O mês de maio traz uma campanha essencial para a saúde digestiva: o Maio Roxo, dedicado à conscientização sobre as doenças inflamatórias intestinais (DII). E, como médico que acompanha de perto essa realidade no consultório e no centro cirúrgico, posso afirmar: estamos diante de um problema crescente — e ainda subdiagnosticado.
Hoje, mais de 100 mil brasileiros convivem com doenças como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, segundo a Sociedade Brasileira de Coloproctologia. Mais preocupante ainda é o aumento de 61% nas internações por essas condições nos últimos dez anos, de acordo com o Ministério da Saúde. Esse crescimento não é por acaso — ele reflete mudanças no estilo de vida moderno, na alimentação e, principalmente, nos níveis elevados de estresse a que estamos expostos.
O grande desafio dessas doenças é justamente o início silencioso. Muitos pacientes passam meses — às vezes anos — convivendo com sintomas que consideram “normais”, até que o quadro se agrava.
Quando o intestino começa a dar sinais
O intestino fala. E ele fala cedo.
Sintomas como inchaço abdominal, dor recorrente, alterações no ritmo intestinal, presença de sangue nas fezes e fadiga persistente não devem ser ignorados. Esses sinais podem indicar o início de uma inflamação intestinal crônica que, sem tratamento adequado, evolui e compromete significativamente a qualidade de vida.
Entre as principais doenças inflamatórias intestinais, destaco duas:
Doença de Crohn: inflamação que pode atingir todo o sistema digestivo
A doença de Crohn é uma condição inflamatória crônica que pode afetar qualquer parte do trato digestivo — da boca ao ânus — sendo mais comum no intestino delgado e no início do intestino grosso.
Na prática clínica, observo pacientes que chegam com dor abdominal persistente, especialmente do lado direito, diarreia crônica (nem sempre com sangue), perda de peso e uma fadiga que impacta profundamente a rotina. Em casos mais avançados, podem surgir fístulas e lesões na região anal.
Embora não tenha cura, a doença de Crohn pode ser controlada. O tratamento envolve medicamentos anti-inflamatórios, imunossupressores e, em muitos casos, terapias biológicas modernas, que têm revolucionado o controle da inflamação. A cirurgia entra como opção quando há complicações, como obstruções ou falha do tratamento clínico.
O objetivo é claro: induzir e manter a remissão da doença.
Retocolite ulcerativa: inflamação contínua do intestino grosso
Diferente da doença de Crohn, a retocolite ulcerativa acomete exclusivamente o intestino grosso — o cólon e o reto — e se caracteriza por uma inflamação contínua da mucosa intestinal.
Os sintomas costumam ser mais evidentes: diarreia com sangue e muco, urgência para evacuar, sensação de evacuação incompleta, dor abdominal difusa, anemia e cansaço.
O tratamento varia de acordo com a gravidade, podendo incluir anti-inflamatórios intestinais, corticoides nas fases agudas, imunossupressores e terapias biológicas. Em casos mais graves ou refratários, a cirurgia pode ser necessária — e, nesses casos, pode representar a cura ao remover o cólon.
O erro mais comum: normalizar o que não é normal
Um dos maiores problemas que observo é a banalização dos sintomas intestinais. Muitas pessoas convivem com estufamento, gases, cólicas, alterações frequentes no intestino, perda de apetite ou até sangue nas fezes e não procuram ajuda médica.
Isso atrasa o diagnóstico e permite a progressão da doença.
Qualquer mudança persistente no hábito intestinal precisa ser investigada. O diagnóstico precoce faz toda a diferença no controle da inflamação, na prevenção de complicações e na preservação da qualidade de vida.
O intestino é um dos órgãos mais sensíveis do nosso corpo — e também um dos mais negligenciados.
Se há algo que o Maio Roxo nos ensina, é que informação salva. Reconhecer os sinais, buscar avaliação médica e iniciar o tratamento no momento certo pode transformar completamente a trajetória dessas doenças.
Dr Rodrigo Barbosa, cirurgião digestivo sub-especializado em cirurgia bariátrica e coloproctologia do corpo clínico dos hospitais Sírio Libanês e Nove de Julho. Sou também CEO do Instituto Medicina em Foco



