Estamos na era da Artemis, mas bem antes do atual programa lunar ganhar força, o programa Apollo, da NASA, transformou ficção científica em realidade entre 1962 e 1972 ao levar 12 astronautas para caminhar na Lua. Com 11 missões tripuladas e seis pousos bem-sucedidos, a iniciativa da agência especial marcou a vantagem dos Estados Unidos na corrida espacial contra a União Soviética durante a Guerra Fria.
O projeto cumpriu o desafio lançado pelo presidente John F. Kennedy (JFK). E estabeleceu as bases da exploração humana nas profundezas do espaço. Isso porque desenvolveu capacidades de navegação e suporte de vida que servem de referência para a ciência até hoje.
Como a NASA transformou ficção científica em realidade no programa Apollo
O caminho até o “pequeno passo” de Neil Armstrong em 20 de julho de 1969 foi pavimentado por avanços e tragédias.
Agora, a NASA tem o programa Artemis, que deve marcar a transição de uma era de exploração rápida para uma fase de ocupação permanente no espaço. Além de visitar a Lua, o objetivo é aprender a viver e trabalhar nela.
Enquanto a humanidade não atinge esse patamar, vale relembrar as missões do programa Apollo que pavimentaram o caminho para a Artemis. Confira abaixo:
Apollo 1
Em 27 de janeiro de 1967, os astronautas Gus Grissom, Edward White e Roger Chaffee entraram na cápsula da Apollo 1 para um teste de rotina que simularia a contagem regressiva no Complexo de Lançamento 34.
Para esse procedimento, a cabine foi selada e pressurizada com oxigênio puro, o que criou um ambiente no qual qualquer pequena faísca poderia se tornar catastrófica. E foi o que aconteceu.
Um curto-circuito sob o assento de Grissom iniciou um incêndio. Em apenas 18 segundos, o cockpit se encheu de chamas e fumaça tóxica.
Além disso, o design da escotilha, que abria para dentro, tornou-se uma armadilha fatal. Isso porque a alta pressão interna impediu que os tripulantes a abrissem a tempo. No fim, os três astronautas morreram asfixiados.
A tragédia forçou a NASA a interromper o programa para uma investigação que revelou falhas técnicas e de segurança. Com base nas lições aprendidas, a espaçonave foi totalmente redesenhada com uma nova escotilha de saída rápida, materiais resistentes ao fogo e uma atmosfera de teste em solo mais segura, utilizando uma mistura de gases.
A agência também desenvolveu novos trajes espaciais feitos de fibras ignífugas (que afugenta o fogo).
Apollo 4
Lançada em 9 de novembro de 1967, a Apollo 4 foi o primeiro voo de teste do foguete Saturno V, o mais potente já construído até então. Além disso, essa missão (não tripulada) foi o primeiro lançamento a partir do Complexo 39 do Centro Espacial Kennedy.
Para você ter ideia, o lançamento foi tão forte que janelas tremerem e poeira caiu do teto do Centro de Controle de Lançamento, localizado a aproximadamente cinco quilômetros de distância. O jornalista Walter Cronkite relatou que o prédio de sua transmissão balançava violentamente. Tanto que ele precisou segurar a janela de vidro enquanto o foguete de 110 metros subia.
O grande objetivo dessa missão foi executar um teste “total” para verificar se os estágios do foguete e a espaçonave funcionavam em harmonia, com foco especial na resistência do escudo térmico.
Após ultrapassar 18 mil quilômetros de altitude para simular uma trajetória lunar, o motor do módulo de serviço foi acionado para acelerar a cápsula a uma velocidade de reentrada de cerca de 40.000 km/h. Isso recriou o calor intenso que os astronautas enfrentariam ao voltar da Lua.
Após oito horas e 36 minutos de missão, a cápsula mergulhou com sucesso no Oceano Pacífico. Na prática, isso provou que a tecnologia era robusta e devolveu à NASA a confiança necessária para seguir adiante após a tragédia da Apollo 1.
