Documentos antes mantidos sob sigilo revelam novas alegações contra a Amazon em um processo antitruste movido pelo Estado da Califórnia (EUA). Segundo autoridades locais, a empresa teria pressionado vendedores independentes a elevar preços em plataformas concorrentes para manter sua imagem de preços mais baixos.
O material, composto por centenas de registros anteriormente redigidos, inclui e-mails internos, depoimentos e apresentações corporativas confidenciais. Esses documentos foram obtidos pelo procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, no âmbito de uma ação civil iniciada em 2022, que acusa a gigante de tecnologia de praticar fixação de preços em larga escala.
De acordo com as autoridades, a Amazon monitorava de perto os preços praticados por vendedores em sites concorrentes, como Walmart e Target. Um dos trechos revelados indica que a empresa demonstrava preocupação mesmo quando um produto era vendido por apenas um centavo a menos em outra plataforma.
Os documentos foram apresentados no tribunal superior do condado de São Francisco (EUA), embora ainda não estejam disponíveis publicamente. Parte do conteúdo permaneceu sob sigilo por decisão judicial, a pedido da própria Amazon. O The Guardian obteve acesso a esses documentos.
Em nota, Bonta afirmou que as novas evidências reforçam a acusação de que a empresa “pune ilegalmente vendedores cujos produtos são vendidos a preços mais baixos por outros varejistas online”.
Ele acrescentou: “Especialmente enquanto os consumidores enfrentam uma crise de acessibilidade, não há espaço para práticas ilegais que prejudiquem a concorrência e elevem os preços”. O procurador também declarou que o estado aguarda o julgamento, previsto para janeiro de 2027.
Segundo o processo, a empresa utilizava ferramentas automatizadas para acompanhar os preços de vendedores independentes em outras plataformas. Quando identificava valores mais baixos fora de seu ambiente, a Amazon utilizava sua posição dominante para garantir que esses preços não fossem inferiores aos praticados em seu site, segundo o processo.
Ainda de acordo com a ação, vendedores que ofereciam descontos em outros canais eram punidos com a perda de recursos essenciais dentro da plataforma, como a chamada “Buy Box”, área de destaque onde aparecem opções, como “Adicionar ao carrinho” e “Comprar agora”.
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Depoimentos
Um dos depoimentos anteriormente sigilosos é o de Mayer Handler, proprietário da empresa de roupas Leveret;
Ele relatou ter recebido, em outubro de 2022, um e-mail da Amazon informando que um de seus produtos deixaria de ser elegível para a Buy Box;
Segundo Handler, a decisão ocorreu porque o item — um pijama infantil com estampa de tigre — estava sendo vendido por US$ 19,99 (R$ 99,70) na Amazon, um centavo acima do preço praticado no Walmart;
Após o ocorrido, Handler afirmou que sua empresa ajustou os preços no Walmart para igualar ou superar os da Amazon, ou alterou códigos de produtos para dificultar o rastreamento automatizado;
Em resposta a questionamentos do The Guardian, ele criticou a prática de monitoramento de preços e o bloqueio indireto de produtos, afirmando que tais ações privam consumidores de valores mais baixos. “Talvez isso seja capitalismo. Ou talvez seja um monopólio causando aumento de preços ao consumidor”, escreveu.
Outro depoimento citado é o de Terry Esbenshade, fornecedor de uma loja de jardinagem na Pensilvânia (EUA). Ele declarou que, sempre que seus produtos perdiam a Buy Box devido a preços menores em outros sites, suas vendas na Amazon caíam cerca de 80%. Segundo ele, essa realidade o obrigava a elevar os preços em outras plataformas.
Em um caso específico, Esbenshade relatou que uma mesa de pátio popular de sua empresa foi suprimida na Amazon.
Após ser orientado por um representante da companhia a verificar o site Wayfair, ele constatou que o produto estava sendo vendido por um valor inferior. Em resposta, definiu um novo preço mínimo, anunciado na plataforma concorrente, acima do praticado na Amazon. “Então, isso elevou o preço e, pronto, meu produto voltou” à Amazon, disse, referindo-se à restauração da Buy Box.
O gabinete do procurador-geral argumenta que os novos documentos indicam que funcionários da empresa estavam cientes dos impactos de suas ações sobre os preços e atuavam ativamente para reduzir a concorrência.
Entre os exemplos citados, está o relato de um engenheiro da Amazon sobre o uso da supressão da Buy Box e de um programa interno chamado SC-FOD para desencorajar vendedores a comercializar produtos em plataformas concorrentes, como o site Temu.
Outro documento revela que um funcionário sênior descreveu, em e-mail interno de agosto de 2023, como essas práticas levavam vendedores a aumentar preços em outros sites. “Quando isso acontece, eles afirmam que procuram o preço mais baixo e, quando o encontram, o elevam para igualar ao da Amazon”, escreveu.
A Amazon, que recentemente superou o Walmart e se tornou a maior empresa do mundo em receita, lidera com ampla margem o comércio eletrônico nos Estados Unidos.
Ao final de 2022, a empresa respondia por quase metade dos gastos no setor, enquanto o Walmart detinha menos de 8%, segundo dados da empresa de análise PYMTS.com. No terceiro trimestre de 2025, a participação da Amazon chegou a 56%, contra 9,6% do Walmart.
O que diz a Amazon
A Amazon classificou as acusações como “totalmente falsas e equivocadas”. Em comunicado, a empresa afirmou: “A Amazon é consistentemente identificada como o varejista online com os preços mais baixos dos Estados Unidos, e é irônico que o procurador-geral busque que exibamos preços mais altos de maneiras que prejudicariam consumidores e a concorrência.”
A Amazon sustenta que suas práticas incentivam a concorrência e visam garantir preços baixos aos consumidores. “Assim como qualquer lojista não gostaria de promover uma oferta ruim aos seus clientes, nós não destacamos ou promovemos ofertas que não sejam competitivas em preço”, afirmou a empresa.
A companhia também negou que seus acordos com vendedores independentes tenham como objetivo evitar a concorrência. Em resposta ao processo, declarou: “A Amazon nega que a intenção ou o efeito de qualquer acordo firmado com vendedores terceiros seja se proteger da concorrência de preços ou consolidar qualquer posição de dominância.”
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