Você sofre com “síndrome do pescoço tecnológico”?

A crescente preocupação com rugas associadas ao uso excessivo de smartphones — fenômeno apelidado de “tech neck” (ou síndrome do pescoço tecnológico) — tem impulsionado uma nova corrida por soluções no setor de beleza.

A ansiedade em torno das linhas horizontais que surgem no pescoço, supostamente agravadas pelo hábito de olhar para baixo nas telas, vem sendo explorada pela indústria, que aposta em uma variedade de produtos e tratamentos.

A tecnologia já foi responsabilizada por problemas, como ansiedade, redução da capacidade de atenção e isolamento social. Agora, soma-se à lista a acusação de contribuir para o envelhecimento da pele. O chamado “tech neck” descreve as marcas horizontais que aparecem no pescoço com o tempo e que, segundo especialistas ouvidos pelo The Wall Street Journal, podem se intensificar com o uso constante de celulares.

A influenciadora de beleza Kelley Liu, de 24 anos, descobriu o problema após um comentário da mãe, de 55 anos: “Você tem mais rugas no pescoço do que eu”. Surpresa, ela levantou hipóteses: “Será porque eu sou baixa? Talvez meu pescoço seja mais curto que o de outras pessoas, ou talvez seja porque eu tenho um iPhone desde os oito anos.”

Em vez de recorrer aos diversos produtos promovidos online, Liu optou por aplicar um creme facial com retinol no pescoço e envolvê-lo com filme plástico de cozinha. Segundo ela, as linhas não desapareceram, mas houve melhora significativa.

A preocupação com o envelhecimento do pescoço não é nova. A escritora Nora Ephron já descreveu a região como um “indicador infalível” da idade em seu livro I Feel Bad About My Neck and Other Thoughts on Being a Woman (Me Sinto Mal Com Meu Pescoço e Outros Pensamentos Sobre Ser Mulher, em tradução literal). Embora fatores genéticos e o envelhecimento natural tenham papel importante, médicos afirmam que o uso contínuo de smartphones pode agravar o problema.

“Algumas dessas linhas horizontais fixas e mais profundas acabam piorando porque as pessoas passam literalmente horas no celular olhando para baixo”, disse a dermatologista cosmética Melanie Palm.

Dados da empresa de gestão de informações Harmony Healthcare IT indicam que estadunidenses passam, em média, cinco horas e 16 minutos por dia no celular. Entre a geração Z, o tempo sobe para seis horas e 27 minutos diários.

A apresentadora Kelly Ripa também comentou o fenômeno, alertando que “o pescoço envelhece em anos de cachorro por si só, mas o ‘tech neck’ está acelerando esses anos rapidamente”.

Especialistas ressaltam que o “tech neck” estético não deve ser confundido com a condição ortopédica de mesmo nome, relacionada a dores na coluna cervical causadas por longos períodos olhando para baixo. No campo estético, ele se junta a outras marcas faciais conhecidas, como “pés de galinha”, “linhas de colar” e as rugas entre as sobrancelhas.

Muitas pessoas mais novas passaram a sofrer com a condição (Imagem: Roylan Tkg/Shutterstock)

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Indústria aposta em soluções

Para o setor de beleza, a popularização do diagnóstico chega em momento oportuno;

Com consumidores reduzindo rotinas complexas de cuidados com a pele — tendência conhecida como “skinimalismo” —, encontrar novas áreas de preocupação se torna estratégico;

A Olay lançou neste ano um tratamento lifting para rosto e pescoço, promovido em parte como solução para o problema. Um anúncio da marca, pertencente à Procter & Gamble, traz a frase: “Tech Neck Got You Down? Give it a Lift” (“O pescoço tecnológico te incomoda? Dê um jeito nisso!”);

A Solawave também incorporou o tema em sua mais recente campanha nas redes sociais ao lançar uma nova versão de máscaras de terapia com luz vermelha;

Já a Brickell incluiu um artigo intitulado “How to Fix Tech Neck Wrinkles” (“Como Consertar Rugas de Pescoço) em seu manual de cuidados masculinos, promovendo um creme firmador para o pescoço. A empresa afirma que manter a cabeça inclinada a 45 graus ao usar o celular equivale a sustentar um peso de cerca de 22 quilos com o pescoço;

A RoC identificou o fenômeno em grupos de pesquisa há três anos e desenvolveu um produto hidratante em bastão específico para a região. Inicialmente voltado a mulheres entre 40 e 65 anos, o item passou a ser promovido também para um público mais jovem em campanha lançada em janeiro, com a influenciadora dermatológica Derguru. Segundo a marca, as vendas do sérum cresceram 17% no primeiro trimestre.

Jovens impulsionam tendência

A influenciadora Molly J. Curley, de 31 anos, relatou ter percebido o problema após ver discussões nas redes sociais. “Olhei no espelho e pensei: ‘Meu Deus, eu tenho tech neck’”, disse. “Sou jovem demais para isso.”

Curley comprou um creme para o pescoço da Eight Saints e decidiu transformar a preocupação em oportunidade de negócio. Em fevereiro, publicou um anúncio pago no Facebook promovendo o produto, direcionando seguidores para sua loja na Amazon, onde recebe comissão de 8% por venda. No mês, ela comercializou US$ 500 mil (R$ 2,6 milhões) em produtos de beleza, incluindo o creme.

Cirurgias e alternativas simples para o pescoço

Para alguns consumidores, cosméticos não são suficientes. O cirurgião plástico Sam Rizk, de Nova York (EUA), afirmou que sua clínica registrou aumento de 25% em dois anos na procura por lifting de pescoço entre pacientes na faixa dos 30 anos, em parte impulsionado pela popularização do “tech neck”.

Em determinados casos, porém, o médico recomenda soluções mais simples e menos invasivas, como suportes para celular — dispositivos com haste flexível que mantêm o aparelho na altura dos olhos, reduzindo a necessidade de inclinar a cabeça.

Algumas dessas sugestões são compartilhadas pelo próprio especialista em suas redes sociais, onde publica conteúdos regularmente.

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