Como as IAs são (e serão) usadas nas guerras?

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Hoje vamos retomar um assunto que tem dominado o noticiário tech nas últimas semanas.

O general Brad Cooper, chefe do Comando Central das Forças Armadas dos Estados Unidos, afirmou que sistemas baseados em IA estão sendo usados principalmente para processar e analisar grandes volumes de dados militares em tempo reduzido em meio à guerra no Oriente Médio. Segundo o comandante, isso permite interpretar rapidamente informações estratégicas e apoiar a tomada de decisões.

Apesar disso, o general garantiu que as decisões finais seguem nas mãos dos humanos, inclusive no que diz respeito à escolha de alvos. A confirmação do uso de ferramentas de IA pelo exército norte-americano ocorre em um momento de pressão internacional sobre o impacto das operações militares na população civil.

De acordo com dados das autoridades iranianas, a ofensiva já deixou pelo menos 1.300 mortos em pouco mais de uma semana. Esses números não puderam ser verificados de forma independente. Já a Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano afirmou que os ataques atingiram infraestrutura civil significativa, incluindo quase 20 mil edifícios e 77 unidades de saúde. Entre os locais afetados estariam mercados, instalações esportivas, escolas e uma usina de dessalinização de água.

O uso de IA em operações militares ocorre paralelamente a uma disputa entre o governo dos Estados Unidos e a Anthropic. A desenvolvedora responsável pelo Claude se recusou a flexibilizar suas regras de segurança para permitir que o exército usasse a tecnologia em atividades de vigilância em massa de cidadãos americanos e armas autônomas. O acordo entre as partes foi desfeito, com a empresa sendo rotulada como “risco à cadeia de suprimentos”, o que impede novos contratos federais.

De outro lado, a China também fez um alerta sobre a situação: o Ministério da Defesa do país afirmou que o uso militar irrestrito da IA pode empurrar a civilização para um cenário de perda de controle tecnológico. O coronel sênio Jiang Bin, porta-voz do órgão, chegou a comparar a situação com o filme “O Exterminador do Futuro”.

O temor chinês, e de outros países do mundo, é que a tecnologia passe a decidir sobre a vida e a morte de seres humanos.

Para evitar esse cenário, a China propõe que a ONU centralize uma governança multilateral sobre a IA. A intenção é criar regras globais para impedir que a automação transforme o campo de batalha num território onde a humanidade perdeu o direito de intervir.

Para falar sobre tudo isso, o Olhar Digital News recebeu ontem Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Confira um resumo da fala do professor:

A atual guerra no Oriente Médio não é a primeira a usar IA. Considera-se que a utilização da tecnologia começou em 2021, no conflito entre Israel em Hamas.

De lá para cá, tivemos o desenvolvimento em diversos países: EUA, Rússia, China, Ucrânia e Israel.

No caso americano, existe um grande projeto do Pentágono, o JADC2, que cria uma IA capaz de trazer dados de todas as Forças Armadas para planejar e observar a execução de operações militares.

Então, a adoção da IA vai em diversos níveis: do planejamento logístico até o controle em tempo real.

O desenvolvimento dos sistemas de IA dos EUA, Israel e Irã também indica que a gente tem o uso dessa tecnologia para coordenação de ataques. A IA é capaz de processar dados muito mais rapidamente e entrega, em minutos, algo que levaria horas ou dias para ser feito por um analista humano.

“O que a IA traz, efetivamente, talvez seja a aceleração do processo de decisão para atacar e, também, do controle das operações militares – impondo uma pressão muito grande sobre líderes políticos” – diz o professor.

“A tendência de uma IA acelerar uma decisão é muito grande. E decisões numa guerra são fatais. São decisões de segundos que podem criar impactos que se arrastarão por anos ou décadas. Então, o debate ético é muito importante. (…) A posição que a Anthropic tomou é uma posição de acordo com muitos especialistas sobre como você vai usar uma IA e como você vai usar armas autônomas. Elas não devem se misturar. Armas autônomas devem ter uma capacidade limitada de operação. E não devem ser supridas por sistemas de IA, porque você estaria criando uma figura capaz de combater sem a intervenção humana – o que pode ter consequências desastrosas no campo de batalha”.

“Aqui vai caber a pressão dos cidadãos e da comunidade internacional para que a gente chegue a um momento em que haja um tratado que controle a proliferação de sistemas de IA, assim como a gente teve o arcabouço para armas nucleares”.
Sandro Teixeira Moita, professor de Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, em entrevista ao Olhar Digital News

Você pode acompanhar a entrevista na íntegra clicando aqui.

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