Entre setembro e dezembro de 2025, 73 pessoas foram diagnosticadas com intoxicação por metanol, com mais de 20 mortes. Em resposta, o governo brasileiro emitiu um alerta nacional para o risco de contaminação pela substância em bebidas alcoólicas.
Os casos estavam espalhados pelo Brasil, mas se concentraram principalmente no estado de São Paulo. Segundo boletim da Secretaria de Saúde, até fevereiro deste ano, 52 deles foram confirmados como intoxicação por metanol, com 12 mortes.
Ainda no ano passado, o Ministério da Saúde criou a “Sala de Situação Nacional: Intoxicação por Metanol após Consumo de Bebida Alcoólica”, uma ação temporária para acompanhar os casos de intoxicação ligados ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. A iniciativa era emergencial e foi encerrada no início de dezembro.
Mesmo em menor número, os casos continuaram em 2026. Até fevereiro deste ano, foram sete casos confirmados e outros 13 em investigação.
Foi no contexto do auge da crise do metanol que dois químicos perceberam que não existiam ferramentas acessíveis de detecção de adulterações em bebidas para além dos laboratórios oficiais. Eles resolveram agir: criaram o AlcoLab, um aplicativo que permite que qualquer pessoa realize a triagem de destilados em busca de adulterações.
O método não exige aparelhos complexos e leva relativamente pouco tempo, funcionando como uma alternativa acessível para determinar se uma bebida é própria ou imprópria para consumo.
Como surgiu o AlcoLab?
A iniciativa surgiu com Diego Mendes de Souza, Dr. em Quimiometria, Químico Industrial e Perito Criminal Oficial, e Pedro Augusto de Oliveira Morais, PhD em Quimiometria e Químico Industrial. Em entrevista ao Olhar Digital, eles contaram que se conheceram na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), onde trabalharam com o desenvolvimento de métodos de análise de solo.
Quando Diego trocou de emprego e começou a trabalhar na Polícia, a dupla se manteve parceira e usou o conhecimento de métodos de análise em projetos de outras áreas, como análise forense. Até que estourou a crise do metanol, no segundo semestre de 2025.
Diego contou que, na polícia, trabalha na parte de análise de drogas, não com bebidas adulteradas. Mas quando Pedro veio com o questionamento sobre os métodos usados pelas autoridades nos casos do metanol, surgiu uma ideia. “Ficou aquela pulga atrás na orelha de que talvez a gente possa contribuir de alguma forma para esses casos de intoxicação”, afirmou.
Isso porque os métodos de análise de adulteração por metanol envolvem equipamentos especializados – que são caros e de difícil acesso. Para piorar, alguns deles medem a densidade da bebida, mas não com a precisão necessária para detectar o metanol.
O mais eficaz é a cromatografia gasosa, uma técnica de alta precisão capaz de separar, identificar e quantificar os componentes de uma mistura. O preço do equipamento supera os R$ 30 mil, tornando o acesso limitado. A Fiocruz e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) têm o aparelho.
Ou seja, como a análise das bebidas adulteradas dependia quase exclusivamente de máquinas especializadas, que não estão disponíveis para o público geral ou em cidades menores, a capacidade de triagem durante a crise do metanol ficou restrita.
Pensando nisso, os químicos resolveram desenvolver uma solução acessível tanto para autoridades de vigilância sanitária e de saúde quanto para os consumidores, pequenos produtores e comerciantes.
Assim surgiu o AlcoLab, um aplicativo de triagem que permite identificar adulterações em bebidas destiladas. Ele não exige laboratório, reagentes químicos ou equipamentos especializados.
Como funciona a triagem
O AlcoLab funciona como um aplicativo web, no link https://alcolab.org/. Ao acessá-lo, o usuário se depara com instruções de como realizar o processo.
São três itens necessários para a análise completa: uma seringa de 20 mL com agulha de 22 gramas (a mais comum vendida nas farmácias), uma balança de cozinha com resolução de 0,1 grama e um smartphone com câmera e acesso à web. Além, claro, da bebida a ser analisada e um pouco de água pura.
