A Coreia do Norte costuma ser citada como o país mais difícil de visitar no mundo, exigindo longos processos de aprovação e vigilância constante de “guias” aprovados pelo governo para conhecer qualquer lugar como turista – frequentemente, com restrição de circulação fora da capital. Mas, na Ásia Central, há outro lugar bem menos famoso e com regras bem similares: o Turcomenistão, que alguns especialistas sugerem ser até mais fechado do que o regime de Kim Jong-Un.
Conheça mais sobre esse país pouco falado, entenda por que é tão difícil chegar lá… e saiba o que é preciso fazer caso surja o desejo de embarcar nessa aventura:
Informações gerais sobre o Turcomenistão
O Turcomenistão é uma ex-república soviética situada na Ásia Central, compartilhando fronteira com Afeganistão, Cazaquistão, Irã e Uzbequistão, além de ter seu lado ocidental banhado pelo Mar Cáspio. Apesar de ter 488 mil km², uma área pouco menor que a da Espanha, ele é um dos países mais esparsamente povoados do mundo: são apenas 7 milhões de habitantes (os espanhóis, por exemplo, são quase 50 milhões), 1 milhão dos quais residem na capital Ashgabat.
Parte da explicação se deve às características pouco aprazíveis de boa parte do território: quase 80% do Turcomenistão é coberto pelo Karakum, um deserto inóspito. Uma nação predominantemente islâmica e já vista como periférica desde os tempos da União Soviética, o país vive da exportação de gás natural, sua grande riqueza: ele detém a quarta maior reserva conhecida do mundo desse hidrocarboneto.
Por que o país é tão fechado?
Desde que o Turcomenistão teve sua independência reconhecida, em 1991, o país é governado com mão de ferro por um regime autocrático. Inicialmente, a ditadura era comandada por Saparmurat Niyazov, ex-primeiro-secretário do Partido Comunista do Turcomenistão nos tempos de URSS. Quando a União se desintegrou, ele virou o governante do novo país independente e, com o tempo, foi proclamado “presidente vitalício”.
Além do autoritarismo, o regime de Niyazov ficou conhecido pelo culto à personalidade: uma das medidas de maior repercussão foi incluir sua autobiografia como leitura obrigatória nas escolas do país e renomear os dias das semanas e dos meses para fazer referência a “símbolos nacionais”.
Retrato de Gurbanguly Berdimuhamedow no aeroporto de Ashgabat: ditadores do país são conhecidos pelo culto à personalidade. Gurbanguly governou o Turcomenistão entre 2006 e 2022, quando passou o cetro ao próprio filhoNikolai Kolosov/Unsplash
Quando Niyazov morreu, em 2006, algumas das regras mais bizarras foram deixadas de lado, mas o isolacionismo e o autoritarismo seguiram em cena. O poder acabou sendo herdado por seu vice-presidente, Gurbanguly Berdimuhamedow, que no ano seguinte realizou eleições de fachada e venceu com quase 90% dos votos, iniciando uma dinastia familiar. Em 2022, Gurbanguly passou o poder ao filho, Serdar Berdimuhamedow, que governa atualmente.
Em seu mais recente relatório, a Human Rights Watch (HRW), uma das principais entidades de direitos humanos do mundo, reporta que o governo turcomeno “restringe severamente as liberdades civis e políticas, incluindo a liberdade de expressão, associação, religião e reunião pacífica. Não há mídia independente, e o acesso à internet continua firmemente controlado. As autoridades rotineiramente visam ativistas, críticos do governo e suas famílias, incluindo aqueles no exílio, com assédio e processos com motivação política”.
Como visitar o Turcomenistão
Caso nenhuma das descrições acima seja suficiente para demovê-lo da aventura, visitar o Turcomenistão exige um processo burocrático para obter uma autorização especial. O primeiro passo é contatar alguma agência turística autorizada pelo governo para manifestar seu interesse e conseguir uma “carta-convite” (também conhecida pela sigla em inglês LOI, ou Letter of Invitation).
