Recentemente, o pesquisador José A. Seoane e sua equipe, do Vall d’Hebron Institute of Oncology, publicaram um estudo que sugere uma nova possível causa para o aumento de casos de câncer colorretal em adultos com menos de 50 anos. A pesquisa, divulgada na revista Nature, aponta a exposição a pesticidas e herbicidas como um fator de risco. Você pode ler o estudo clicando aqui.
Isso porque os dados indicam que determinados herbicidas, como o picloram, estão consistentemente associados à ocorrência da doença em pessoas jovens. Outros dados também favorecem o surgimento da enfermidade, como tabagismo e o tipo de dieta.
Para conduzir esse estudo, os cientistas examinaram tanto os dados genéticos dos pacientes quanto do ambiente onde viviam. A pesquisa combinou essas duas frentes de análise e encontrou evidências de que fatores ligados ao exposoma — ou seja, ao conjunto de exposições ao longo da vida — podem desempenhar um papel central no desenvolvimento do câncer colorretal de início precoce.
Para quem tem pressa:
Pesquisadores do Vall d’Hebron Institute of Oncology identificaram que a exposição ambiental a herbicidas com picloram (dentre outras) possuem uma associação à alta incidência de câncer colorretal;
Fatores como dieta e tabagismo também foram confirmados como fatores de risco;
A pesquisa não confirma que a exposição ao químico por meio da alimentação tem o mesmo efeito.
Casos em jovens aumentam e levantam novas hipóteses sobre causas do câncer colorretal
O câncer colorretal está entre os três tipos mais comuns no mundo e ocupa a segunda posição entre as principais causas de morte por câncer, de acordo com a pesquisa. Embora seja historicamente associado ao envelhecimento — com cerca de 90% dos diagnósticos ocorrendo após os 50 anos —, dados recentes indicam uma mudança nesse padrão.
Nos últimos anos, registros epidemiológicos mostram um crescimento desproporcional da doença entre adultos jovens, geralmente definidos como aqueles diagnosticados antes dos 50 anos. Além do aumento na incidência, esse grupo tende a apresentar quadros mais graves, com maior frequência de metástases já no momento do diagnóstico e tumores menos diferenciados.
Herbicida é associado a casos de câncer precoce em diferentes análises
Um dos principais resultados do estudo é a associação entre o câncer colorretal de início precoce e o herbicida picloram, substância usada em larga escala desde a década de 1960.
A pesquisa observou que pacientes diagnosticados em idades mais jovens apresentavam, em média, maior exposição ao composto quando comparados a pacientes mais velhos. Essa relação apareceu de forma consistente em diferentes etapas da análise, incluindo uma meta-análise que reuniu nove grupos independentes de pacientes.
O padrão também foi verificado em uma análise populacional extensa, com dados de 94 condados dos Estados Unidos acompanhados ao longo de mais de duas décadas. Mesmo após ajustes — para considerar condições socioeconômicas e uso de outros pesticidas —, a associação permaneceu significativa.
Em entrevista ao site G1, o pesquisador José A. Seoane disse o seguinte:
Observamos que os tumores com alta exposição ao pesticida apresentavam menos mutações no gene APC, um gene fundamental no câncer colorretal que regula a via Wnt, relacionada ao crescimento celular. Isso sugere que a exposição ao picloram pode promover o desenvolvimento do câncer mesmo sem mutações no gene APC.
— José A. Seoane, líder do grupo de Biologia Computacional do Câncer no Vall d’Hebron Institute of Oncology
O pesquisador também destaca que, por se tratar de um padrão geográfico, a hipótese mais provável é que a exposição ocorra principalmente em áreas de uso do pesticida, e não necessariamente por meio da alimentação.
Apesar dos resultados, os autores reforçam que ainda são necessárias novas pesquisas para confirmar a relação entre o picloram e o surgimento precoce da doença.
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Exposição ambiental e outros fatores são investigados como parte do risco
Para entender melhor o papel do ambiente no desenvolvimento da doença, os cientistas analisaram um conjunto de 29 fatores ligados ao exposoma, que inclui desde hábitos de vida até contato com substâncias químicas e poluição.
Como nem sempre existem dados diretos sobre níveis de exposição, o estudo utilizou marcadores epigenéticos — alterações químicas no DNA que funcionam como registros indiretos de influências ambientais ao longo da vida.
Os resultados indicaram que padrões epigenéticos associados a pesticidas estavam mais presentes em casos de câncer diagnosticados precocemente, o que sugere uma possível contribuição de exposições acumuladas desde fases iniciais da vida.
Na comparação entre tumores de início precoce e aqueles diagnosticados após os 70 anos, foram observadas diferenças principalmente relacionadas a três fatores: dieta, tabagismo e exposição ao picloram.
De acordo com Seoane, as análises foram feitas em tecidos tumorais de pacientes da população em geral, sem dados específicos sobre ocupação, o que reduz a possibilidade de que a amostra esteja concentrada em grupos profissionais específicos, como trabalhadores agrícolas.
Fatores conhecidos de risco também aparecem no estudo
Além da análise sobre pesticidas, o estudo reforça a influência de fatores já amplamente associados ao câncer colorretal. Entre eles, o tabagismo se destaca: pessoas com maior exposição ao cigarro apresentaram maior ocorrência da doença em idades mais jovens.
A alimentação também mostrou relação com o risco. Padrões dietéticos menos saudáveis estiveram mais presentes entre os casos de câncer precoce, enquanto hábitos alimentares considerados mais equilibrados, como os próximos da dieta mediterrânea, apareceram associados a uma menor probabilidade de desenvolvimento da doença.
Outro ponto observado foi o nível educacional. Pacientes mais jovens com câncer colorretal apareceram com maior frequência em grupos de menor escolaridade, enquanto níveis educacionais mais altos foram associados a um risco reduzido.
Alterações biológicas nos tumores sugerem impacto de substâncias ambientais
A pesquisa também encontrou diferenças no perfil molecular dos tumores em pacientes com maior exposição ao picloram. Essas alterações envolvem genes e vias biológicas relacionadas ao controle do crescimento celular, indicando que a substância pode estar associada a mudanças no desenvolvimento do tumor.
Segundo os pesquisadores, esse padrão sugere uma possível influência biológica do pesticida no processo da doença. No entanto, eles ressaltam que ainda não é possível afirmar como esse efeito ocorre nem estabelecer uma relação direta de causa.
Outros pesticidas aparecem na análise, mas com menor consistência
Além do picloram, o estudo também identificou associações com outros pesticidas amplamente utilizados, como glifosato, atrazina, nicosulfuron e esfenvalerato.
Apesar disso, o picloram foi o composto que apresentou resultados mais consistentes ao longo das diferentes análises realizadas pelos pesquisadores, mantendo a associação de forma mais estável em comparação aos demais.
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