Apollo 5
Na missão Apollo 5, lançada em 22 de janeiro de 1968, o Módulo Lunar (LM) – a peça final do quebra-cabeça para chegar à Lua – ganhou o espaço pela primeira vez.
Como se tratava de um voo de teste não tripulado na órbita da Terra, o módulo foi enviado numa configuração curiosa: ele não possuía as icônicas “pernas” de pouso. Afinal, não estava destinado a tocar nenhum solo. Outro detalhe peculiar: ele foi lançado dentro de um cone aerodinâmico no topo de um foguete Saturno IB.
O grande objetivo era executar uma “prova de fogo” para os motores de descida e subida, garantindo que eles funcionariam no ambiente hostil do vácuo.
No entanto, o voo foi marcado por um drama tecnológico que exigiu raciocínio rápido da equipe no solo. Logo na primeira ignição do motor de descida, o computador de bordo abortou a operação após quatro segundos. Isso porque tinha detectado que o empuxo não estava subindo tão rápido quanto o programado.
Sob a liderança do diretor de voo Gene Kranz, os controladores em Houston enviaram comandos manuais para concluir a missão. No fim, eles conseguiram executar o teste mais crítico: o “fire-in-the-hole“, no qual o motor do estágio de subida é acionado enquanto ainda está acoplado ao estágio inferior.
O sucesso foi tão absoluto que a NASA cancelou um segundo teste não tripulado que estava agendado.
Apollo 6
A missão Apollo 6, lançada em 4 de abril de 1968, foi projetada para ser o último teste do foguete Saturno V antes que seres humanos pudessem subir a bordo.
O voo foi marcado por um drama tecnológico: logo nos primeiros minutos, o foguete sofreu com vibrações verticais violentas conhecidas como “efeito pogo”. Elas foram tão intensas que chegaram a soltar painéis da estrutura externa da nave.
Como se não bastasse, durante a queima do segundo estágio, dois dos cinco motores desligaram antes da hora. Isso forçou os motores restantes e o terceiro estágio a trabalharem por mais tempo para compensar a perda de empuxo e conseguir alcançar a órbita terrestre.
Já no espaço, um novo desafio surgiu quando o terceiro estágio se recusou a religar, o que impediu a simulação planejada da trajetória de injeção translunar. Para salvar a missão, os controladores em Houston executaram um plano alternativo.
Eles usaram o motor do Módulo de Serviço para elevar a cápsula a uma altitude de quase 22,5 mil quilômetros. Isso permitiu testar o escudo térmico durante uma reentrada em alta velocidade.
Apesar dos percalços e de um pouso no Oceano Pacífico a cerca de 80 quilômetros do local planejado, a Apollo 6 obteve fotografias coloridas espetaculares da Terra e provou a robustez da cápsula.
O resultado deu à NASA a confiança necessária para decidir que não seriam mais necessários testes não tripulados. Isso abriu caminho para que o próximo Saturno V levasse, finalmente, uma tripulação humana rumo à Lua.
Apollo 7
Lançada em 11 de outubro de 1968, a Apollo 7 foi a missão que devolveu o orgulho e a confiança à NASA após a tragédia da Apollo 1. Ela marcou o primeiro voo tripulado do programa a ganhar os céus.
Impulsionada por um foguete Saturno IB a partir do Complexo 34, a cápsula levava os astronautas Donn F. Eisele, Walter M. Schirra e Walter Cunningham para uma jornada de quase 11 dias na órbita da Terra.
A missão foi um verdadeiro marco tecnológico e midiático, com a primeira transmissão de TV ao vivo de americanos no espaço (“The Walt, Wally and Donn Show“).
Além do entretenimento, a tripulação executou testes fundamentais de engenharia, como a simulação de aproximação e rendezvous (encontro) com o estágio gasto do foguete S-IVB. Isso validou as manobras que seriam essenciais para os futuros pousos lunares.
