Impossível pensar na Cidade do México sem que o nome de Frida Kahlo surja quase imediatamente. Setenta e um anos após sua morte, ela segue inspirando exposições pelo mundo e, na capital mexicana, ainda movimenta filas e paixões.
Agora há um novo endereço para entender quem foi Frida além dos autorretratos. Em Coyoacán, a poucos quarteirões do Museo Frida Kahlo, conhecida como a Casa Azul, abriu em setembro de 2025 o Museo Casa Kahlo, também chamado de Casa Roja.
O vermelho da fachada simboliza os afetos que marcaram a vida da família KahloDaniele Bellini/Arquivo pessoal
O vermelho vibrante da fachada é uma homenagem ao papel que a casa teve na história da família. “Este foi durante muito tempo o centro da vida familiar, onde viveram os pais de Frida e onde se concentravam os afetos da família”, me contou Alejandro García, gerente de conteúdo do museu. “Por isso a casa hoje assume esse vermelho.”
A abertura relativamente recente tem uma explicação simples: a casa permaneceu habitada pela família até pouco tempo. “Aqui viveu Cristina Kahlo e, depois, seus descendentes. A residência só deixou de ser familiar há cerca de dois anos”, explicou García.
Se na Casa Azul conhecemos Frida Kahlo como artista e mito, na Casa Roja encontramos a filha, a irmã e a tia – a Frida do círculo íntimo.
A entrada da Casa Roja, onde estão guardadas memórias da família KahloDaniele Bellini/Arquivo pessoal
A casa da família
O imóvel da rua Aguayo 54 foi adquirido pela família em 1929, pouco depois do casamento de Frida com o muralista Diego Rivera. Com dívidas antigas quitadas, os pais da artista, Guillermo Kahlo e Matilde Calderón, decidiram se estabelecer ali.
O patriarca, Guillermo Kahlo, nasceu em Pforzheim, na Alemanha, e chegou ao México em 1890. Inicialmente trabalhou em negócios da comunidade alemã, antes de consolidar carreira como um dos principais fotógrafos de arquitetura e patrimônio do país no fim do século 19 e início do 20.
Seu trabalho chamou a atenção da Secretaria de Hacienda durante o governo de Porfirio Díaz. A partir de então, documentou edifícios públicos, templos e obras em diversos estados, além de registrar o processo de modernização da capital mexicana.
No Museo Casa Kahlo, Guillermo aparece como uma das bases da formação estética de Frida. O acervo reúne suas fotografias, aquarelas pouco conhecidas e até uma câmara escura montada em sua homenagem.
Obras em aquarela de Guillermo Kahlo, o pai de FridaDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Uma das experiências mais interessantes acontece justamente nessa sala. Ali, experimentei tirar uma foto com Frida ao fundo e vi ela ser “revelada” digitalmente, em referência ao processo fotográfico tradicional. Um gesto simples e simbólico: sair dali também com uma memória revelada.
Na câmara escura visitantes saem com um registro afetivo do passeioDaniele Bellini/Arquivo pessoal
O caminho até Aguayo 54
Antes de se mudarem para Aguayo, a família viveu no centro da cidade. No fim do século 19, estabeleceu-se na Plazuela de Juan Carbonero, próxima à Alameda Central, onde nasceram as filhas Matilde e Adriana. Foi ali também que Guillermo montou seu primeiro estúdio fotográfico.
Anos depois, a família construiu a casa da rua Londres, em Coyoacán, onde nasceram Frida e Cristina. Já na década de 1930, Aguayo 54 se tornou o endereço definitivo.
A residência foi habitada até 2023, quando ainda moravam ali descendentes de Cristina Kahlo. Ao longo de quase um século, a casa acolheu quatro gerações e se consolidou como ponto de encontro entre pais, filhas e netos, onde os laços familiares eram cultivados no dia a dia.
Frida Kahlo com seus sobrinhos: laços cultivados no dia a diaDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Cristina esteve ao lado da irmã nos momentos mais difíceis. Depois de enfrentar a poliomielite ainda criança, Frida sofreu, aos 18 anos, o devastador acidente de bonde de 1925, que deixou marcas permanentes em seu corpo. Vieram então inúmeras cirurgias, e era Cristina quem permanecia ao lado dela, segurando sua mão.
Na Casa Roja, esse lado humano ganha destaque. Caminhando pelos cômodos, a sensação de intimidade e cuidado da família aparece o tempo todo.
O laço forte entre Frida e a irmã Cristina ganha vida no Museo Casa KahloDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Memória viva
O museu não se concentra em reproduções de obras famosas. Seu foco é a história da família Kahlo e os anos de formação da artista. Também há espaço para conhecer sua atuação como professora na Escuela Nacional de Pintura, Escultura y Grabado La Esmeralda, onde orientou alunos que ficaram conhecidos como “Los Fridos”.
Os “Fridos”, alunos de Frida Kahlo, seguem produzindo arteDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Entre os aprendizes da artista está Arturo Estrada. Durante a visita, um detalhe me chamou atenção: ele segue produzindo arte até hoje, aos 100 anos.
Retrato de Isolda Kahlo, feito por Arturo EstradaDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Também estão expostas cartas trocadas entre Frida e familiares, além de correspondências que revelam inquietações, afetos e fragilidades da artista. A caligrafia, os termos carinhosos, as preocupações cotidianas… tudo ajuda a compor um retrato mais humano e menos monumental.
