Distopia da IA? Relatório prevê demissões, desemprego e choque na economia

O entusiasmo com a inteligência artificial começa a dividir investidores globais entre euforia e receio. Se, por um lado, a tecnologia impulsiona investimentos bilionários, por outro, cresce o temor de que o mercado esteja inflando uma bolha – ou até subestimando os efeitos econômicos da automação em larga escala.

Uma pesquisa recente do Bank of America mostra que, pela primeira vez, a “bolha da IA” se tornou a principal preocupação entre investidores de crédito. Cerca de 23% dos entrevistados com algum grau de investimento apontaram esse risco como sua maior apreensão, em comparação aos 9% da mesma pesquisa realizada em dezembro. O temor superou outros riscos tradicionalmente dominantes, como tensões geopolíticas ou erros de política monetária.

Segundo os estrategistas do banco, a preocupação central gira em torno de um possível crescimento insustentável dos investimentos e das avaliações de empresas ligadas à inteligência artificial. Ainda assim, o levantamento – repercutido pela Bloomberg – indica uma contradição: apenas 10% dos investidores disseram temer que a obsolescência corporativa impulsionada pela IA seja o principal risco à frente.

Ao mesmo tempo, as previsões para emissão de títulos por grandes empresas de tecnologia – os chamados hiperescaladores – subiram para US$ 285 bilhões neste ano, acima dos US$ 210 bilhões projetados anteriormente.

Enquanto isso, um relatório da Citrini Research adicionou combustível ao debate ao projetar um cenário extremo para 2028. O documento, que ganhou ampla repercussão nos mercados, descreve uma recessão provocada pela substituição acelerada de trabalhadores por sistemas de IA. No cenário traçado, o desemprego poderia atingir 10,2%, impulsionado por cortes em funções administrativas e pela automação de softwares e aplicativos de entrega.

Segundo o autor do relatório, Alap Shah, o avanço tecnológico criaria um ciclo de retroalimentação negativo: ganhos de eficiência levariam a menos contratações, ampliando demissões e pressionando ainda mais o consumo e o crédito. A combinação de desemprego elevado com inadimplência em hipotecas e empréstimos privados poderia desestabilizar mercados financeiros, causando um choque na economia.

Analistas ainda não têm um consenso sobre bolha de IA – mas discussão já movimenta o mercado (Imagem: royyimzy / iStock)

Investidores discordam sobre ‘distopia’ da IA

A reação foi imediata em alguns setores. Investidores estão se desfazendo de ações de empresas de software e outros negócios que poderiam, um dia, ser substituídos pela IA. O índice de software e serviços do S&P 500 acumula uma queda superior a 30% desde outubro do ano passado.

Por outro lado, fabricantes asiáticas de semicondutores registraram forte valorização no mesmo período. A análise dos especialistas consultados pela agência Reuters é que, mesmo em um cenário de disrupção, empresas da cadeia de suprimentos (como produtoras de chips, data centers e fornecedoras de energia) tendem a sair fortalecidas.

Para Christopher Forbes, da CMC Markets, a divergência faz sentido: se a IA reduz drasticamente o custo da programação e automatiza funções, o valor se concentra em quem fornece a infraestrutura. “Quem estiver na cadeia de suprimentos sairá ganhando”, resume.

Outros analistas pedem cautela diante do pessimismo. Nick Ferres, da Vantage Point Asset Management, avalia que as projeções mais alarmistas devem ser consideradas como hipóteses de risco, não como destino inevitável. Ele argumenta que a economia tende a se adaptar a transformações tecnológicas.

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