Farol Santander expõe mapas que contam histórias do Brasil

Com o avanço da tecnologia, os mapas ficaram cada vez mais restritos à tela do celular, quase sempre usados para guiar o caminho pelo GPS. A exposição A Invenção do Novo Mundo: Mapas da Coleção Santander, em cartaz no 24º andar do Farol Santander até 26 de julho, recupera o papel dos mapas para além da orientação, mostrando que eles também carregam histórias – inclusive a forma como um país foi imaginado ao longo do tempo.

Fui conferir a mostra em uma tarde de sábado, numa São Paulo bastante movimentada. O prédio estava cheio, com filas se formando na bilheteria e pessoas tentando conseguir horários como quem tenta comprar um show esgotado. Ainda assim, havia um certo entusiasmo no ar.

Como funciona a exposição?

Continua após a publicidade

Depois de subir até o 24º andar, fui recebida por paredes verdes e um texto que contextualizava o acervo, composto por um conjunto raro de mapas preservado pelo Santander.

Com curadoria de Helena Severo e Maria Eduarda Marques, a exposição reúne mais de 50 obras, entre cartas náuticas, planisférios e representações do território das Américas produzidas entre os séculos 16 e 18, período conhecido como a “Era de Ouro” da cartografia ocidental.

A entrada tem uma arte lindíssima!Cecília Carrilho/Arquivo pessoal

Continua após a publicidade

Atravessei então uma espécie de portal formado por cortinas estampadas com figuras que depois reaparecem nos mapas: povos originários, elementos da fauna, símbolos que misturam realidade e imaginação.

Logo adiante, uma projeção em movimento já introduz o visitante nesse universo. Os monstros marinhos, comuns nas representações do século 16, surgem como um aviso de que o que vem pela frente está relacionado à forma como o Brasil era imaginado e compreendido.

A visita começa após atravessar o portal formado por cortinas ilustradasCecília Carrilho/Arquivo pessoal

Continua após a publicidade

A expografia é dividida de modo cronológico, com cortinas, tapeçarias e projeções que quebram a lógica de uma exposição tradicional e criam um percurso mais imersivo.

Século 16

Um dos pontos mais interessantes da exposição é perceber que os mapas nunca foram neutros, eles sempre carregaram visões de mundo. A primeira parte do percurso mergulha no século 16, quando o Brasil era mais imaginado do que conhecido e ainda estava cercado de mistério. Ali, a cartografia acaba por funcionar mais como uma narrativa do que uma geografia.

Continua após a publicidade

Baseadas em referências genéricas de um território pouco conhecido, nos deparamos com representações do Brasil que misturam noções geográficas aproximadas a um universo de elementos vindos de relatos imprecisos de viajantes e de heranças de tradições medievais. É comum encontrar cenas de ritos considerados “selvagens” e representações de povos originários sob o olhar europeu.

Continua após a publicidade
Alguns mapas bastante genéricos do século 16Cecília Carrilho/Arquivo pessoal

No entanto, uma das partes mais interessantes é um dispositivo interativo que lembra um binóculo de madeira. Ao olhar por ele, surgem cenas de guerras, costumes e práticas que despertavam o estranhamento europeu, e apareciam em mapas. O recurso prende a atenção de adultos e crianças, que bisbilhotam curiosos.

Basta olhar para dentro da caixa alongada para que as imagens se revelemCecília Carrilho/Arquivo pessoal

Século 17

À medida que avançamos, os mapas começam a mudar  – e isso é visível até para quem não entende de cartografia. Eles ficam mais detalhados, mais “organizados”, e o território começa a se aproximar do que reconhecemos hoje.

Conhecemos mais do território em todos os mapasCecília Carrilho/Arquivo pessoal

Esse avanço acompanha o aumento das navegações e também as disputas entre potências europeias. A produção cartográfica se intensifica, especialmente nos Países Baixos, que se tornam um centro importante de impressão. É aqui que entram nomes como Joan Blaeu e Nicolas Sanson d’Abeville, que ajudaram a consolidar uma cartografia mais estruturada, ainda que visualmente rica.