Funciona assim:
Primeiro, o usuário vai puxar 20 mililítros de água com a seringa e medir a massa na balança;
Em seguida, deve fazer o mesmo com a bebida a ser analisada, usando a mesma seringa;
Na segunda parte do experimento, o usuário precisa posicionar a seringa com a agulha na posição vertical e escoar o líquido dentro de um recipiente transparente, sem que ele toque nas paredes;
Esse processo deve ser filmado com a câmera do celular, enquanto o líquido escoa entre 18 e 13 mL da seringa;
A última etapa é cadastrar os dados no aplicativo do AlcoLab. O usuário deve clicar na opção “Iniciar triagem” (ou no símbolo do recipiente, caso use o app pelo computador) e preencher as informações solicitadas, como tipo de bebida, teor alcóolico informado no rótulo, a massa obtida na balança e o vídeo do escoamento usando a seringa.
O resto fica por conta do AlcoLab: ele usa pré-definições de bebidas destiladas (como vodka e whisky contaminados e não contaminados) para determinar em qual caso a amostra submetida pelo usuário se encaixa.
São três opções de resultado:
Verde: bebida apresentada é compatível com as informações do rótulo e não apresenta adulterações. É própria para consumo;
Amarelo: são necessários mais dados para determinar a composição;
Vermelho: possível presença de metanol ou outra adulteração, incluindo no etanol. Bebida não é próprio para consumo.
Veja como funciona na prática:
O processo completo leva entre 15 e 25 minutos, dependendo da agilidade do próprio usuário.
Os pesquisadores deram mais detalhes sobre os mecanismos por trás da detecção do AlcoLab, que tornam o método viável para qualquer usuário sem necessidade de equipamentos especializados.
Eles explicaram que as bebidas destiladas tem uma composição binária: água e etanol. Outros componentes são minoritários, com participação de menos de 1% no resultado.
A densidade do líquido diz muito sobre o teor alcóolico (a porcentagem de etanol em relação aos outros ingredientes). Nos casos das misturas binárias, a medição é relativamente simples.
O problema vem justamente quando há metanol na mistura. Nesse caso, os métodos não valem mais, já que o resultado é uma mistura ternária (água, etanol e metanol).
Foi partindo dessa constatação que a equipe resolveu encontrar parâmetros simples que poderiam discriminar etanol do metanol, indo além apenas da densidade. Diego explicou que ambos são muito parecidos, mas variam entre si na viscosidade, uma propriedade física que mede a resistência de um fluido ao escoamento.
Diante disso, ele realizou testes usando as seringas e chegou a conclusão de que era possível diferenciar o nível de escoamento de bebidas com etanol e metanol.
A equipe chegou nas duas variáveis necessárias para o teste: densidade e viscosidade.
Densidade não discrimina o metanol do etanol. A gente mede a densidade na balança de cozinha e ela dá a noção inicial de quanto tem de álcool [na mistura] – seja etanol, metanol ou uma mistura dos dois. A densidade dá uma direção – e a gente refina essa direção com a viscosidade. Como o metanol é menos viscoso, escoa mais rápido. O etanol é mais viscoso. Quando a bebida tem mais etanol, escoa mais lentamente. A gente usa as duas [variáveis de forma complementar para chegar na conclusão mais provável.
Diego Mendes de Souza
Com esses dois parâmetros informados pelo usuário, o próprio AlcoLab usa um algortimo estatísico para realizar a medição e indicar a probabilidade de contaminação por metanol.
A ferramenta também indica quando as informações apresentadas não estão de acordo com o rótulo, podendo significar uma adulteração no próprio etanol ou na embalagem.
Falsos positivos e limitações do AlcoLab
O algortimo foi treinado com cerca de 3 mil simulações para determinar a probabilidade de adulteração das bebidas destiladas. Mas há limitações.
Por exemplo, ele funciona apenas com destilados – e não com fermentados. As opções incluem vodka, whisky, cachaça branca, tequila, aguardente, rum branco e gin seco. A capacidade é reduzida em bebidas com menos de 20% de teor alcóolico.
Vale lembrar: o metanol é um subproduto natural da fermentação alcoólica, mas em concentrações baixas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em bebidas alcoólicas, a substância deve estar presente em níveis inferiores a 0,1%.
Outra limitação é a própria técnica do usuário na hora de realizar a pesagem e o escoamento com a seringa.
Sobre o risco de falsos negativos ou positivos, os pesquisadores deixaram claro que o AlcoLab não é um exame confirmatório, mas sim uma ferramenta de triagem. Ele tem sensibilidade menor do que as máquinas especializadas e não substitui os exames feitos em laboratórios.
A intenção é fornecer um mecanismo preliminar de checagem que pode orientar o consumo.