Entretanto, a vida a bordo não foi fácil. Os astronautas enfrentaram um desafio físico bastante comum, mas agravado pela falta de gravidade: os três contraíram fortes resfriados.
Sem a gravidade para ajudar na drenagem, o muco acumulado nos canais nasais tornou o voo extremamente desconfortável. Com a tripulação mais irritada do que o normal, ocorreram até confrontos verbais com o controle da missão em Houston.
A tensão atingiu o ápice na reentrada, quando a tripulação, temendo que a pressão rompesse seus tímpanos, decidiu descer sem usar os capacetes, contrariando as orientações de quem estava no solo.
Apesar dos percalços e de pequenos sustos elétricos, a Apollo 7 foi um sucesso. A nave caiu com precisão no Oceano Atlântico, qualificando o Módulo de Comando para a etapa seguinte: a histórica viagem da Apollo 8 rumo à órbita da Lua.
Apollo 8
A Apollo 8, lançada em 21 de dezembro de 1968, foi uma missão de pioneirismo. Ela marcou a primeira vez que seres humanos deixaram a órbita da Terra para viajar rumo a outro corpo celeste.
A bordo do foguete Saturno V, os astronautas Frank Borman, James Lovell Jr. e William Anders tornaram-se os primeiros homens a ver o lado oculto da Lua com os próprios olhos.
Após a manobra de injeção translunar, a nave viajou pelo vazio do espaço até alcançar a gravidade lunar, onde completou dez órbitas ao longo de 20 horas.
Esse feito testou os sistemas cruciais de navegação e de comunicação para pousos futuros. Além disso, permitiu a demonstração da antena de alto ganho da espaçonave.
O momento mais emocionante da jornada ocorreu na véspera de Natal, quando ocorreu uma transmissão de TV histórica com os tripulantes diretamente da órbita lunar. Eles leram versículos do livro de Gênesis e desejaram um “Feliz Natal” a todos na Terra.
Durante essas transmissões, o mundo pôde acompanhar em tempo real os astronautas orbitando o satélite a cerca de 112 quilômetros de altitude.
Após cumprirem os objetivos científicos, a cápsula iniciou o retorno e mergulhou com precisão no Oceano Pacífico em 27 de dezembro, sendo resgatada pelo navio USS Yorktown.
O sucesso da Apollo 8 validou os procedimentos de injeção translunar e aumentou drasticamente a confiança de que a humanidade alcançaria a superfície lunar ainda naquela década.
Apollo 9
Lançada em 3 de março de 1969, a Apollo 9 foi uma missão crucial executada na órbita da Terra para testar, pela primeira vez com uma tripulação humana, o Módulo Lunar, apelidado de “Spider”.
Enquanto o Módulo de Comando, chamado de “Gumdrop”, transportava os astronautas James McDivitt, David Scott e Russell Schweickart, o grande desafio era executar uma complexa “dança” espacial: a tripulação precisou separar sua nave do foguete, girar 180 graus e acoplar-se ao Módulo Lunar que ainda estava guardado no estágio superior do Saturno V.
Esse teste de engenharia foi vital para provar que as duas naves podiam operar juntas e de forma independente, validando as manobras de acoplamento que seriam indispensáveis para o sucesso do futuro pouso na Lua.
Durante os dez dias de missão, o motor do Módulo Lunar foi acionado para simular o padrão de descida à superfície lunar. Isso marcou a primeira vez que seres humanos aceleraram manualmente um motor no espaço.
Além disso, Russell Schweickart fez uma caminhada espacial (EVA) para testar a mochila de suporte à vida que seria usada nas futuras caminhadas lunares. Mas o tempo da atividade acabou reduzido por conta de enjoos do astronauta.
O momento mais tenso (e emocionante) ocorreu quando o “Spider” voou sozinho a mais de 180 quilômetros de distância do módulo de comando. E conseguiu retornar e acoplar com perfeição, provando que o Módulo Lunar era uma nave autossuficiente e segura.
