Por Dr. Leandro de Paula Gregório – Cirurgião Plástico, Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
No consultório, eu aprendi que cicatrizes não são apenas marcas na pele. Muitas vezes, elas contam histórias de dor, superação e silêncio.
Quando falamos em cirurgia plástica, a primeira imagem que vem à mente costuma ser estética. Mas existe uma parte da nossa especialidade que vai muito além do espelho. É a cirurgia que reconstrói identidade, devolve autonomia e ajuda mulheres a se reconhecerem novamente.
Na semana do Dia Internacional da Mulher, eu quero lembrar vocês de que, para muitas delas, reconstruir o corpo é também reconstruir a própria história.
Reconstrução mamária: muito além da mama
O câncer de mama não retira apenas um órgão. Ele impacta feminilidade, sexualidade, autoestima e, muitas vezes, a sensação de pertencimento ao próprio corpo.
A reconstrução mamária não é vaidade. É parte do tratamento. É cuidado integral.
Quando uma mulher passa por uma mastectomia, ela enfrenta uma ruptura simbólica profunda. Ao reconstruirmos a mama — seja com prótese, expansor ou tecido do próprio corpo — não estamos apenas devolvendo volume. Estamos ajudando essa paciente a resgatar confiança, segurança e identidade.
Muitas relatam que voltam a usar roupas que haviam abandonado. Outras dizem que conseguem se olhar no espelho sem reviver o trauma da doença. Isso é saúde mental.
Após a grande perda de peso: quando o excesso de pele pesa mais que os quilos
Com o aumento dos tratamentos para obesidade, incluindo cirurgia bariátrica, vemos um número crescente de mulheres que vencem uma longa batalha contra o excesso de peso.
Mas a perda significativa de quilos traz outro desafio: o excesso de pele.
Abdome, braços, coxas e mamas podem apresentar flacidez importante, causando não apenas desconforto estético, mas também problemas funcionais — dermatites, dificuldade de mobilidade, dor lombar e limitação para exercícios.
A cirurgia reparadora nesse contexto não é luxo. É continuidade do tratamento.
Quando retiramos o excesso de pele, estamos permitindo que essa mulher viva plenamente o corpo que conquistou. Estamos fechando um ciclo.
Reconstrução após violência: devolver identidade é devolver dignidade
Talvez um dos momentos mais delicados da cirurgia plástica seja atender mulheres que sofreram violência física.
Traumas faciais, queimaduras, cicatrizes profundas. Cada marca carrega uma história difícil.
A reconstrução nesses casos tem um significado que ultrapassa a técnica. Ela devolve algo essencial: a possibilidade de não ser lembrada, todos os dias, da violência sofrida.
A cirurgia não apaga o passado, mas pode ajudar a interromper o ciclo de reviver a dor ao se olhar no espelho.
Cirurgia plástica também é saúde emocional
É importante dizer: cirurgia plástica não resolve conflitos internos nem substitui acompanhamento psicológico quando necessário.
Mas ela pode ser uma ferramenta poderosa dentro de um cuidado multidisciplinar.
Quando indicada com responsabilidade, ética e preparo emocional, a cirurgia pode restaurar não apenas contornos corporais, mas autoestima, confiança e qualidade de vida.
Existe uma diferença enorme entre operar para atender uma pressão externa e operar para atender um desejo consciente de reconstrução.
A primeira fragiliza.
A segunda fortalece.
Beleza é também um ato de respeito
No Dia da Mulher, é fundamental reforçar que cada mulher deve ser dona de suas escolhas — inclusive sobre seu próprio corpo.
A cirurgia plástica não deve ser instrumento de padronização. Deve ser instrumento de reparação, funcionalidade e autonomia.
Porque, em muitos casos, o que reconstruímos vai além da pele.
Reconstruímos identidade.
Reconstruímos autoestima.
Reconstruímos dignidade.
E isso, definitivamente, é muito mais do que estética.






