O Irã completa nove dias de isolamento digital total nesta segunda-feira (09). Em resposta à ofensiva militar de Israel e dos Estados Unidos, o governo cortou quase todos os pontos de acesso à rede mundial, deixando a conectividade nacional em apenas 1% da sua capacidade normal. O apagão, monitorado pela plataforma NetBlocks, que funciona como um “termômetro” global da saúde da internet, trava o fluxo de notícias tanto para fora das fronteiras quanto entre as cidades do país.
Essa barreira tecnológica silencia a população e impede que o mundo conheça a real dimensão dos danos causados pelos bombardeios. Ao derrubar a rede, o regime aplica uma tática de controle de narrativa, dificultando que movimentos sociais se organizem ou que relatos independentes sobre vítimas cheguem à comunidade internacional.
Apagão imposto pelo governo do Irã impede a proteção de civis e centraliza o controle da informação
A interrupção deliberada da rede tem consequências diretas na segurança dos cidadãos. Sem conexão, a população perde o acesso aos alertas de evacuação emitidos pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). Essas mensagens funcionam como guias de sobrevivência porque indicam coordenadas de áreas seguras antes de ataques aéreos. Sem elas, moradores de centros urbanos ficam sem orientação sobre onde se proteger do perigo iminente.
O isolamento também gera um estado de angústia permanente para iranianos que vivem no exterior. Com a rede inacessível e linhas fixas e móveis instáveis, checar a situação de parentes em zonas de conflito virou um desafio.
“Quando acordo de manhã, minha primeira pergunta é: ‘Meus pais ainda estão vivos? Estão ilesos?’”, disse Hayberd Avedian, membro de associação juvenil na Alemanha, ao DW.
Segundo a pesquisadora Tahireh Panahi, da Universidade de Kassel, esse “vácuo informativo” é estratégico. “O regime clerical garante que as informações sobre seus crimes não cheguem ao mundo exterior”, observou a pesquisadora, também em entrevista ao DW.
Enquanto o cidadão comum permanece desconectado, a censura apresenta uma brecha seletiva: os chamados “chips brancos”. Trata-se de cerca de 50 mil cartões pré-pagos anônimos com acesso livre à rede, operados por apoiadores do regime. Esse grupo utiliza o privilégio técnico para inundar as redes sociais com propaganda estatal e versões oficiais do conflito. Isso ocupa o espaço deixado pela ausência de vozes independentes.
O uso do apagão como arma política é uma prática recorrente na história recente do país, já aplicada nos protestos de janeiro e na guerra de 12 dias em junho de 2025. No entanto, a escala atual é sem precedentes. Na última quinta-feira (05), a NetBlocks registrou o marco de 120 horas consecutivas de queda, superando em duração e complexidade técnica os bloqueios anteriores registrados em solo iraniano.
Na tentativa de romper o cerco, parte da população recorre à internet via satélite ou ao uso de VPNs (ferramentas que funcionam como “túneis digitais” para contornar bloqueios geográficos). Em resposta à resistência tecnológica, o governo do Irã emitiu alertas oficiais desencorajando o uso dessas alternativas. A justificativa: a manutenção do isolamento é necessária para a segurança nacional durante a guerra.
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