Com o cumprimento dos objetivos, a Apollo 9 validou os sistemas necessários para que a humanidade seguisse para o ensaio final da Apollo 10. E a histórica conquista da Apollo 11.
Apollo 10
Lançada em 18 de maio de 1969, a Apollo 10 funcionou como o “ensaio geral” definitivo para a conquista da Lua. A missão executou as etapas de um pouso real, exceto o toque final na superfície.
A tripulação, formada pelos astronautas Thomas Stafford, John Young e Eugene Cernan, levou consigo o Módulo de Comando “Charlie Brown” e o Módulo Lunar “Snoopy“. Stafford e Cernan pilotaram o Snoopy a 15 quilômetros da superfície lunar.
Eles sobrevoaram o Mar da Tranquilidade para validar radares, trajetórias e sistemas de controle no exato local onde a Apollo 11 pousaria meses depois. Além da importância técnica, a missão teve as primeiras transmissões de TV colorida ao vivo diretamente das proximidades da Lua.
A jornada, no entanto, teve seu momento de drama quando o estágio de subida do Módulo Lunar sofreu uma oscilação descontrolada devido a um erro de checklist que deixou um interruptor na posição errada.
Felizmente, os astronautas recuperaram a estabilidade, completaram o acoplamento com o Módulo de Comando e executaram o rastreamento de marcos lunares.
Após completar 31 órbitas ao redor do satélite e passar cerca de oito dias no espaço, a Apollo 10 retornou, mergulhando no Oceano Pacífico em 26 de maio de 1969. O êxito desta missão confirmou que a tecnologia e os procedimentos estavam prontos para o histórico passo seguinte da humanidade.
Apollo 11
Decolando em 16 de julho de 1969, no foguete Saturno V, a Apollo 11 foi a missão histórica que realizou um sonho milenar da humanidade. A bordo, estavam os astronautas Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins. Eles viajaram em direção à Lua na cápsula Columbia.
Ao chegarem na órbita lunar, Armstrong e Aldrin entraram no Módulo Lunar, apelidado de Eagle, enquanto Collins ficou sozinho no comando da nave principal, garantindo o suporte e a comunicação com a Terra.
No dia 20 de julho de 1969, o Eagle pousou no Mar da Tranquilidade. E marcou o ápice de uma corrida tecnológica na época sem precedentes na história humana.
Seis horas após o pouso, Neil Armstrong desceu lentamente a escada e marcou o solo cinzento com a primeira pegada humana, proferindo as famosas palavras:
Um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade.
Durante as mais de 21 horas que passaram na superfície, Armstrong e Aldrin coletaram amostras de rochas, realizaram experimentos científicos e instalaram uma câmera que transmitiu imagens para cerca de 650 milhões de pessoas na Terra. Antes de partirem, eles deixaram medalhas em homenagem aos astronautas falecidos da Apollo 1.
A jornada terminou com um mergulho no Oceano Pacífico em 24 de julho de 1969. Assim, a NASA cumpriu o desafio lançado por JFK: levar o homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança ainda na década de 1960.
Apollo 12
A Apollo 12, lançada em 14 de novembro de 1969, foi uma missão marcada por um início dramático e pela precisão técnica impecável. Por isso, ganhou o apelido de “Missão de Precisão”.
Apenas alguns segundos após a decolagem sob um céu chuvoso, o foguete Saturno V foi atingido por raios duas vezes, o que causou uma perda temporária de telemetria e gerou grande tensão no controle da missão.
No entanto, os astronautas Charles “Pete” Conrad Jr., Alan L. Bean e Richard F. Gordon Jr. conseguiram estabilizar a nave e seguiram rumo ao Oceano das Tormentas.
