Dois crânios descobertos em Yunxian, no norte da China, acabam de ganhar uma nova posição na história da evolução humana. Um estudo recente redatou os fósseis para cerca de 1,77 milhão de anos, o que os torna os exemplares mais antigos conhecidos de Homo erectus no leste da Ásia – e afastando a hipótese de que eles estariam ligados aos denisovanos.
A nova datação transforma Yunxian em um ponto-chave para compreender a expansão inicial dos hominídeos fora da África. Se confirmada, ela indica que o Homo erectus se espalhou pelo continente asiático muito antes e de forma muito mais rápida do que se supunha.
Isso porque, até então, os fósseis mais antigos atribuídos ao Homo erectus fora da África tinham cerca de 1,63 milhão de anos, encontrados em Gongwangling, também na China. Essa cronologia sugeria que a espécie teria levado aproximadamente 140 mil anos para avançar rumo ao leste após surgir na África, há cerca de 1,9 milhão de anos.
Com a nova estimativa de 1,77 milhão de anos para Yunxian, o cenário muda. A idade dos crânios passa a coincidir com os fósseis da Caverna de Dmanisi, na Geórgia, que datam de 1,85 milhão a 1,77 milhão de anos. Isso indica que hominídeos já habitavam regiões distantes da Eurásia praticamente ao mesmo tempo – um sinal de dispersão extremamente rápida ou de uma saída ainda mais precoce da África.
A redatação foi feita por meio da análise de isótopos de alumínio-26 e berílio-10 em grãos de quartzo presentes na camada sedimentar onde os crânios estavam preservados, às margens do rio Han. O método permitiu estabelecer com maior precisão o momento em que esses indivíduos viveram.
Fim da hipótese denisovana
A nova idade também enfraquece uma proposta anterior que sugeria que os crânios poderiam estar ligados aos denisovanos.
Um estudo anterior havia reconstruído digitalmente um dos crânios de Yunxian e sugerido semelhanças com o chamado Homo longi, identificado como denisovano. Com base nas datas anteriores, os autores propuseram que esses indivíduos teriam vivido pouco após a separação do ramo denisovano da linhagem humana.
Com 1,77 milhão de anos, no entanto, essa conexão se torna improvável. Como observou o paleoantropólogo John Hawks, da Universidade de Wisconsin, “1,77 milhão de anos é simplesmente muito tempo para ser uma conexão crível com o grupo denisovano, que, segundo o DNA, surgiu por volta de 700 mil anos atrás”.
Então, quem chegou primeiro? A nova cronologia levanta outra questão intrigante: o Homo erectus foi realmente o primeiro hominídeo a alcançar o leste da Ásia?
Dois sítios arqueológicos chineses sugerem uma ocupação ainda mais antiga. Em Shangchen, ferramentas de pedra foram encontradas em camadas datadas de 2,1 milhões de anos. Em Xihoudu, no norte da China, artefatos semelhantes remontam a cerca de 2,43 milhões de anos.
Esses locais não apresentaram fósseis humanos associados, o que impede a identificação direta dos fabricantes das ferramentas. Se não eram Homo erectus, que só surge no registro fóssil africano por volta de 1,9 milhão de anos, a autoria poderia recair sobre espécies mais antigas do gênero Homo, como Homo habilis ou Homo rudolfensis.
Para Christopher Bae, coautor do estudo, essa discrepância abre duas possibilidades: ou a origem do Homo erectus precisa ser recuada para cerca de 2,5 milhões de anos, ou outros hominídeos migraram para fora da África antes dele.
Debate sobre Dmanisi
A discussão também reacende o debate sobre os fósseis de Dmanisi. Alguns pesquisadores consideram que esses restos pertencem a uma forma inicial de Homo erectus, enquanto outros defendem que se aproximam mais de espécies anteriores do gênero.
Curiosamente, tanto as reconstruções anteriores quanto a nova análise concordam que os crânios de Yunxian apresentam faces relativamente achatadas – traço mais próximo do Homo erectus chinês posterior do que dos hominídeos de Dmanisi, cuja região facial projeta-se mais para frente.
Essa diversidade sugere que a expansão humana primitiva pode ter sido mais complexa do que um único movimento migratório.
Novas escavações à vista?
A redatação de Yunxian pode alterar estratégias de pesquisa na China. Por muito tempo, acreditava-se que não haveria vestígios humanos em camadas com mais de 1,7 milhão de anos. Agora, a possibilidade de ocupações ainda mais antigas pode incentivar escavações em níveis sedimentares mais profundos.
Segundo Darryl Granger, outro coautor do estudo, muitos desses sedimentos com mais de dois milhões de anos simplesmente não foram explorados em busca de fósseis humanos.
Além disso, ossos de animais dessa mesma antiguidade já foram encontrados em alguns desses locais, mas ainda não receberam análises detalhadas para verificar se poderiam incluir restos de hominídeos.
As evidências fósseis e genéticas continuam apontando que a nossa espécie evoluiu na África antes de se espalhar pelo mundo. No entanto, o quadro que emerge é o de múltiplas ondas migratórias ao longo da história do gênero Homo.
A nova datação de Yunxian reforça essa visão de um passado dinâmico, com diferentes espécies ocupando regiões da Eurásia muito antes do surgimento do Homo sapiens.
Com informações do site Ars Technica.
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