Parte significativa do acervo – especialmente a impressionante quantidade de cartas – foi preservada ao longo de décadas por Isolda Pinedo Kahlo, sobrinha de Frida e filha de Cristina, a única entre as irmãs que teve filhos. Vista pela artista como sua “menina dos olhos”, Isolda cultivou com a tia uma relação de grande proximidade e tornou-se a principal guardiã da Casa Roja e dos documentos que revelam seu lado mais íntimo.
“Quando Isolda morreu, em 2007, os parentes perceberam a dimensão do arquivo que ela havia preservado”, me contou Alejandro García. “Foi nesse momento que tudo começou a ser tratado como uma coleção.”
Entre as correspondências expostas, a que mais me emocionou foi uma carta datada de 8 de setembro de 1953, escrita poucos meses antes de sua morte, em julho de 1954. Nela, Frida fala com franqueza sobre a dor de não ter sido mãe, ao mesmo tempo em que celebra o nascimento da filha de Isolda: “Sabes o quanto te adoro e agora mais porque, tendo te presenteado a ti, agora me dás a tua menina e, assim, tenho dois amores. Os mesmos que quis ter vivos no meu ventre há tantos anos.”
A carta de Frida para Isolda mostra um lado mais íntimo da artistaDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Alguns dos itens que mais despertam a curiosidade do público são fotografias da infância de Frida com as irmãs, feitas por Guillermo Kahlo, entre elas registros da primeira comunhão de Frida e Cristina.
O acervo inclui correspondências de Frida com amigos próximos, algumas escritas para Antonio Ruiz, o El Corcito, fundador da Escuela Nacional de Pintura, Escultura y Grabado La Esmeralda. As cartas revelam o humor particular de Frida, que misturava palavras em inglês e espanhol. Há também um bordado feito por ela aos cinco anos, considerado uma peça muito especial.
A transformação da residência em museu foi liderada pela arquiteta mexicana Mariana Zepeda Orozco, bisneta do muralista José Clemente Orozco, enquanto a concepção curatorial ficou sob responsabilidade de Adriana Miranda. A proposta não foi reinventar o espaço, mas devolvê-lo à sua essência: os cômodos recuperaram a configuração original e preservam a atmosfera íntima que caracterizou a vida familiar ali. Até o jardim foi pensado como extensão dessa memória, concebido como área de acolhimento e pausa, mantendo o clima doméstico que definiu a casa por quase um século.
O quarto de Cristina KahloDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Na cozinha, foram restaurados murais com flores e árvores pintados por Frida, que permaneceram escondidos sob camadas de tinta após uma modernização do espaço. Submetidos a tratamento especial para a abertura do museu, voltaram a ocupar o lugar que sempre foi deles na casa.
A cozinha conta com um mural de FridaDaniele Bellini/Arquivo pessoal
São detalhes assim – as cartas, os murais recuperados, os ambientes preservados, as fotos da família – que aproximam o visitante da mulher de carne e osso, distante das reproduções infinitas e da imagem pop que o mundo consagrou. Caminhando pela casa, pude sentir que sua história ainda ecoa ali.
Registro de Frida na Casa AguayoDaniele Bellini/Arquivo pessoal
Vale a pena visitar a Casa Roja?
Se você está planejando sua viagem à Cidade do México, Coyoacán quase sempre entra no roteiro por causa da Casa Azul. Agora, vale reservar algumas horas extras para percorrer também a Casa Roja.
A experiência é complementar. Na Casa Azul, entendemos a força artística de Frida. Na Casa Roja, percebemos de onde veio sua resistência emocional.
Frida com a sobrinha Isolda, guardiã da Casa Rosa e que cultivou com a tia uma relação de grande proximidadeDaniele Bellini/Arquivo pessoal
O museu na Aguayo 54 conta com visitas guiadas das 9h às 16h50, o que enriquece a experiência ao acrescentar contexto e histórias familiares que nem sempre aparecem nos painéis expositivos. A programação cultural da Casa Roja também começa a se expandir e fará parte da programação da Noche de Museos e em datas relacionadas à família Kahlo.
A Cidade do México é dessas capitais onde a cultura não para de se reinventar. Novos museus surgem, bairros se transformam, mas certas histórias seguem pulsando. O Museo Casa Kahlo é uma oportunidade de enxergar a cidade por uma lente mais íntima e descobrir que, por trás do mito, existia uma mulher profundamente conectada às suas raízes.
Serviço
Onde? Aguayo 54, Coyoacán, Cidade do México.
Quando? De quarta a segunda, das 9h às 19h (fecha às terças); visitas guiadas das 9h às 16h50, em espanhol ou inglês (percurso livre entre 17h e 18h).
Quanto? 270 pesos (aproximadamente R$81, sujeito a atualização no site oficial).
Danielle Bellini é jornalista, mora na Cidade do México e escreveu um guia completo de lá; leia aqui
Leia tudo sobre a Cidade do México
Busque hospedagem na Cidade do México
Inscreva-se aqui
para receber a nossa newsletter
Cadastro efetuado com sucesso!
Você receberá nossas newsletters em breve!
Clique aqui para entrar em nosso canal no WhatsApp
Resolva sua viagem aqui
Reserve hospedagem no Booking
Reserve seu voo
Reserve hospedagem no Airbnb
Ache um passeio na Civitatis
Alugue um carro