Cartografia do século 17 reflete avanços nas navegações e no conhecimento do BrasilCecília Carrilho/Arquivo pessoal

O litoral ganha contorno, rios passam a ser identificados, cidades começam a aparecer… E bom, a presença holandesa tem um papel essencial nesse processo, algo que pude entender melhor na seção “Brasil holandês”. Durante o governo de Maurício de Nassau, artistas e cientistas produziram registros mais próximos da realidade, feitos in loco. Isso se reflete em mapas com paisagens mais reconhecíveis, detalhes da fauna e da flora e até cenas do cotidiano.

A presença europeia no Brasil impulsionou uma cartografia mais precisaCecília Carrilho/Arquivo pessoal

Essa parte da exposição é, visualmente, uma das mais interessantes. Tapeçarias e recursos expográficos ajudam a criar uma ambientação mais rica e interativa. Na parede, é possível espiar imagens dos mapas por pequenos buracos, como se estivéssemos descobrindo fragmentos escondidos.

Essa é uma das tapeçarias da seção “Brasil Holandês”Cecília Carrilho/Arquivo pessoal

Andando pela sala, era comum ouvir comentários de outros visitantes, que comparavam mapas, notavam as mudanças no tamanho dos territórios e compartilhavam curiosidades sobre nomes antigos de regiões.

Algumas das representações mais coloridas e ornamentadasCecília Carrilho/Arquivo pessoal

Século 18

No século 18, sob influência do pensamento iluminista, notamos que os mapas se tornam mais técnicos, mais sóbrios. A cartografia passa a incorporar conhecimentos científicos como astronomia e geodésia em mapas objetivos, voltados à definição de fronteiras e ao controle territorial – um reflexo das disputas geopolíticas da época.

No século 18, os mapas ganham precisão e função estratégicaCecília Carrilho/Arquivo pessoal

Um dos elementos que chama atenção é a rosa dos ventos no chão, onde crianças brincavam e se deitavam. No canto da sala, uma prancheta simula o desdobrar de um mapa, como se o papel estivesse sendo aberto diante dos nossos olhos, com uma cadeira para quem desejar assistir sentado.

Momento de sentar e entender a configuração geográfica do nosso paísCecília Carrilho/Arquivo pessoal

Quem planeja visitar, vá sem nenhuma pressa e com tempo para saborear cada detalhe. Os detalhes são muitos – e, em alguns casos, minúsculos – então vale caminhar devagar enquanto observa, voltando quando algo chama atenção.

Como chegar ao Farol Santander

O Farol Santander está a 200 metros da estação São Bento do metrô (Linha 1-Azul), que é a forma mais prática de chegar. Atualmente, a rua em frente à entrada está em obras.

A região também é bem atendida por linhas de ônibus nas proximidades. Para quem vai de táxi ou carro de aplicativo, é comum que o motorista deixe o passageiro na rua Boa Vista, esquina com a João Brícola. Os ingressos podem ser comprados pelo site oficial ou na bilheteria do térreo, mas, como a visita está sujeita à lotação, o ideal é garantir a entrada com antecedência.

Serviço

A Invenção do Novo Mundo: Mapas da Coleção Santander

Onde? 24º andar do Farol Santander – Rua João Brícola, 24, Centro.

Quando? Até 26 de julho; de terça a domingo, das 9h às 20h.

Quanto? R$ 45 (inteira) e R$ 22,50 (meia-entrada).

7 unidades do Sesc para curtir com crianças em São Paulo

Newsletter

Cadastro efetuado com sucesso!

Você receberá nossas newsletters em breve!

Clique aqui para entrar em nosso canal no WhatsApp

Resolva sua viagem aqui

Reserve hospedagem no Booking

Reserve seu voo

Reserve hospedagem no Airbnb

Ache um passeio na Civitatis

Alugue um carro

Publicidade