Hantavírus: sobreviventes relatam experiência de “inferno na Terra” durante internação

Relatos de sobreviventes do hantavírus ajudam a dimensionar a gravidade da doença, que voltou aos holofotes após um surto associado ao navio de cruzeiro MV Hondius. Até agora, três passageiros morreram depois da viagem que partiu da Argentina rumo ao Oceano Atlântico, enquanto outros pacientes seguem em tratamento na Holanda.

Entre eles estaria o ex-policial britânico Martin Anstee, de 56 anos, apontado pela imprensa local como um dos evacuados da embarcação. Segundo sua esposa, Nicola, os últimos dias foram “muito dramáticos”, marcados por momentos de “altos e baixos”.

A Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA) informou que dois britânicos permanecem isolados em casa após a possível exposição ao vírus. O MV Hondius segue viagem em direção às Ilhas Canárias.

Embora pouco conhecido, o hantavírus pode provocar quadros graves, com algumas variantes apresentando taxas de mortalidade entre 20% e 40%. A infecção é causada por uma família de vírus transmitidos principalmente por roedores, normalmente por meio da inalação de partículas presentes em fezes e urina ressecadas.

Surto aconteceu no cruzeiro MV Hondius, que agora viaja rumo às Ilhas Canárias – Imagem: Divulgação/Antarctica Cruises

Pacientes deram detalhes sobre experiência do hantavírus

Um dos pacientes que já contraiu o vírus foi o canadense Lorne Warburton, que deu detalhes sobre a experiência em entrevista à BBC. Em março de 2023, ele começou a apresentar sintomas que inicialmente pareciam covid-19: dores no corpo, fadiga intensa e fortes dores de cabeça. Em pouco tempo, passou a ter dificuldades severas para respirar.

O quadro piorou rapidamente até que ele precisou ser internado e conectado a aparelhos de suporte à vida. O diagnóstico de hantavírus veio já no hospital, onde permaneceu cerca de três semanas. “O nível de doença e enfermidade pelo qual passei foi um inferno na Terra. Foi uma tortura passar por tudo isso e conseguir me recuperar”, afirmou.

Lorne acredita ter sido contaminado após sacudir um tapete guardado no sótão de casa, onde havia fezes de camundongos.

Na Alemanha, Christian Ege viveu uma experiência semelhante em 2019. Ele começou com sintomas parecidos com uma virose gastrointestinal, incluindo vômitos, tontura e o que descreveu como uma “gripe estranha”. Após exames de sangue, acabou encaminhado ao hospital, onde desenvolveu insuficiência renal e sepse. Ele ficou dias internado na UTI e precisou passar por diálise.

“Os rins acabaram se recuperando normalmente, mas a coincidência de uma escalada bacteriana e viral ao mesmo tempo foi, sem dúvida, algo bastante preocupante por alguns dias”, disse.

Christian contou que um biólogo contratado pelas autoridades encontrou vestígios do vírus em seu jardim pouco depois da infecção. Dias antes, seu filho havia encontrado um camundongo morto no local.

Transmissão está associada a comundongos infectados – Imagem: 22August/Shutterstock

Hantavírus não tem vacina

Atualmente, não existe vacina amplamente disponível nem tratamento antiviral específico para hantavírus. O atendimento é baseado em suporte hospitalar, incluindo assistência respiratória e controle dos sintomas.

A recuperação também costuma ser lenta. Lorne afirma que levou cerca de um ano e meio para recuperar a força física após deixar o hospital. Além das sequelas físicas, ele desenvolveu fibrilação atrial e hoje precisa tomar medicamentos para controlar o ritmo cardíaco. “Meu coração não está sincronizando, as câmaras não estão sincronizando corretamente”, explicou.

Christian afirma ter conseguido se recuperar completamente após quatro meses, embora descreva o processo como mais desgastante do que imaginava. Mesmo após a recuperação, ambos dizem ter mudado a forma de enxergar a vida.

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