Você pode carregar até 4% de DNA neandertal — e isso pode afetar sua defesa contra vírus

Pessoas de populações não africanas carregam atualmente entre 2% e 4% de DNA neandertal, herança genética resultante do cruzamento entre humanos modernos e neandertais há dezenas de milhares de anos. Embora pesquisas anteriores tenham mostrado que parte desse material genético pode trazer vantagens ao sistema imunológico, um novo estudo sugere que alguns desses genes podem ter o efeito oposto quando o assunto são determinados vírus.

A pesquisa, publicada na revista Genome Biology and Evolution, analisou como variantes genéticas herdadas dos neandertais influenciam a resposta do organismo a vírus de DNA. Os resultados indicam que essas variantes estão associadas a cargas virais mais elevadas em diferentes infecções persistentes, o que pode sinalizar uma menor capacidade do sistema imunológico de controlar a replicação desses agentes infecciosos.

Variantes genéticas herdadas dos neandertais influenciam a resposta do organismo a vírus de DNA (Imagem: 3Dsss / Shutterstock) – Imagem: 3Dsss / Shutterstock

O que os pesquisadores investigaram

Estudos anteriores já haviam identificado que alelos de origem neandertal, ou seja, variantes genéticas herdadas desses ancestrais extintos, podem fortalecer a defesa contra vírus de RNA. Esses vírus costumam provocar infecções agudas e localizadas.

Os vírus de DNA, por outro lado, frequentemente permanecem no organismo por longos períodos e podem provocar efeitos tardios, sistêmicos e crônicos. Para entender se a herança genética neandertal influencia a resposta a esse grupo de patógenos, os pesquisadores recorreram aos dados registrados no UK Biobank.

A equipe analisou a relação entre variantes genéticas arcaicas e a carga viral de cinco vírus de DNA: o vírus Epstein-Barr, o Herpesvírus Humano 7 e três vírus do grupo torque teno vírus.

Segundo os autores, todos esses vírus podem permanecer por muitos anos no organismo sem causar sintomas. Ainda assim, a carga viral é considerada um indicador relevante da capacidade do sistema imunológico de impedir a multiplicação desses microrganismos.

DNA neandertal foi associado a cargas virais maiores

De forma geral, os pesquisadores identificaram uma correlação entre a presença de DNA neandertal e níveis mais altos de carga viral para os cinco vírus analisados.

Ao aprofundar a investigação, a equipe encontrou 18 regiões genéticas distintas nas quais os alelos herdados dos neandertais apresentaram associação particularmente forte com o aumento da carga viral.

A maior parte dessas regiões foi localizada dentro do Complexo Principal de Histocompatibilidade (MHC), conjunto de genes responsável pela produção de proteínas presentes na superfície celular que auxiliam o sistema imunológico a identificar e eliminar células infectadas.

Além disso, dois outros agrupamentos de variantes neandertais foram encontrados no cromossomo 17. Os pesquisadores também identificaram um haplótipo de origem denisovana dentro do MHC associado ao aumento da carga viral.

“Nossos resultados sugerem que variantes derivadas dos neandertais podem não fornecer uma defesa eficaz contra vários vírus de DNA nas pessoas atuais”, afirmou o coautor do estudo, Michael Dannemann, professor associado de genômica evolutiva, em comunicado.

Possível explicação está na evolução dos neandertais

Os autores sugerem que os neandertais estavam adaptados para enfrentar vírus que circulavam durante o período Paleolítico, possivelmente muito diferentes dos encontrados atualmente.

Nesse cenário, variantes genéticas que ofereciam vantagens contra patógenos antigos podem não ser tão eficientes diante dos vírus modernos.

Os pesquisadores destacam ainda que os efeitos observados sobre a carga viral de vírus de DNA hoje não necessariamente refletem o que ocorria entre os próprios neandertais, já que diferentes cepas virais circulavam naquela época.

Com base nos resultados, a equipe levanta a hipótese de que os sistemas imunológicos dos neandertais poderiam ser mais especializados no combate a infecções agudas, frequentemente associadas a vírus de RNA, do que a infecções crônicas provocadas por vírus de DNA.

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