Três sepulturas de uma antiga necrópole romana na Espanha revelaram um achado arqueológico intrigante: pregos de ferro com cerca de 1.800 anos, posicionados estrategicamente junto aos corpos. A descoberta pode lançar luz sobre práticas funerárias pouco compreendidas da época, relacionadas à proteção tanto dos mortos quanto dos vivos.
Os artefatos foram encontrados durante escavações na necrópole de Pintia, localizada na província de Valladolid, região de Castela e Leão. O sítio arqueológico, que funcionou como cemitério entre os séculos I e IV d.C., já havia fornecido evidências importantes sobre os costumes funerários romanos na Península Ibérica.
Pregos como amuletos de proteção
De acordo com o Live Science, os pesquisadores acreditam que os pregos não foram utilizados para fixar estruturas ou caixões, mas sim como elementos rituais. A posição específica dos objetos nas sepulturas sugere que eles tinham função apotropaica – termo usado para descrever elementos destinados a afastar o mal ou forças negativas.
Carlos Sanz Mínguez, diretor das escavações e professor da Universidade de Valladolid, explica que essa prática reflete crenças sobre a necessidade de proteger tanto os falecidos quanto a comunidade dos vivos. “Os pregos podem ter sido colocados para impedir que os espíritos dos mortos retornassem ou para garantir que forças malignas não se aproveitassem dos corpos”, afirma o arqueólogo.
A descoberta reforça teorias sobre o uso simbólico do ferro na antiguidade. O metal era considerado pelos romanos como um elemento capaz de repelir entidades sobrenaturais, sendo frequentemente empregado em rituais de proteção e purificação.
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Contexto arqueológico revela detalhes
As três sepulturas onde os pregos foram encontrados datam do século II d.C., período de consolidação do domínio romano na região. Os enterramentos seguem o padrão típico da época: corpos depositados em fossas simples, acompanhados de objetos pessoais e oferendas.
Além dos pregos, os arqueólogos identificaram fragmentos de cerâmica, moedas e pequenos objetos de bronze nas mesmas sepulturas. A combinação desses elementos sugere que os indivíduos enterrados pertenciam a diferentes estratos sociais, mas compartilhavam crenças similares sobre a morte e o além.
O estado de conservação dos pregos impressiona os especialistas. Apesar dos 1.800 anos enterrados no solo espanhol, muitos ainda mantêm sua forma original, permitindo análises detalhadas sobre sua composição e técnicas de fabricação.
Práticas funerárias na Hispânia romana
A necrópole de Pintia representa um dos sítios mais importantes para compreender as práticas funerárias na antiga Hispânia. A região era habitada pelos vacceus, povo celta que foi gradualmente romanizado após as conquistas do século II a.C.
Essa fusão cultural resultou em costumes funerários únicos, que combinavam tradições locais com rituais romanos. Os pregos encontrados podem representar uma dessas sínteses, onde elementos da metalurgia celta se encontraram com crenças romanas sobre proteção espiritual.
Estudos anteriores no mesmo sítio já haviam identificado práticas peculiares, como enterramentos com orientações específicas e deposição de objetos em posições rituais. Os novos achados ampliam o entendimento sobre a complexidade dessas tradições.
Significado além da arqueologia
Para além do valor histórico, a descoberta dos pregos oferece insights sobre medos e ansiedades universais relacionados à morte. A necessidade de proteção contra forças sobrenaturais atravessa culturas e épocas, manifestando-se de diferentes formas ao longo da história humana.
Os pesquisadores planejam continuar as escavações na necrópole de Pintia, esperando encontrar mais evidências dessas práticas rituais. Análises químicas dos pregos estão sendo conduzidas para determinar sua origem e processo de fabricação, informações que podem revelar rotas comerciais e técnicas metalúrgicas da época.
A equipe também pretende expandir o estudo para outras necrópoles da região, investigando se o uso ritual de pregos era uma prática localizada ou mais amplamente difundida na Hispânia romana. Os resultados poderão contribuir para uma compreensão mais nuançada das crenças e práticas funerárias no mundo antigo.
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