Você começa animada: organiza horários, separa o look, encaixa o treino na rotina e segue firme. No início, o corpo responde, o humor melhora e a sensação é de avanço. Mas, com o tempo, o cansaço não passa, o rendimento cai, as dores aparecem e até a imunidade parece falhar. Ainda assim, você insiste. Parar soa como desistência.
Esse cenário é mais comum do que parece e ajuda a explicar por que tanta gente, mesmo com boas intenções, acaba colhendo efeitos opostos aos esperados. O overtraining, embora mais conhecido no esporte de alto rendimento, também pode afetar quem treina por saúde, estética ou bem-estar.
O que é overtraining?
Overtraining, ou síndrome do sobretreinamento, não é resultado de um treino difícil isolado. Ele surge quando há um desequilíbrio prolongado entre carga de treino e recuperação. “É o reflexo da associação de excesso de treino, tanto em intensidade quanto em volume, resultando numa carga excessiva sem o descanso adequado para um reparo pleno”, explica Warlindo Carneiro da Silva Neto, médico especialista em Medicina Esportiva do VITA Ortopedia e Fisioterapia, em entrevista à AnaMaia.
Na prática, isso significa que o corpo não consegue se recuperar completamente entre uma sessão e outra. Mesmo pessoas disciplinadas, que seguem planilhas e têm boa intenção, podem ultrapassar esse limite quando ignoram sinais de fadiga ou acreditam que treinar mais sempre traz melhores resultados. Com o tempo, esse esforço contínuo afeta o organismo como um todo, especialmente a imunidade e o sistema musculoesquelético.
Os sinais que o corpo dá
O corpo costuma avisar quando algo não vai bem, mas o problema é que nem sempre a gente escuta. Os sinais aparecem tanto no treino quanto fora dele: queda de rendimento, sensação de cansaço constante, dificuldade de concentração e alterações de humor. “Há uma sensação de que a energia não se recupera e de que aquilo que antes evoluía deixa de progredir”, explica Warlindo.
Outro alerta importante é o sono. Mesmo dormindo por horas suficientes, a pessoa acorda cansada, como se o descanso não tivesse sido suficiente. Infecções recorrentes, como gripes e sinusites, também podem surgir com mais frequência, indicando uma queda na imunidade. Esses sinais não devem ser vistos como normais ou passageiros quando se repetem por semanas.
Entender os limites do corpo pode ser o passo que falta para evoluir com saúde, constância e menos culpa – Crédito: FreePik
Excesso que sabota seus resultados!
Quando o corpo não consegue se recuperar, o risco de lesões aumenta, principalmente musculares, muitas vezes sem um trauma específico. Além disso, o excesso de treino pode atrapalhar justamente os objetivos mais buscados, como emagrecimento e ganho de massa.
De acordo com o especialista, sem descanso adequado, o organismo entra em um estado inflamatório crônico, que dificulta a perda de gordura, favorece a retenção de líquidos e prejudica a recuperação muscular. O sono, peça-chave nesse processo, também é comprometido, criando um ciclo difícil de romper.
Conhecendo seus limites
Para entender seus limites, você não precisa chegar à exaustão. Para Flávia Cristófaro, educadora física formada pela USP e fundadora do Elah App, sinais simples já ajudam a calibrar a intensidade do treino. “O limite pode ser percebido quando a pessoa ainda consegue controlar a respiração e conversar, mesmo mais ofegante”, diz.
Outro bom parâmetro é a funcionalidade ao final do exercício. “Um bom treino termina com a pessoa cansada, mas ainda funcional — e não exausta a ponto de não conseguir seguir com o dia”, afirma Flávia. Sintomas como tontura, náusea, falta de ar excessiva ou dores articulares intensas indicam que é hora de interromper a atividade.
Treino na medida
Não existe uma regra única que funcione para todo mundo. Para Flávia, a quantidade ideal de treino varia conforme idade, nível de condicionamento, rotina, objetivos e até fatores menos óbvios, como nível de estresse e qualidade do sono.
De forma geral, algumas referências ajudam a orientar:
Iniciantes costumam se adaptar melhor com cerca de três treinos por semana, com duração entre 30 e 60 minutos
Pessoas com mais experiência podem treinar de quatro a cinco vezes por semana
Praticantes mais avançados conseguem manter maior frequência, desde que haja planejamento e recuperação adequados
Descanso não é pausa no progresso
Pausar não significa retroceder. O descanso é parte essencial do processo de evolução física, permitindo que o corpo se adapte aos estímulos do treino, reduza o estresse e diminua o risco de lesões. Quando essa pausa é ignorada, o rendimento tende a cair — mesmo com mais esforço.
A matéria acima foi produzida para a revista AnaMaria Digital (edição 1510, de 27 de fevereiro de 2026). Se interessou? Baixe agora mesmo seu exemplar da Revista AnaMaria nas bancas digitais: Bancah, Bebanca, Bookplay, Claro Banca, Clube de Revistas, GoRead, Hube, Oi Revistas, Revistarias, Ubook, UOL Leia+, além da Loja Kindle, da Amazon. Estamos também em bancas internacionais, como Magzter e PressReader.
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