Ou seja, se o resultado indicar uma possibilidade de presença de metanol acima do permitido na bebida, acende um alerta vermelho. Do contrário, caso o resultado indique que não há incompatibilidade com o rótulo, traz mais tranquilidade para o consumidor.
Quem pode usar o AlcoLab?
A ferramenta funciona via aplicativo web, que pode ser acessado diretamente pelo navegador no computador ou no celular. Pedro explicou que a equipe optou por esse formato para que os usuários não tenham que fazer o download de mais um app, o que poderia gerar resistência.
A ideia é que qualquer pessoa possa usar o AlcoLab. Os pesquisadores detalham algumas possibilidades:
Vigilância e saúde: a dupla destacou que a ferramenta pode ser usada por agências de saúde e vigilância em países subdesenvolvidos ou locais com pouca estrutura laboratorial. Em alguns casos, o processo de enviar as amostras para o laboratório em uma capital e esperar o retorno dos resultados demora meses. A equipe do projeto tenta viabilizar parcerias para permitir o uso oficial do AlcoLab por autoridades;
Distribuição: a rede de distribuição de bebidas pode usar o recursos para conferir a qualidade dos lotes recebidos antes da venda;
Pequenos produtores: Pedro lembrou que pequenos produtores, como cachaçarias artesanais, às vezes não têm tanto controle de qualidade sobre o processo de destilação. Nesse sentido, o AlcoLab pode ser usado para garantir a segurança e a qualidade do produto final;
Fiscalização: autoridades de fiscalização podem usar a ferramenta para triagem de bebidas adulteradas;
Usuário final: o consumidor pode usar o AlcoLab para triagem da bebida a ser consumida, diminuindo inseguranças em relação ao risco de intoxicação.
Parcerias e financiamento: quais os próximos passos do projeto?
O projeto do AlcoLab foi publicado no repositório Zenodo. O código é 100% aberto e o uso da ferramenta é gratuita. O registro no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) está em andamento.
Nesse sentido, Nayara Ferreira Santos, administradora e gestora da iniciativa, destacou que, quando a ideia já estava praticamente finalizada, a equipe se viu em um dilema. Uma opção seria pensar em um dispositivo físico mínimo e pleitear um pedido de patente, algo que demora mais de 1 ano apenas para a publicação. Uma segunda opção seria desenvolver a solução de imediato, sem pedir uma patente.
A equipe escolheu a segunda opção, justamente para que o AlcoLab fosse disponibilizado como ferramenta acessível durante o surto do metanol. No entanto, para isso, teve que assumir os custos do projeto do próprio bolso.
O AlcoLab foi lançado em 10 de março e segue como um projeto aberto e independente, custeado pelos pesquisadores. Agora, a intenção é buscar acordos que viabilizem a continuidade da iniciativa.
O grupo busca parcerias nacionais e internacionais em três frentes: credibilidade e validação, manutenção financeira, e aperfeiçoamento da ferramenta. Nayara deu alguns exemplos:
Médicos Sem Fronteiras, que mantém a Methanol Poisoning Initiative (MPi), com o objetivo de desenvolver ferramentas de triagem para envenenamento por metanol;
Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil, que emitiu o alerta epidemiológico sobre metanol em outubro de 2025;
Fiocruz, como parceiro técnico nacional com projeção internacional, para validação e eventual submissão conjunta a editais;
Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), para apresentação do AlcoLab como instrumento de triagem em campo que pode otimizar o encaminhamento de amostras aos laboratórios oficiais;
Parlamentares federais e distritais do DF, em busca de apoio via emenda parlamentar e articulação institucional.
A equipe também acredita que a ferramenta pode colaborar na vigilância sanitária e nas redes de toxicologia, como apoio à triagem inicial de bebidas suspeitas de contaminação por metanol.
Enquanto os pesquisadores buscam essas parcerias, o AlcoLab já faz sucesso – inclusive com potencial de alcance internacional. O aplicativo já tem mais de 8 mil requisições no servidor, em países como Brasil, Estados Unidos, França, Canadá, Singapura e Suíça.
Acreditamos que os próximos passos são justamente as parcerias. São elas que vão manter o projeto vivo, permitir seu aperfeiçoamento contínuo e garantir que a ferramenta esteja sempre disponível — gratuitamente — para a população e para a vigilância sanitária.
Nayara Ferreira Santos
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