O ponto alto foi o pouso certeiro: Conrad e Bean tocaram o solo lunar a apenas cerca de 160 metros da sonda Surveyor III, que estava lá desde 1967.
Durante as mais de 31 horas passadas na Lua, a tripulação fez duas caminhadas lunares focadas em exploração e ciência.
Eles instalaram o ALSEP, conjunto de instrumentos para coletar dados sísmicos e científicos por um longo período. E fizeram uma caminhada de quase dois quilômetros explorando crateras e coletando mais de 30 quilos de amostras de rochas e solo.
Um momento fascinante foi a visita à Surveyor III, da qual os astronautas retiraram peças, como a câmera de TV e o coletor, para que os cientistas na Terra pudessem estudar os efeitos da exposição prolongada ao ambiente lunar.
Apesar de um contratempo técnico que inutilizou a câmera de transmissão da missão ao ser apontada acidentalmente para o sol, a Apollo 12 deu certo. E retornou com segurança ao planeta Terra, mergulhando no Oceano Pacífico, em 24 de novembro de 1969.
Apollo 13
Lançada em 11 de abril de 1970, a Apollo 13 tinha o objetivo de fazer o terceiro pouso humano na Lua, este na região de Fra Mauro. A tripulação era formada por James Lovell, Fred Haise e Jack Swigert, substituição de última hora de Ken Mattingly por conta de exposição ao sarampo.
O voo seguia tranquilo até que, a cerca de 320 mil quilômetros da Terra, uma explosão devastadora no tanque de oxigênio nº 2 paralisou o Módulo de Comando, Odyssey. Isso fez Swigert proferir a frase que entraria para a história:
Houston, tivemos um problema aqui.
Com a perda de energia, água e oxigênio na nave principal, os astronautas precisaram abandonar a Odyssey e transformar o Módulo Lunar, Aquarius, num “bote salva-vidas” improvisado. O desafio foi abrigar três homens num sistema projetado para sustentar apenas dois por um período muito mais curto.
O que se seguiu foi uma das maiores demonstrações de resiliência da história da NASA, o que transformou a missão no “fracasso mais bem-sucedido” da agência espacial.
Numa corrida desesperada contra o tempo, a equipe em Houston desenvolveu procedimentos inéditos para economizar recursos e filtrar o gás carbônico usando apenas papelão, sacos plásticos e fita adesiva. Isso enquanto os astronautas enfrentavam frio congelante (aproximadamente 3°C) e desidratação severa.
Sem o sistema de navegação estelar, eles utilizaram o Sol como guia para executar queimas de motor precisas e retomar a trajetória de retorno à Terra.
Após seis dias de tensão extrema e uma reentrada na qual a condensação acumulada fez “chover” dentro da cabine, a tripulação mergulhou com segurança no Oceano Pacífico em 17 de abril de 1970.
Apollo 14
A missão Apollo 14, lançada em 31 de janeiro de 1971, marcou o retorno de uma tripulação humana à superfície lunar após o drama da Apollo 13, levando os astronautas Alan Shepard, Edgar Mitchell e Stuart Roosa rumo à região de Fra Mauro.
A jornada começou com um desafio técnico: a tripulação enfrentou sérias dificuldades para acoplar o Módulo de Comando, Kitty Hawk, ao Módulo Lunar, Antares. Seis tentativas foram necessárias para atingir eles conseguirem uma conexão firme.
Além disso, pouco antes da descida final, um curto-circuito num interruptor do computador da Antares quase interrompeu a missão. Mas o problema foi contornado. Assim, Shepard e Mitchell executaram, em 5 de fevereiro de 1971, o pouso mais preciso do programa até então: aproximadamente 27 metros do ponto planejado.
Na superfície lunar, a dupla estabeleceu novos marcos para a exploração espacial, acumulando um recorde de nove horas e 24 minutos de atividades fora da nave. Durante as caminhadas, os astronautas coletaram cerca de 43 quilos de rochas e solo. Eles conduziram investigações geológicas enquanto tentavam alcançar a borda da cratera Cone.
