Astrônomos encontram 27 possíveis planetas com dois sóis 

Um estudo publicado na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society relata a identificação de 27 possíveis planetas circumbinários – aqueles que orbitam duas estrelas ao mesmo tempo. A divulgação ocorreu na segunda-feira (4), data conhecida como “Dia de Star Wars”. Na franquia, esse tipo de mundo ficou famoso com Tatooine, o planeta com dois sóis.

Apesar de terem se popularizado na ficção, os planetas circumbinários são extremamente raros nas observações astronômicas. Até hoje, apenas 18 deles foram confirmados pelos cientistas. Esse número é pequeno quando comparado aos mais de seis mil exoplanetas já catalogados em sistemas com apenas uma estrela, como o nosso.

Mundo Tatooine, de Star Wars: como seria viver em um planeta com dois sóis? – Crédito: Divulgação / Lucasfilm / Disney

Liderada por cientistas da Universidade de New South Wales (UNSW), na Austrália, a nova pesquisa amplia consideravelmente esse cenário. Utilizando uma técnica diferente das tradicionais, os pesquisadores identificaram os 27 candidatos em uma única análise, o que sugere que esses mundos podem ser mais comuns do que se imaginava.

Candidatos foram revelados por “eclipses estelares”

Segundo os autores, o conhecimento atual sobre planetas fora do Sistema Solar ainda é limitado pelos métodos de detecção disponíveis. Em geral, os astrônomos acabam encontrando apenas os corpos mais fáceis de observar, o que cria um retrato incompleto da diversidade de sistemas planetários existentes no Universo.

A técnica utilizada no estudo é chamada de precessão apsidal. Embora já fosse conhecida na análise de estrelas binárias, ela nunca havia sido aplicada de forma ampla na busca por planetas. O método observa mudanças sutis na órbita de duas estrelas que giram uma em torno da outra.

Essas variações são percebidas por meio de “eclipses estelares”, quando uma estrela passa na frente da outra. Normalmente, esses eventos seguem um padrão previsível. No entanto, quando há alterações nesse “calendário”, pode ser sinal da presença de um terceiro corpo influenciando o sistema.

Ilustração mostra um exoplaneta orbitando duas anãs marrons – Crédito: ESO/M. Kornmesser

Esse terceiro objeto pode ser um planeta. Ao identificar essas mudanças ao longo do tempo, os cientistas conseguem inferir a existência de corpos que não seriam detectados por métodos tradicionais. Isso torna a técnica especialmente útil para encontrar planetas com órbitas inclinadas ou irregulares.

Objetos foram capturados por “caçador de exoplanetas” da NASA

Grande parte dos exoplanetas conhecidos foi descoberta pelo método de trânsito, que detecta pequenas quedas na luz de uma estrela quando um planeta passa à sua frente. Apesar de eficiente, essa abordagem depende de um alinhamento específico entre o planeta, a estrela e a Terra.

Isso significa que muitos planetas acabam passando despercebidos, simplesmente porque não cruzam a linha de visão dos telescópios. Com isso, os astrônomos podem estar deixando de observar uma parcela significativa desses sistemas.

A nova abordagem ajuda a preencher essa lacuna. Ao detectar planetas que não produzem eclipses visíveis, ela amplia o alcance das buscas e permite uma visão mais completa da estrutura dos sistemas estelares.

Representação artística do caçador de exoplanetas TESS, da NASA – Crédito: NASA

Os dados utilizados no estudo foram coletados pelo satélite Satélite de Pesquisa de Exoplanetas em Trânsito (TESS), da NASA, lançado em 2018 com a missão de identificar mundos alienígenas.

Mesmo ainda não confirmados, os resultados surpreenderam os pesquisadores pela quantidade de candidatos encontrados. Para a confirmação, será necessário utilizar métodos adicionais de observação, capazes de descartar outras possibilidades, como estrelas menores, anãs marrons ou até buracos negros.

Os candidatos identificados apresentam grande variedade de tamanhos. Alguns têm massa semelhante à de Netuno, enquanto outros podem ser até dez vezes maiores que Júpiter. Essa diversidade reforça a complexidade desses sistemas.

As distâncias também variam bastante. O candidato mais próximo está a cerca de 650 anos-luz da Terra, enquanto o mais distante chega a aproximadamente 18 mil anos-luz. 

Os sistemas estão distribuídos tanto no céu do hemisfério sul quanto do norte. Isso significa que, ao longo do ano, diferentes regiões da Terra podem observar essas estrelas com o uso de telescópios.

De acordo com os pesquisadores, cerca de 2% dos sistemas binários analisados apresentaram sinais que podem indicar a presença de planetas. Esse número sugere que pode haver milhares ou até dezenas de milhares desses mundos ainda não detectados.

Novos projetos, como o levantamento de longo prazo do Observatório Vera C. Rubin, no Chile, devem ampliar ainda mais essa busca. A expectativa é que, com mais dados, seja possível identificar uma população muito maior de planetas circumbinários.

Na saga Star Wars, o mundo Tatooine tem dois sóis – Crédito: Divulgação / Lucasfilm / Disney

Mapear planetas com dois sóis amplia a compreensão do Universo 

Entender esses sistemas é fundamental para a astronomia. Atualmente, a maioria dos planetas conhecidos está em sistemas com uma única estrela. No entanto, mais da metade das estrelas do universo faz parte de sistemas binários ou múltiplos.

Isso significa que os cientistas ainda têm muito a descobrir sobre como os planetas se formam e evoluem nesses ambientes mais complexos. Questões como a possibilidade de habitabilidade também entram em pauta.

Se alguns desses planetas forem capazes de sustentar condições favoráveis à vida, isso ampliaria significativamente as chances de existência de vida fora da Terra. A descoberta de ambientes habitáveis em sistemas com dois sóis mudaria a forma como entendemos o universo.

Além disso, estudar outros mundos ajuda a compreender melhor o próprio Sistema Solar. Ao comparar diferentes cenários, os cientistas conseguem identificar padrões e diferenças que explicam a formação dos planetas.

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Nos próximos meses, a equipe pretende aprofundar a análise dos dados e realizar novas observações para atestar os candidatos e entender melhor suas características. Os cientistas também planejam aplicar o método em conjuntos maiores de dados e realizar simulações para investigar como esses planetas se formam e evoluem ao longo do tempo.

Os primeiros resultados indicam que a técnica pode ser ainda mais poderosa, possivelmente capaz de detectar planetas menores, até mesmo com tamanho semelhante ao da Terra.

A descoberta abre caminho para uma nova fase na busca por exoplanetas. Ao revelar mundos antes invisíveis, ela mostra que o Universo pode ser ainda mais diverso do que se imaginava – e que sistemas como o de Tatooine talvez não sejam tão raros quanto parecem.

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