O SXSW começa no dia 12 de março em Austin, no Texas, e por anos carregou o título de maior festival de tecnologia do mundo — o tipo de evento cujos keynotes pautam coberturas, viram referência e ecoam muito além de março.
O que a escolha dos keynotes do SXSW deixam de recado
Há uma década frequentando o SXSW, aprendi a prestar atenção nos keynotes menos pelo que dizem e mais pelo que os curadores querem dizer sobre o momento que vivemos. Não são apenas palestras grandes (ou só). Elas funcionam como uma espécie de bússola cultural do festival, as ideias que vão ecoar nos corredores, nos painéis menores e nas conversas sobre tecnologia ao longo do ano. Acho um grande poder quando se pautam essas histórias. Mas o que acho que eles querem falar sobre esse ano?
Analisando a lista de confirmados, senti que o maior festival de tecnologia do mundo parece estar com vontade de falar sobre tudo, menos tecnologia. Ou, mais precisamente, está usando tecnologia como pano de fundo para chegar a outros lugares: cultura, política, natureza, emoção humana.
Quem controla o imaginário quando todos podem produzir imagens
A presença de Steven Spielberg num festival de tecnologia pode parecer óbvia demais — cinema, entretenimento, tudo certo. Mas acho que a escolha diz mais do que parece.
A presença de Steven Spielberg num festival de tecnologia pode parecer calculada demais e talvez seja. Ele estará em Austin para divulgar Disclosure Day, seu novo filme de ficção científica com Emily Blunt, sobre OVNIs, com estreia marcada para junho. Mas a escolha dele como keynote diz mais do que parece, especialmente agora.
Spielberg passou décadas ajudando a construir o imaginário coletivo sobre tecnologia e futuro. O que me interessa não é celebrar isso, mas a pergunta que a presença dele coloca neste momento específico: quem molda esse imaginário quando produzir imagens, narrativas e mundos ficcionais se torna acessível a qualquer pessoa com uma ferramenta de IA generativa? O que muda na cultura — e no cinema — quando a autoria se dilui?
Ainda há espaço para ativismo nos Estados Unidos de 2026?
Jane Fonda sobe ao palco com uma palestra chamada Say It Louder: Artists, Activism & the First Amendment. O título já diz o suficiente.
O que me interessa na escolha dela não é a trajetória, que é longa e conhecida, mas o timing. Num momento em que liberdade de expressão virou campo de batalha político, em que plataformas decidem o que circula e o que desaparece, trazer uma figura com essa história para um keynote é uma declaração de curadoria.
Vou ser honesta: não sei se acredito que artistas percebam essas tensões antes de todo mundo. Mas sinto um certo alívio de encontrar espaço na curadoria do SXSW para o ativismo, para ideias que consideram certas — especialmente na distopia americana de 2026. Num festival que corre o risco de virar vitrine corporativa, isso não é pouca coisa.
Quando a IA ouve outras espécies
Aza Raskin é o keynote que mais me interessa este ano. Cofundador do Earth Species Project, ele trabalha em uma das aplicações mais perturbadoras — no bom sentido — da inteligência artificial: usar o aprendizado de máquina para analisar vocalizações animais e identificar padrões que possam indicar linguagem.
O que me fascina não é só a ciência. É o deslocamento de perspectiva que a ideia propõe e que parece ficção científica até você perceber que não é. Durante anos, a pergunta dominante foi como fazer máquinas falarem melhor com humanos. Raskin está fazendo outra: e se a IA nos ajudasse a ouvir o resto do planeta? As implicações vão muito além da biologia — tocam em como entendemos consciência, comunicação e, no limite, o que consideramos digno de proteção.
O próximo passo da IA: ler emoções
Rana el Kaliouby aparece na programação com um trabalho que acompanho há anos. Pioneira em inteligência artificial emocional, cofundadora da Affectiva e hoje sócia do fundo Blue Tulip Ventures, ela dedica sua carreira a uma missão que se resume bem em poucas palavras: humanizar a tecnologia antes que ela nos desumanize.
A palestra se chama Why the Future of AI Must be Human Centric. O título poderia soar como mais um mantra corporativo se não viesse de alguém que passou duas décadas construindo sistemas capazes de ler microexpressões faciais em tempo real. Ela sabe exatamente o que essa tecnologia pode fazer. E é justamente por isso que as perguntas que ela levanta — como inovar com intenção, como desenhar empresas cada vez mais orientadas por IA sem abrir mão da resiliência humana — ganham outro peso.
O que esses keynotes dizem sobre o SXSW deste ano
Quando coloco esses nomes lado a lado, o padrão que percebo é o seguinte: a tecnologia não é o assunto, ela é a infraestrutura invisível por baixo de tudo. Spielberg fala de imaginário, Fonda de ativismo, Raskin de linguagem animal, el Kaliouby de emoção. A IA aparece em todos, mas como pano de fundo, o que, curiosamente, talvez seja o sinal mais claro de que ela já virou infraestrutura, ubíqua demais para ser protagonista.
Tenho um pouco de preguiça da dualidade humano versus tech. Mas reconheço que a curadoria deste ano está fazendo algo mais interessante do que essa oposição: está tratando a tecnologia como condição, não como tema.
Pode ser cedo para chamar isso de virada. Mas tratar a IA como infraestrutura — e não como tema — é, no mínimo, a aposta mais radical que o festival fez em anos.
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