No Brasil, o ensino de astronomia ainda enfrenta um desafio curioso: a maioria dos materiais didáticos utiliza exemplos e referências mais associados às regiões temperadas do Hemisfério Norte. Essa abordagem pode dificultar a identificação dos alunos com os fenômenos observados localmente, já que a posição do Sol e a percepção das estações variam conforme a localização no globo.
Um exemplo claro dessa desconexão é a forma como as estações do ano são ensinadas. É comum encontrar livros que associam o inverno à neve e o outono a folhas secas caindo das árvores – imagens que não refletem a realidade da maior parte do território brasileiro. Quando o que se estuda no papel não bate com o que se vê pela janela, o aprendizado se torna abstrato, dificultando a compreensão de como o clima e a ciência se conectam na prática.
“Astronomia Tropical”
Para resolver esse problema, é fundamental “tropicalizar” o ensino. Em vez de importar cenários de outros países, os professores podem usar o próprio céu brasileiro como laboratório. Ao observar os fenômenos que acontecem “acima de nossas cabeças”, o conteúdo passa a fazer sentido dentro da experiência vivida pelo estudante.
Nesse novo modelo, dois conceitos se tornam ferramentas essenciais para explicar as estações:
Zênite Solar: momento em que o Sol fica exatamente no ponto mais alto do céu, sobre a vertical do observador. Na maior parte do Brasil, isso ocorre em datas específicas e ajuda a entender como a luz solar atinge a Terra de forma mais direta nos trópicos;
Analema: desenho (semelhante a um número “8”) que o Sol faz no céu quando fotografado na mesma hora ao longo de um ano inteiro. Ele mostra visualmente como o Sol “sobe e desce” no horizonte, provando a inclinação da Terra e a mudança das estações de forma concreta.
Ao integrar esses elementos, o ensino deixa de ser uma teoria distante e se transforma em uma explicação real sobre o mundo que os alunos habitam, tornando a astronomia muito mais acessível e fascinante.
Esse é o tema do programa Olhar Espacial desta sexta-feira (8), que recebe o professor Luiz Sampaio Athayde Júnior. Autor de uma pesquisa que investiga o ensino dos movimentos da Terra e das estações do ano, ele argumenta que os modelos pedagógicos tradicionais são baseados em regiões temperadas do Hemisfério Norte, o que distorce a compreensão das condições tropicais do Brasil. Como solução, propõe a “Astronomia Tropical”, uma abordagem que utiliza fenômenos como o zênite solar e o analema para oferecer uma contextualização mais precisa à realidade local.
O convidado desta sexta-feira (8) do programa Olhar Espacial é o professor Luiz Sampaio Athayde Júnior – Crédito: Arquivo Pessoal
Baiano natural de Feira de Santana, Athayde possui mestrado em Ensino de Astronomia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e especialização em Astronomia para Docentes do Ensino Médio pela Universidade de São Paulo (USP). Com uma trajetória acadêmica diversa, é graduado em Ciências Contábeis, Administração, Matemática e Física. Atualmente, leciona na Educação Básica e no Ensino Superior pelo Centro Universitário (UNIRB), onde atua nos cursos de Engenharia, Administração e Contabilidade.
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Como assistir ao Programa Olhar Espacial
Apresentado por Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia – APA; membro da SAB – Sociedade Astronômica Brasileira; diretor técnico da Bramon e coordenador nacional do Asteroid Day Brasil, o programa é transmitido ao vivo, todas às sextas-feiras, às 21h (horário de Brasília), pelos canais oficiais do veículo no YouTube, Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), LinkedIn e TikTok.
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