Como a IA e satélites podem ajudar a proteger os oceanos

A combinação entre inteligência artificial e observação por satélite está no centro de uma iniciativa da União Europeia voltada ao monitoramento dos oceanos. Apresentado pelas instituições europeias e incorporado recentemente a um plano para ampliar a vigilância marítima, o projeto pretende fornecer informações detalhadas para pesquisadores e gestores públicos.

A ferramenta, chamada European Digital Twin Ocean, reúne dados sobre diferentes condições oceânicas e permite simular cenários futuros. A proposta surge em um contexto de preocupação crescente com a elevação do nível do mar, o aquecimento das águas e a redução do gelo marinho no Ártico.

O sistema utiliza modelos digitais alimentados por informações coletadas em diversas regiões do planeta. Com isso, busca ampliar a compreensão sobre transformações ambientais e oferecer suporte a decisões relacionadas à conservação e ao uso sustentável dos recursos marinhos.

Réplica digital amplia capacidade de análise dos oceanos

A iniciativa tem como principal produto o European Digital Twin Ocean, conhecido pela sigla EDITO. A plataforma funciona como uma representação digital do ambiente marinho e pode ser acessada gratuitamente pela internet. Seu desenvolvimento é conduzido pela organização francesa Mercator Ocean International em parceria com o Flanders Marine Institute.

A estrutura reúne informações sobre diferentes aspectos dos oceanos, incluindo temperatura, salinidade, correntes marítimas, ondas e características biológicas. O objetivo é oferecer uma visão integrada do ambiente marinho por meio de mapas interativos e bases de dados consolidadas.

Em entrevista à Euronews, Alain Arnaud, diretor do programa de oceano digital da Mercator Ocean International, explicou que a plataforma opera com elevado nível de detalhamento e incorpora múltiplos indicadores sobre as condições dos mares. “É um modelo de altíssima resolução que reúne informações sobre o estado do oceano“, informou.

Um dos diferenciais do sistema é a possibilidade de projetar cenários hipotéticos. A ferramenta permite avaliar, por exemplo, como alterações na temperatura da água podem afetar populações de peixes ou de que forma determinadas áreas cobertas por vegetação marinha poderiam influenciar processos erosivos.

Consoante Arnaud, esse tipo de simulação é viabilizado por modelos apoiados em inteligência artificial, capazes de modificar condições iniciais utilizadas nos cálculos e gerar diferentes projeções sobre o comportamento do ambiente oceânico.

Mudanças no oceano ampliam intervalo de desova da tartaruga-comum em Cabo Verde -(Créditos: depositphotos.com / Keola)

Além dos recursos de análise, a plataforma passou a contar com um chatbot baseado em inteligência artificial para responder a dúvidas relacionadas aos oceanos. A ferramenta foi apresentada ao público durante a Digital Ocean Week, realizada em Bruxelas.

O avanço acelerado da tecnologia também é acompanhado pela equipe responsável pelo projeto. Ao comentar a evolução da inteligência artificial, Arnaud ressaltou a necessidade de adaptação diante da velocidade das mudanças. “Ela está avançando tão rapidamente que chega a ser assustador, mas precisamos estar preparados para nos adaptar.”

Os dados que alimentam o sistema têm origem principalmente de satélites europeus vinculados ao programa Copernicus, componente de observação da Terra da União Europeia. O projeto também pode incorporar informações obtidas por meio de cooperação internacional com outros países.

Segundo os responsáveis pela iniciativa, os satélites fornecem um panorama amplo das condições da superfície oceânica, enquanto embarcações distribuídas pelo mundo complementam o monitoramento com medições realizadas diretamente no ambiente marinho.

A incorporação do EDITO ao plano OceanEye, anunciada no início de junho, amplia a participação da plataforma nas estratégias europeias de observação dos oceanos. A expectativa é que o sistema alcance plena operação até 2030 e fortaleça não apenas a produção de conhecimento científico, mas também aplicações relacionadas à segurança marítima.

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