A música Don’t look back in anger (1996) da banda Oasis se tornou uma espécie de hino para a cidade de Manchester após o atentado de 2017. Mas o título da canção, que pode ser traduzido para algo como “não olhe para trás com rancor”, há muito se encaixa com o espírito da cidade: faz parte da identidade de Manchester manter a cabeça erguida e o olhar voltado para o futuro.
Tendo uma abelha operária como símbolo, a cidade no norte da Inglaterra é considerada o berço da Revolução Industrial e foi fortemente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. Com o declínio da indústria têxtil de algodão, veio o desemprego em massa e uma tensão social que serviu de combustível para uma verdadeira explosão musical entre as décadas de 1970 e 1980: de Manchester saíram nomes como Joy Division, The Smiths, New Order, Happy Mondays e Simply Red.
Nos anos 1990, o Oasis inaugurou uma fase mais otimista, orgulhosa e quase provocativa, projetando a cidade para o mundo. Como fã dos irmãos briguentos Liam e Noel Gallagher, era da banda que eu me lembrava primeiro quando o assunto era Manchester. Mas, se você é fã de futebol, pode ser que a associação mais óbvia seja com o United e o City, dois dos mais poderosos times do mundo.
De uma forma ou de outra, a cidade que compõe o imaginário do Reino Unido ainda reserva outros elementos que tem tudo para surpreender. Com um interessante mix arquitetônico, que é resultado da necessidade de ter tido que se reinventar mais de uma vez, Manchester também é uma cidade universitária, o que lhe confere um ar jovem e atrevido.
A cereja do bolo é que todas as atrações ficam relativamente próximas umas das outras, o que é muito conveniente ao viajante: Manchester tem todos os benefícios de uma cidade grande, com as dimensões de uma cidade pequena. Tudo isso a duas horas de trem de Londres.
Cidade da música
Quando estiver planejando seus dias em Manchester, não deixe de conferir a programação do Co-op Live, inaugurado em 2024. Com Harry Styles entre os investidores, a maior arena coberta do Reino Unido está redefinindo o modo de receber shows. O espaço foi especialmente projetado para proporcionar a melhor acústica, independente de onde você estiver assistindo. Além disso, tanto o seu palco quanto sua arquibancada podem ser movimentados para receber diferentes projetos artísticos.
Layout flexível do Co-op Live permite palco no centroNick Flynn/Divulgação
O QUE FAZER
Viagem no tempo: um roteiro pelo centro
O Northern Quarter sintetiza a vibe de Manchester. Epicentro da Revolução Industrial, o bairro foi descrito por Friedrich Engels em seus estudos sobre a classe operária inglesa como “insalubre e decadente”. Hoje, esse é um dos hotspots da cidade: os antigos edifícios industriais e armazéns ganharam grafites coloridos e foram convertidos em apartamentos e negócios descolados, entre eles galerias de arte, lojas de roupas e música.
Construções de tijolos predominam no Northern QuarterBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Grafite no Northern Quarter homenageia o baixista Andy Rourke, da banda The Smiths, falecido em 2023Bárbara Ligero/Viagem e Turismo
Um dos destaques é o Affleck’s, uma antiga loja de departamentos que foi transformada em um amontoado de quiosques de roupas alternativas, objetos de decoração, estúdios de tatuagem, pôsters de bandas, incensos e até leitura de tarô. Lembra muito a Galeria do Rock, em São Paulo.
Escadaria do Affleck’s: a abelha operária é um símbolo de ManchesterAfflecks Limited/Divulgação
As lojas de música são numerosas no Affleck’sAfflecks Limited/Divulgação
Um dado interessante é que, devido à sua arquitetura bem preservada, o Northern Quarter é frequentemente usado como locação de filmes e séries e geralmente aparece como “dublê” de outras cidades no passado. Um exemplo? A área ao redor da Dale Street foi usada para dar vida à Birmingham da década de 1920 na série Peaky Blinders (2013-2022) e também à Nova York dos anos 1940 em Capitão América: O Primeiro Vingador (2011).
De fato, caminhar por Manchester é como uma viagem no tempo das mais malucas: basta dar alguns passos para pular de um século para outro. Duvida? Em menos de dez minutos de caminhada, a arquitetura muda completamente no Central Retail District, quase um shopping a céu aberto, com lojas de marcas internacionais ocupando prédios envidraçados modernos.
Edifícios modernos e históricos convivem em ManchesterBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Mas é só descer uma escada rumo à Shambles Square para o cenário mudar mais uma vez: você vai dar de cara com o The Old Wellington, pub que ocupa uma construção de madeira de 1552.
O antiquíssimo The Old Wellington é uma instituição na cidadePeter McDermott/Wikimedia Commons
A belíssima Catedral de Manchester, que fica logo atrás, consegue ser ainda mais antiga: a atual estrutura em estilo gótico é de 1421. Aproveite que a entrada é gratuita para dar uma espiada no interior, com trabalhos em madeira medievais.