Esse processo pode levar cerca de um mês e exige o envio de uma série de documentos, incluindo cópias do passaporte e informações sobre seu local de residência e emprego. Em posse da LOI, é preciso então solicitar o visto, preenchendo um formulário específico, pagando a taxa solicitada e entregando mais cópias de documentos.
Ashgabat é famosa pelos edifícios recobertos em mármore brancoGrigorij Zaharʹjan/Unsplash
Tradicionalmente, o pedido é feito diretamente em uma embaixada, o que dificulta bastante o processo para brasileiros: nosso país não tem presença em solo turcomeno (e vice-versa), com as relações ocorrendo através da representação diplomática no Cazaquistão.
Desde o ano passado, o governo do Turcomenistão promete implementar um sistema de e-Visa, um visto eletrônico que poderá ser solicitado online, mas ainda não há data para isso acontecer. Também há a opção de obter o visto na chegada ao aeroporto – mas, em função das várias restrições de acesso ao país, recomenda-se pegar todas as informações com a agência que fez sua LOI para garantir que esse visto não seja negado.
Uma vez dentro do país, é obrigatório o acompanhamento de guia autorizado pelo governo para circular, especialmente em qualquer viagem para fora da capital.
Mas, afinal, tem algo para ver lá?
Resultado do colapso de uma caverna durante a exploração de gás natural, a Cratera de Darvaza, também apelidada de Portões do Inferno, é o ponto mais conhecido do paísTormod Sandtorv/Wikimedia Commons
Tem! Quem supera todas as barreiras para conhecer o Turcomenistão tem algumas opções para conhecer lugares únicos e interessantes por razões variadas. Mas parece até uma piada, após as descrições vistas acima, que o local mais famoso do país seja conhecido como os Portões do Inferno, no meio do inóspito Karakum.
O local é uma cratera na região de Darvaza, a 275 km de Ashgabat, conhecida por arder em chamas eternamente. Em 1971, uma caverna colapsou durante explorações em busca de gás natural, e o governo decidiu queimar os gases que saíam do buraco para prevenir a intoxicação da população ao redor. Como as reservas de gás são gigantescas, elas até hoje não se exauriram, e a Cratera de Darvaza segue com fogo ativo há mais de meio século.
Sítio arqueológico de Merv é um dos Patrimônios da Humanidade localizados em solo turcomenoGaiJorayev/Wikimedia Commons
Além desse inusitado ponto turístico, o Turcomenistão é casa de alguns Patrimônios da Humanidade listados pela Unesco, alguns vinculados à antiga Rota da Seda. Sítios arqueológicos particularmente interessantes incluem as ruínas da cidade-oásis de Merv, com 4 mil anos de história, e os antigos monumentos e fortalezas de Kunya-Urgench, que datam já da era islâmica – ali, o destaque é um antigo minarete do século 11, de 60 metros de altura. O país também conta com o impressionante Cânion Yangykala, acessível por meio de tours específicos com veículos tracionados.
Cânion Yangykala é uma das belezas naturais do paísJohn Pavelka/Wikimedia Commons
Já dentro da própria capital Ashgabat, o destaque é o material de construção dos prédios: desde a independência em 1991, as novas estruturas da cidade são majoritariamente recobertas de mármore branco (o Guinness, livro dos recordes, inclusive reconhece a metrópole como o local com maior concentração de edifícios usando a pedra no mundo), dando uma aparência pouco usual à cidade.
Um dos prédios mais curiosos da capital é o Bagt köşgi, ou “Palácio dos Casamentos”, um gigantesco cartório e centro de eventos (oficialmente focado em casamentos mesmo) erguido em 2011, com um globo dourado adornado por uma estrela estilizada de oito pontas, como a vista no brasão do país.
Como ocorre na outra capital de uma nação fechadíssima, a norte-coreana Pyongyang, Ashgabat também chama atenção dos visitantes por suas ruas muito vazias, apesar das dimensões colossais da cidade.
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