Após ataques aéreos apoiados pelos Estados Unidos em território iraniano, aliados norte-americanos no Golfo enfrentam uma nova ameaça: o drone ‘kamikaze’ Shahed-136, projetado para colidir diretamente com seus alvos. Esta aeronave não tripulada, produzida pelo Irã, tornou-se central na estratégia de retaliação do país contra os EUA e seus parceiros regionais.
O Shahed-136, versão de maior alcance, já foi lançado em milhares de unidades desde o início do conflito. Apesar de sua aparência modesta, especialistas o chamam de versão econômica do míssil de cruzeiro, destacando a disparidade entre seu baixo custo e o efeito que causa sobre as defesas inimigas.
Embora a maioria dos drones tenha sido interceptada por sistemas de defesa fornecidos pelos EUA, como os mísseis Patriot, alguns Shaheds ainda atingiram seus alvos. O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos informou que, dos 941 drones iranianos detectados desde o início do conflito, 65 caíram em território do país, atingindo portos, aeroportos, hotéis e centros de dados.
O poder do volume na estratégia iraniana
Analistas apontam que a eficácia do Shahed está no volume de uso. Os drones são baratos e fáceis de produzir em massa, enquanto os interceptores podem custar milhões de dólares. Isso torna o sistema ideal para ataques em enxame, sobrecarregando as defesas aéreas: cada drone interceptado representa um recurso defensivo de alto valor gasto.
Patrycja Bazylczyk, analista do Missile Defense Project no Center for Strategic and International Studies (CSIS), afirmou à CNBC que “o Shahed‑136, entre outros sistemas aéreos não tripulados, permitiu que Estados como Rússia e Irã impusessem custos desproporcionais”. Ela acrescenta que esses drones forçam adversários a gastar interceptores caros em aeronaves de baixo custo, além de gerar um fardo psicológico constante sobre a população civil.
Relatórios do governo dos EUA descrevem o Shahed-136 como uma “aeronave não tripulada de ataque unidirecional”, produzida por entidades ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica. Em comparação com mísseis balísticos, ele voa baixo e lento, transporta uma carga relativamente modesta e atinge predominantemente alvos fixos, explicou Behnam Ben Taleblu, diretor sênior do programa do Irã na Foundation for Defense of Democracies, à CNBC.
Estima-se que cada unidade custe entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, enquanto mísseis balísticos e de cruzeiro podem chegar a milhões de dólares.
Disparidade de custos e desafios para a defesa aérea
A diferença de custos é um problema estratégico. Sistemas de defesa aérea em países do Golfo e em Israel podem ter interceptores custando entre US$ 3 milhões e US$ 12 milhões, segundo documentos do Departamento de Defesa dos EUA. Isso significa que, em uma guerra de atrito, os drones podem desgastar rapidamente os estoques de interceptores.
Bazylczyk destaca que a estratégia do Irã é gastar drones primeiro e preservar mísseis balísticos para o longo prazo. O sucesso dessa tática depende de estoques, manutenção da cadeia de produção e da capacidade dos EUA e Israel de interromper o fornecimento de componentes.
Os EUA tentam desarticular a produção do Shahed-136, incluindo sanções recentes a fornecedores na Turquia e nos Emirados Árabes Unidos, mas a experiência de uso dos drones pela Rússia no campo de batalha da Ucrânia mostra que eles podem ser fabricados em larga escala mesmo durante conflitos e sanções. Autoridades americanas afirmam que o Irã lançou mais de 2.000 drones até meados da semana, com capacidade de produzir centenas de unidades adicionais semanalmente, segundo especialistas citados pelo jornal The National.
Joze Pelayo, analista do Atlantic Council, alerta que países do Golfo correm risco de esgotar seus interceptores, especialmente com ataques coordenados de aliados iranianos como Hezbollah e Houthis, que podem reduzir os estoques em poucos dias.
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O Shahed e o campo de batalha moderno
O Shahed-136 foi divulgado publicamente por volta de 2021 e ganhou destaque quando a Rússia começou a utilizá-lo na Ucrânia em 2022, após fornecimento pelo Irã. Desde então, o Kremlin recebeu milhares de unidades e iniciou a produção baseada nos designs iranianos, mostrando que o modelo é reproduzível e escalável.
O drone transporta ogivas de 30 kg a 50 kg de explosivos, com versões avançadas alcançando até cerca de 1.900 km. Michael Connell, especialista em Oriente Médio do Center for Naval Analyses, afirmou à CNBC que o Shahed-136 se mostrou tão eficaz que os EUA fizeram engenharia reversa e utilizaram sua própria versão contra alvos iranianos, confirmada pelo Comando Central dos EUA.
Para lidar com o aumento do uso de drones, estratégias estão evoluindo. Taleblu observa que a Ucrânia tem derrubado drones com canhões de aviões de caça, uma alternativa mais econômica que interceptores. Países do Golfo também consideram soluções sustentáveis: alguns estão em negociação para adquirir interceptores ucranianos mais baratos.
O Ministério da Defesa do Catar informa que utiliza jatos da força aérea em conjunto com defesas terrestres para interceptar ataques iranianos, incluindo os Shahed. Alternativas como guerra eletrônica e sistemas de energia direcionada, como o Iron Beam de Israel, são mais econômicas que interceptores tradicionais. Ainda assim, analistas indicam que países do Golfo não possuem capacidades rápidas de defesa anti-drone em grande volume, e o desenvolvimento desses sistemas levará anos, segundo Pelayo.
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