Desde muito tempo atrás, pouco mais de sete mil anos, valas comuns europeias revelaram evidências brutais de violência. São várias as razões para isso, mas mostram como os antigos queriam matar todos os seus inimigos, independentemente de cor, raça, sexo ou idade.
Agora, um estudo sobre um massacre de 2.850 anos e sua respectiva vala comum, em Gomolava (atual Sérvia), traz a evolução dos assassinatos em massa.
Essa vala é composta principalmente de mulheres e meninas, o que, segundo Barry Molloy, Professor Associado, Escola de Arqueologia, University College Dublin, e Linda Fibiger, Codiretora do Programa de Mestrado em Osteoarqueologia Humana, Universidade de Edimburgo, sugere mudança na violência pré-histórica.
Mulheres e crianças não eram vítimas colaterais, mas, sim, alvos deliberados. “Analisar quem foi morto e como essas pessoas estavam relacionadas pode nos revelar mudanças nas atitudes antigas em relação ao assassinato de combatentes – mas também nas escolhas de alvos entre não combatentes”, dizem.
O sítio arqueológico de Gomolava foi escavado pela primeira vez em 1971 e é a segunda de duas valas comuns contemporâneas. Havia 77 pessoas lá. O estudo recente trouxe à tona as circunstâncias que envolveram suas mortes.
A equipe descobriu que a teoria original — de que uma epidemia poderia ter dizimado pessoas de um único assentamento — não se sustenta, pois não há evidências genéticas e isotópicas.
Os dados, na verdade, apontam que essas pessoas descendiam de região mais ampla, mas eram de distintos assentamentos. Havia apenas uma mãe e suas duas filhas. Os demais não possuíam parentesco.
Os pesquisadores queriam entender por que essas pessoas foram escolhidas para serem assassinadas. O estudo de valas como essa, além de indicar quais membros foram deslocados e mortos, também tenta entender como e por que fatores, como discórdia, ambição, crenças ou rivalidades, poderiam levar pessoas a planejar assassinatos.
O que a pesquisa atual indicou?
O estudo em cima dos ossos dessa vala comum em particular trouxe história brutal: as pessoas foram mortas, especialmente, por golpes na cabeça;
Os corpos foram amontoados em uma antiga casa subterrânea, que fazia parte de uma pequena aldeia;
Essas pessoas teriam sido sepultadas respeitosamente, com oferendas e itens pessoais;
Estudos dos dentes das crianças indicam número desproporcionalmente maior de meninas;
Em outras valas semelhantes, crianças e mulheres jovens são sub-representadas por conta de seu valor como escravas ou para reprodução, mas Gomolava é uma exceção e inverte esse padrão.
Na região, a combinação de arqueologia e métodos genéticos e isotópicos permitiu que os pesquisadores trouxessem de volta a natureza, o contexto social e o propósito estratégico do massacre.
Segundo os cientistas, o assassinato seletivo acabou com linhagens familiares e interrompeu o futuro dessas comunidades. Entre os possíveis motivos, estão vingança ou estabelecimento de domínio na região.
Essa constatação significa uma mudança radical na natureza dos conflitos violentos. Apesar de ser um local em um tempo e lugar específicos, mostra como o tratamento dado a assassinatos em massa é capaz de evidenciar grandes mudanças nas atitudes relacionadas à violência como estratégia social.
Na opinião dos pesquisadores, nessa região, provavelmente houve a coexistência de violência para exercer poder social e para afirmar controle ou autoridade.
“Na ausência de sistemas jurídicos formais, a capacidade de lutar podia, por si só, funcionar como um fator de dissuasão. O conflito violento era, portanto, um meio extremo – porém sempre presente – de resolver disputas intergrupais”, dizem.
Segundo eles, a vala coletiva de Gomolava revela como os que moldaram as trajetórias sociais em vários campos do discurso social foram fundamentais para resolver conflitos, seja de forma pacífica ou via dominação e extermínio.
Os pesquisadores argumentam que vários grupos competiam pela posse de terras na região e que o assassinato em massa era estratégico para afirmar domínio ou hegemonia sobre uma comunidade espalhada por diversos assentamentos.
“Independentemente de tais sepulturas representarem grupos étnicos, culturais ou sociais distintos em conflito, a brutalidade dos assassinatos seletivos permanece um fio condutor comum. Ao buscar compreender como a paz foi negociada e administrada, e como diferentes formas de poder desempenharam papéis nesse processo, um primeiro passo crucial é entender melhor quem foi alvo e morto em episódios de violência”, completam.
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