A Catedral de Manchester é uma joia gótica sobrevivente no centro da cidadeBárbara Ligero/Viagem e Turismo
A estrutura da catedral levou séculos para ser concluída, refletindo diferentes fases da arquitetura medievalBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Para conhecer outros capítulos da história de Manchester, há dois ótimos museus gratuitos no centro. O interessante Museum of Science & Industry aborda inovações locais, que vão desde a indústria do algodão e a primeira fábrica da Rolls Royce até invenções como o microscópio e o primeiro computador programável. Já o People’s History Museum foca nos movimentos sociais e lutas trabalhistas que aconteceram na cidade – Manchester foi, por exemplo, o berço do movimento sufragista britânico.
O Science and Industry Museum destaca invenções de ManchesterBárbara Ligero/Viagem e Turismo
O passeio diurno pelo centro pode terminar no Castlefield Viaduct, um viaduto de aço de 330 metros de extensão que em 2022 foi transformado em um parque urbano suspenso, aos moldes do High Line de Nova York.
Castlefield Viaduct: um antigo viaduto ferroviário da era vitoriana foi transformado em “jardim suspenso”Bárbara Ligero/Viagem e Turismo
À noite, um dos lugares mais animados para se estar é o Gay Village, a uma curta caminhada do Northern Quarter. O burburinho é principalmente em torno da Canal Street, via à beira de um canal por onde só circulam pedestres.
A Gay Village abriga bares, baladas e restaurantes, além de ser o coração do evento Manchester PrideBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Tours guiados
A Manchester Taxi Tours realiza passeios guiados a bordo de charmosos táxis elétricos. Há tours focados em assuntos específicos, como história, futebol e música, e até uma versão que inclui um típico chá da tarde britânico servido dentro do carro. Já a The Locationist leva para conhecer as locações de séries e filmes com guias antenados em tudo que envolve cultura pop.
O charmoso táxi da Manchester Taxi Tours e parada para identificar locações de filmes e séries com o The LocationistBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Bibliosmia: Chetham’s Library e John Rylands Library
Bibliosmia é o termo técnico e carinhoso para o ato ou prazer de cheirar livros, sejam eles novos ou antigos. Quem tem essa mania, comum entre leitores assíduos, vai pirar tanto quanto eu na pequenina Chetham’s Library, a mais antiga biblioteca pública de língua inglesa, que fica logo atrás da Catedral de Manchester.
Mais de mil anos de história estão registrados nessas prateleirasChetham’s Library/Divulgação
As prateleiras de madeira escura, que emanam um delicioso cheiro de livro velho, exibem volumes antiquíssimos, alguns deles presos por correntes ou dentro de sessões trancadas, como vemos nos filmes. E quando eu digo antigo, é antigo mesmo. Dos mais de 100 mil volumes que fazem parte da coleção, 60 mil foram publicados antes de 1851. E há ainda mais de mil manuscritos, sendo 41 deles textos medievais.
Livros presos por correntes e o clima medieval da bibliotecaChetham’s Library/Divulgação
Chetham’s também foi o local onde Karl Marx e Friedrich Engels se reuniram em 1845, durante as pesquisas para o que viria a se tornar O Manifesto Comunista (1848). Os livros de economia consultados por eles durante esse período estão expostos na exata mesa que eles utilizavam nos encontros, em um cantinho aprazível cercado por janelas.
O cantinho onde Marx e Engels estudaram juntosBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Por se tratar de um local com tamanha importância histórica e que guarda materiais tão frágeis, hoje a biblioteca só pode ser visitada com acompanhamento de guia. O tour dura cerca de uma hora e deve ser reservado com antecedência pelo site, onde é possível consultar datas e horários.
A visita é mais flexível na igualmente imperdível John Rylands Library, de entrada livre e também no centro de Manchester.
A biblioteca foi fundada por Enriqueta Augustina Rylands em 1900, em memória de seu marido, o magnata têxtil John RylandsBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Não bastasse ter no acervo a Bíblia de Gutenberg e o exemplar mais antigo do Novo Testamento, a biblioteca ainda é um prodígio neogótico, com colunas, vitrais e arcos que remetem às catedrais do século 17, embora tenha sido concluída em 1900. O que para uns é grandioso, para outros é parte do dia a dia: jovens estudam concentrados nas mesas espalhadas pela biblioteca, alheios ao vai-e-vem de turistas.
