Bactéria desconhecida é encontrada em cachalotes encalhadas

Pesquisadores identificaram três tipos inéditos de bactérias no estômago de cachalotes-pigmeus (Kogia breviceps). A descoberta, publicada no Journal of Wildlife Diseases, amplia o conhecimento sobre a saúde desses mamíferos marinhos pouco observados.

A descoberta foi feita a partir da análise de amostras coletadas de baleias encalhadas na costa leste da Flórida ao longo de mais de duas décadas. Em seis das nove amostras de estômago examinadas, os cientistas encontraram bactérias em formato espiral associadas a áreas com inflamação e lesões no tecido.

O estudo, conduzido pelo Instituto Oceanográfico Harbor Branch, da Universidade Atlântica da Flórida (FAU), utilizou material arquivado para identificar três assinaturas genéticas distintas. A partir desses dados, a equipe classificou os microrganismos em três novos genótipos, batizados de Kogia Helicobacter 1, 2 e 3 – nenhum deles correspondente a espécies já descritas.

Dois desses grupos apresentaram semelhanças com bactérias encontradas em outras baleias, enquanto o terceiro revelou características mais distantes, sugerindo uma diversidade maior do que se imaginava entre microrganismos que habitam o sistema digestivo desses animais.

A presença das bactérias coincidiu com sinais recorrentes de problemas gástricos, como úlceras, cicatrizes e infecções parasitárias. “Todas as quatro baleias que testaram positivo para Helicobacter apresentavam patologia gástrica visível”, afirmou Annie Page, veterinária e pesquisadora envolvida no estudo. Em um dos casos, duas variantes bacterianas foram encontradas no mesmo tecido, o que pode indicar infecções simultâneas com potencial de agravar os danos.

Apesar disso, os cientistas não estabeleceram uma relação direta entre as bactérias e a morte dos animais. Ainda não está claro se os microrganismos contribuem para o surgimento das lesões ou se apenas colonizam áreas já comprometidas.

Espécies do gênero Helicobacter são conhecidas por colonizar o trato gastrointestinal de diferentes animais, incluindo humanos, e podem causar inflamações crônicas, úlceras e até câncer.

Imagens macroscópicas do estômago de cachalotes pigmeus (Kogia breviceps) encontrado encalhado entre 2017 e 2020 na costa leste central da Flórida, EUA – Imagem: Journal of Wildlife Diseases

Bactérias podem ser mais comuns do que pensávamos

A identificação dessas bactérias em baleias não é totalmente inédita, mas reforça um padrão observado anteriormente em golfinhos e outros cetáceos, indicando que esses microrganismos podem estar mais disseminados no ambiente marinho do que se pensava.

Ainda não se sabe como os cachalotes-pigmeus adquirem essas bactérias. Entre as hipóteses estão a transmissão por meio da água do mar, ingestão de presas como peixes e lulas ou até rotas biológicas comuns a outros animais, como vias oral e fecal.

O estudo se baseia em um número limitado de casos – apenas quatro baleias apresentaram as novas bactérias – e enfrenta restrições relacionadas à qualidade e à disponibilidade das amostras. Nem todos os tecidos estavam preservados de forma adequada, o que dificulta análises mais abrangentes.

Mesmo assim, os pesquisadores consideram que a descoberta abre caminho para investigações futuras. Novas coletas e exames mais detalhados poderão indicar se essas bactérias são residentes comuns do organismo, agentes patogênicos ou apenas oportunistas.

Além de ampliar o entendimento sobre a saúde das baleias, os resultados também chamam atenção para possíveis impactos mais amplos no ecossistema marinho. Infecções silenciosas podem comprometer a capacidade dos animais de se alimentar, mergulhar e se recuperar, afetando populações inteiras ao longo do tempo.

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