbosa do Uol, essa tática acelerou a necessidade de intervenção do FGC, que já destinou R$ 36 bilhões para garantir depósitos do Master e outros R$ 6,3 bilhões para o digital WillBank.
Pontos-chave da liquidação:
O Banco Pleno havia se desvinculado formalmente do conglomerado Master há apenas três meses, o que o poupou da liquidação anterior do grupo em novembro.
O controlador Augusto Lima é investigado na Operação Compliance Zero, que apura fraudes na venda de carteiras de crédito.
Clientes com aplicações de até R$ 250 mil em CDBs e LCIs contam com a proteção do FGC, respeitando o teto por CPF e instituição.
O futuro do Credcesta e dos servidores públicos
Um dos maiores ativos do Banco Pleno é o Credcesta, um programa de cartão consignado amplamente utilizado por servidores públicos e aposentados, especialmente na Bahia. O modelo, que concede exclusividade para ofertar crédito retido em folha de pagamento por até 15 anos, foi a base do crescimento do antigo grupo de Lima.
Com a liquidação extrajudicial, o destino desse contrato e a continuidade dos serviços financeiros para esses servidores permanecem incertos. O BC afirmou que “continuará tomando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades nos termos de suas competências legais”, o que pode resultar em sanções administrativas e comunicações criminais aos órgãos competentes.
Leia também:
Will Bank e Master ‘quebraram’. Como saber se um banco é seguro?
Conta-corrente, conta poupança, conta digital e conta de pagamento: o que são e quais as diferenças
Quais bancos oferecem conta-corrente gratuita?
Segundo nota oficial do Banco Central
A liquidação extrajudicial foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da instituição, com deterioração da situação de liquidez, bem como por infringência às normas que disciplinam a sua atividade.
A autoridade monetária reforçou ainda que o processo busca preservar a integridade do sistema:
“O resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes.”
Implicações para o mercado e investidores
A queda do Banco Pleno serve como um alerta para o mercado de renda fixa. A prática de oferecer taxas de juros desproporcionais ao risco costuma esconder problemas de caixa que, a longo prazo, tornam-se insustentáveis. Para o investidor comum, o episódio reforça a importância de observar os ratings de crédito e a saúde das instituições, mesmo sob a proteção do FGC.
O impacto imediato na Bahia e em municípios conveniados ao Credcesta deve ser monitorado nas próximas semanas, uma vez que a exclusividade do crédito consignado era o pulmão financeiro do banco. Agora, o foco se volta para a capacidade do FGC em absorver mais esse bilionário desembolso sem comprometer sua própria reserva de liquidez.
Linha do tempo: do Indusval ao Banco Pleno
1991 – A origem (Banco Indusval): A instituição assume o nome de Banco Indusval, focando em crédito corporativo e agronegócio. Por décadas, foi um banco médio tradicional no mercado brasileiro.
2019 – A primeira grande mudança (Voiter): após anos de prejuízos, o banco passa por uma reestruturação e recebe um aporte de quase R$ 400 milhões. Em 2020, ele é rebatizado como Banco Voiter, com o objetivo de se tornar um banco de negócios mais digital e ágil.
Fevereiro de 2024 – A entrada do Grupo Master: O Banco Master, de Daniel Vorcaro, anuncia a compra do Voiter. A ideia era reorganizar o banco dentro do conglomerado que estava em rápida expansão.
Maio de 2024 – A saída de Augusto Lima: Augusto Ferreira Lima, então sócio de Vorcaro no Master, desliga-se do grupo para seguir carreira solo, levando consigo alguns ativos, incluindo a operação do Credcesta.
Julho de 2025 – O nascimento do Banco Pleno: Após autorização do Banco Central, Augusto Lima assume oficialmente o controle do antigo Voiter. O banco é rebatizado como Banco Pleno, focando agora em crédito consignado e adotando taxas agressivas de CDB para captar recursos.
Novembro de 2025 – Crise no Master: Enquanto o Pleno tentava se estabilizar, o Banco Master (seu antigo “irmão”) sofre uma liquidação. O Pleno escapa por ter se separado juridicamente do grupo três meses antes.
18 de Fevereiro de 2026 – O fim (liquidação): O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Pleno e da Pleno DTVM. O motivo: falta de liquidez, descumprimento de normas e a deterioração da situação financeira sob a gestão de Augusto Lima.
O post Banco Central decreta liquidação do Banco Pleno e Pleno DTVM apareceu primeiro em Olhar Digital.