Shepard também estabeleceu um recorde individual de distância percorrida a pé na Lua: ele andou por quase três quilômetros lá.
Enquanto Stuart Roosa conduzia experimentos científicos da órbita lunar, a dupla no solo instalava o conjunto de instrumentos ALSEP para monitorar o ambiente lunar a longo prazo.
A missão foi concluída em 9 de fevereiro de 1971, com um mergulho seguro no Oceano Pacífico após nove dias de viagem.
Apollo 15
Lançada em 26 de julho de 1971, a Apollo 15 inaugurou as chamadas missões de tipo “J”, projetadas para estadias lunares mais longas e com foco científico bem mais profundo.
A tripulação, composta pelos astronautas David Scott, James Irwin e Alfred Worden, viajou rumo à região de Hadley-Apennine. Lá, Scott e Irwin fizeram o pouso mais íngreme do programa até então. Eles desceram o Módulo Lunar Falcon entre montanhas colossais e o sinuoso desfiladeiro Hadley Rille.
A grande estrela tecnológica desta missão foi o Lunar Roving Vehicle (LRV), o primeiro jipe dirigido por humanos em outro corpo celeste. O veículo permitiu à dupla explorar áreas vastas e geologicamente ricas que seriam inacessíveis apenas a pé.
Durante os quase três dias passados na superfície, Scott e Irwin estabeleceram recordes ao percorrerem cerca de 28 quilômetros com o jipe lunar e coletarem mais de 77 quilos de amostras de rochas e solo. Enquanto isso, na órbita lunar, Alfred Worden conduzia experimentos complexos.
Na viagem de volta, ocorreu a primeira caminhada espacial nas profundezas do espaço (no caso, para recuperar cassetes de filme das câmeras externas do módulo de serviço).
A jornada terminou em 7 de agosto de 1971 com um mergulho no Oceano Pacífico que trouxe um susto: um dos três paraquedas principais falhou em inflar totalmente, fazendo com que a cápsula Endeavor atingisse a água com uma velocidade maior do que o planejado. Por sorte, os astronautas não se feriram.
Apollo 16
A Apollo 16, lançada em 16 de abril de 1972, levou os astronautas John Young, Charles Duke e Thomas Mattingly rumo às Terras Altas de Descartes, região montanhosa e acidentada na Lua escolhida por seu potencial geológico vulcânico.
A jornada, porém, quase terminou num cancelamento dramático quando, já na órbita lunar e após a separação das naves, um problema técnico no motor do Módulo de Comando causou oscilações preocupantes. Isso atrasou o pouso em quase seis horas.
Após os engenheiros em Houston garantirem que o sistema era seguro, o Módulo Lunar Orion finalmente tocou o solo lunar com precisão em 20 de abril. Assim, Young e Duke iniciam uma das explorações mais produtivas do programa Apollo.
Durante três dias na superfície, a dupla percorreu cerca de 26,7 quilômetros com o jipe lunar, fazendo manobras de teste conhecidas como “Grand Prix” e coletando impressionantes 95 quilos de amostras de rochas. Enquanto isso, Thomas Mattingly fazia observações orbitais detalhadas.
Os problemas técnicos iniciais forçaram o encerramento da missão um dia antes do planejado. Por isso, a Apollo 16 terminou com um mergulho seguro no Oceano Pacífico em 27 de abril.
Apollo 17
Lançada em 7 de dezembro de 1972, a Apollo 17 representou o encerramento do programa espacial. Ela levou o comandante Eugene Cernan, o piloto Ronald Evans e o geólogo Harrison Schmitt rumo à região de Taurus-Littrow.
Schmitt entrou para a história como o primeiro cientista-astronauta a explorar o satélite natural. Ele conduziu uma investigação geológica profunda em busca de rochas com idades variadas que não haviam sido encontradas em missões anteriores.
