Por Marina Travassos, especialista em inteligência cultural e neurociência
Assim como muitas pessoas acometidas pela crise da meia-idade, eu sou aquela amiga que começou a correr nos últimos anos e entrou de cabeça na onda da corrida. Mas esse texto não é exatamente sobre corrida.
A questão é que eu não consigo correr no silêncio. Porque correr é duro, né gente? A gente sua, o coração dispara, falta ar, as pernas pedem para parar. Se não tiver uma musiquinha animando minimamente a situação, não tem condição.
No entanto, eu comecei a perceber uma coisa estranha nas minhas playlists de corrida: elas estão ficando insuportavelmente repetitivas. No começo parecia ótimo. O algoritmo entendia exatamente o que me dava energia, me entregava músicas no ritmo certo, montava playlists praticamente sob medida para mim. Mas, depois de um tempo, comecei a sentir um leve sufocamento musical porque me peguei presa num circuito extremamente pequeno de referências. No final, são sempre as mesmas músicas, os mesmos estilos e sensações cuidadosamente organizados para mim.
E é aqui que o texto começa de verdade. Porque essa é uma das maiores marcas da vida contemporânea: estamos cada vez mais presos dentro da própria bolha algorítmica. As músicas que eu escuto não são exatamente as mesmas que você escuta. As notícias que aparecem para mim talvez nunca apareçam para você. Os memes chegam em tempos diferentes. As tendências mudam dependendo do nicho de internet que cada um habita. Até a nossa percepção de realidade começa, aos poucos, a ser distribuída de forma individualizada.
O algoritmo…
A lógica algorítmica transformou a cultura numa experiência profundamente individual e essa personalização ficou tão sofisticada que até a ideia de experiência coletiva começou a se dissolver. Olhando um pouco para o passado, durante muito tempo, a cultura funcionou através de grandes referências compartilhadas. Quase todo mundo assistia às mesmas novelas, ouvia as mesmas músicas, acompanhava os mesmos programas de televisão. Existia uma espécie de imaginário coletivo minimamente sincronizado.
Hoje, o streaming desmontou horários coletivos, as redes sociais fragmentaram referências culturais e a lógica do feed transformou atenção em microexperiências individuais cuidadosamente distribuídas para cada usuário.
São tempos (difíceis) de hiperindividualização (para os seres sociáveis).
Mas esse ano de 2026, teremos a oportunidade de viver um evento que interrompe um pouco essa lógica individualizada do algoritmo, um momento que faz todo mundo parar e olhar para o mesmo lugar: A Copa do Mundo.
De repente, milhões de pessoas estão olhando para o mesmo lugar ao mesmo tempo. As empresas param. O bar lota. Gente buzina na rua. Desconhecidos se abraçam. O assunto vira um só. Até quem normalmente não acompanha futebol acaba orbitando aquela atmosfera compartilhada.
Existe algo muito ancestral em tudo isso.
Se olharmos pela perspectiva evolucionista, sobreviver sempre dependeu da nossa capacidade de viver em grupo. Nenhum ser humano sozinho é mais forte que um leão. Nossa sobrevivência aconteceu justamente porque aprendemos a cooperar, sincronizar comportamento e compartilhar atenção. O isolamento sempre foi uma das formas mais dolorosas de punição para seres humanos. Não por acaso, até hoje o confinamento solitário é visto como uma das punições mais severas dentro dos sistemas prisionais.
Mas voltemos à Copa…
Experiências coletivas produzem intensidade emocional porque ativam justamente essa nossa dimensão social que é tão primitiva e instintiva. E, num mundo em que quase tudo foi individualizado, viver algo simultâneo com milhões de outras pessoas virou quase um luxo emocional. A Copa devolve temporariamente a sensação de fazer parte de uma mesma narrativa.
Como se, por alguns momentos, o mundo voltasse a funcionar em uníssono.
Claro que isso não resolve todas as fraturas do mundo real. Nem transforma magicamente sociedades polarizadas em comunidades harmônicas. Mas ajuda a entender por que a Copa continua mobilizando tanta emoção mesmo em pessoas que nem acompanham futebol regularmente.
A força da Copa talvez esteja justamente nessa capacidade de interromper um mundo cada vez mais fragmentado. Enquanto o algoritmo passa o ano inteiro tentando descobrir qual é a música perfeita para cada pessoa, a Copa ainda consegue fazer milhões de pessoas cantarem a mesma canção ao mesmo tempo.
O post Copa do Mundo pode ser última experiência coletiva – e a culpa é dos algoritmos apareceu primeiro em Olhar Digital.





