A abordagem da medicina em relação à contracepção na adolescência vem passando por mudanças importantes, impulsionadas por dados preocupantes: no Brasil, um em cada sete bebês nasce de mãe adolescente, segundo o Sistema Único de Saúde, o que representa 1.043 partos por dia nessa faixa etária.
Diante desse cenário, diretrizes clínicas nacionais e internacionais passaram a recomendar os métodos contraceptivos reversíveis de longa duração (LARCs) como primeira linha para adolescentes, por combinarem alta eficácia, segurança e independência do uso correto.
Segundo Edson Ferreira, da Divisão de Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, houve uma mudança clara de paradigma. “Hoje, sociedades científicas reforçam que idade ou nuliparidade não são contraindicações ao uso de LARCs, que são os métodos com maior efetividade contraceptiva”, afirma. Um destaque dessa nova fase é o implante subdérmico de etonogestrel, atualmente o único LARC com aprovação em bula para adolescentes, o que, segundo o especialista, traz segurança ética, legal e regulatória para médicos, famílias e serviços de saúde.
Apesar dos avanços, ainda existem resistências baseadas em mitos, como o receio de infertilidade futura ou a ideia de que o acesso à contracepção estimule a atividade sexual.
“A ciência mostra que oferecer contracepção protege a saúde reprodutiva e não incentiva comportamentos”, ressalta Ferreira. Para ele, ampliar o acesso aos LARCs vai além da prevenção da gravidez não planejada.
“A autonomia reprodutiva impacta diretamente a permanência escolar, a inserção no mercado de trabalho e a redução da vulnerabilidade social”, conclui, destacando a importância de um aconselhamento individualizado, acolhedor e baseado em evidências.