Durante as 75 horas passadas na superfície lunar, a dupla Eugene Cernan e Harrison Schmitt fez três caminhadas espaciais, percorrendo mais de 30 quilômetros com o jipe lunar. Eles coletaram 110,4 quilos de amostras de solo e rochas, um recorde na época.
O sucesso técnico foi complementado pela instalação da sexta estação de pesquisa automatizada, consolidando o legado científico mais rico de toda a era Apollo.
O retorno ocorreu em 19 de dezembro de 1972, quando o módulo de comando mergulhou no Oceano Pacífico. Isso selou o fim de uma era. Eugene Cernan tornou-se o último ser humano a deixar suas pegadas na poeira lunar, enquanto Schmitt se despediu com um gesto simbólico ao jogar seu martelo de geólogo para o alto antes de embarcar de volta à Terra.
Por que o programa Apollo acabou? E por que a NASA demorou tanto para mandar astronautas de volta à Lua?
Se a NASA tinha tecnologia para mandar gente para a Lua nos anos 60 e 70, por que parou de fazer isso? E, mais importante, por que demorou mais de meio século para a agência espacial dos EUA preparar um novo voo tripulado?
Imagine que você está numa corrida de cem metros. Você treina bastante, gasta as suas economias em peças de roupa e, finalmente, cruza a linha de chegada em primeiro lugar. O que você faz depois? Geralmente, você para de correr e vai descansar, certo?
Foi basicamente isso que aconteceu com o programa Apollo. O objetivo principal, lançado pelo presidente Kennedy, era chegar à Lua antes dos soviéticos e antes do fim da década de 1960. Uma vez que a Apollo 11 conseguiu isso, a “corrida” perdeu o sentido geopolítico de urgência.
No auge da corrida espacial, a NASA consumia cerca de 4% do orçamento federal dos EUA. Manter as missões Apollo era caríssimo (mais de US$ 260 bilhões em valores corrigidos hoje, para você ter ideia). Com o custo da Guerra do Vietnã (1955-1975) e problemas internos no país, o governo americano decidiu que o investimento não era mais sustentável.
Além disso, o presidente Nixon decidiu, em 1972, que a NASA deveria focar na órbita baixa da Terra. Isso deu origem ao Ônibus Espacial e, mais tarde, à Estação Espacial Internacional (ISS).
Por que demorou tanto para astronautas voltarem à vizinhança da Lua? A resposta curta é: ir à Lua para “acampar” (Apollo) é muito mais fácil do que ir para “morar” (Artemis).
Cada novo presidente que assumia nos EUA trazia um novo plano. Um queria ir para Marte, o próximo cancelava e queria voltar à Lua, e o seguinte mudava de ideia de novo. Programas gigantescos como o Constellation foram cancelados no meio do caminho por falta de verba contínua ou mudanças de prioridade.
Outro ponto importante: atualmente, os padrões de segurança são muito mais rigorosos do que nos anos 60. Certificar novas tecnologias, como o escudo térmico da cápsula Orion ou os novos sistemas de pouso, leva anos de testes exaustivos para garantir que os astronautas não corram riscos desnecessários.
Diferente das missões Apollo, que exploravam apenas a região do equador lunar por pouco tempo, o programa Artemis quer estabelecer uma presença sustentável. Como? 1) explorando o polo sul lunar em busca de gelo (água); e 2) construindo uma base de longo prazo. Isso exige engenharia muito mais complexa e parcerias com o setor privado e outros países para dividir os custos.
Ou seja, o intervalo de 50 anos não foi por falta de inteligência, mas por uma combinação de falta de dinheiro, mudanças de interesse político e o imenso desafio tecnológico de criar algo que dure no espaço.
Quer saber mais sobre a jornada da NASA rumo à Lua? Confira nossa cobertura especial sobre a Artemis 2.
(Essa reportagem também usou informações de artigos publicados no The Conversation – este e este.)
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