Riqueza de detalhes da arquitetura neogótica da John RylandsBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Alheios ao fluxo de visitantes, estudantes usam a John Rylands para estudarBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Mundo bola: National Football Museum, Manchester City e Manchester United
Uma música estranhamente familiar tocava quando entrei no National Football Museum. Não demorou muito para que eu me desse conta que se tratava do hino do Brasil, que servia de trilha sonora para um vídeo de Pelé celebrando um gol. Localizado entre a Catedral de Manchester e a Chetham’s Library, o maior museu do mundo dedicado ao futebol destrincha o esporte desde que ele foi inventado pelos ingleses, com muitas menções e homenagens ao nosso Brasil – de camisetas usadas por Pelé e Marta em Copas do Mundo a clipes com lances geniais do Zico.
Edifício moderno de seis andares é totalmente dedicado ao universo do futebolNational Football Museum/Divulgação
Cheio de recursos interativos que cativam igualmente crianças e adultos, o museu mostra ainda a evolução das bolas e das chuteiras e o passado violento dos hooligans, grupos de torcedores que faziam vandalismo e promoviam brigas principalmente entre as décadas de 1970 e 1980. Em Manchester, esse movimento geralmente envolvia torcedores do United e do City, os dois grandes times locais.
Mais de 2.500 itens de memorabília estão expostos no National Football MuseumBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Pelé aparece com destaque ao longo da exposiçãoBárbara Ligero/Viagem e Turismo
Se quiser puxar papo com um local, pergunte se ele é um red (vermelho, associado ao Manchester United) ou um blue (azul, associado ao Manchester City). Por muito tempo, o United foi o time mais famoso mundialmente simplesmente por ser mais bem-sucedido. Mas existe a narrativa de que o City tem uma base de fãs maior dentro dos limites da cidade, o que pareceu ser verdade no meu pequeno experimento: o número de vezes que ouvi blue como resposta foi bem maior. Verdade ou não, fato é que o City teve uma explosão desde que foi comprado pelos árabes de Abu Dhabi em 2008 e hoje acumula tantos fãs pelo mundo quanto o seu rival.
Fissurados por futebol podem incluir no roteiro em Manchester os tours guiados, daqueles em que se entra até no gramado, no Old Trafford do United, que recebeu o apelido de Teatro dos Sonhos e existe desde 1909, e no moderno Etihad Stadium do City, inaugurado em 2003. Os estádios ficam em cantos opostos da cidade, mais afastados do centro.
É difícil arranjar ingressos para os jogos, mas se eu pudesse escolher uma partida para assistir, seria do United, só pelo trajeto até lá. Do centro de Manchester saem passeios de barco da Manchester River Cruises e do City Centre Cruises que deixam direto no Old Trafford, com open bar durante os trinta minutos a bordo. Deve ser um barato.
O Old Trafford, casa do Manchester United, fica à beira do rio IrwellBárbara Ligero/Viagem e Turismo
ONDE FICAR
Com decoração moderna e colorida que lembra uma casinha de madeira, o Treehouse Manchester tem localização imbatível, a um pulo de tudo o que interessa no centro.
A espaçosa Studio Suite do Treehouse ManchesterSimon Brown/Divulgação
Colado na estação Piccadilly e a uma curta caminhada do Northern Quarter, o The Reach tem quartos compactos e modernos.
Quarto Double Deluxe no The ReachMatthew Shaw/Divulgação
ONDE COMER
Ótima opção para almoçar no Northern Quarter, o Mackie Mayor deu nova vida a um antigo mercado de 1857. O espaço funciona como uma democrática praça de alimentação, com quiosques que preparam pizzas, sanduíches, tacos e ramen.
Mackie Mayor: antigo mercado de carnes que virou food hall em 2017Rich J Jones / Marketing Manchester/Divulgação
Para ter a experiência de comer em um pub, ainda que em versão mais sofisticada, o The Black Friar ocupa uma construção restaurada de 1886 e serve clássicos britânicos, com destaque para as ótimas tortas. Para acompanhar, peça uma Boddingtons: frequentemente chamada de “Cream of Manchester”, é uma tradicional cerveja inglesa do estilo Pale Ale que deixou saudades.
O Black Friar é um pub lindamente restaurado que data de 1886//Divulgação
Quem prefere vinhos encontra uma vasta carta de rótulos europeus fora do óbvio no Higher Ground. O bistrô, que conquistou o selo Bib Gourmand do Guia Michelin, serve pratos pensados para serem compartilhados na mesa. Se puder, sente-se no balcão para assistir ao preparo dos pratos e bater papo com a simpática equipe.
Higher Ground: um bistrô moderno no coração de Manchester//Divulgação
Dentro do hotel Treehouse Manchester, o Pip merece a visita mesmo que você não esteja hospedado. Decorado com materiais reaproveitados, peças vintage e muita madeira, o restaurante é comandado pela chef local Mary-Ellen McTague, que faz questão de utilizar produtos da região para compor o menu variado.
A decoração do Pip acompanha a do hotel Treehouse, com muita madeira e elementos coloridosSimon Brown/Divulgação
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