A Anthropic lançou, na terça-feira (09), o Claude Fable 5. Você talvez tenha lido aqui no Olhar Digital que essa nova inteligência artificial (IA) reduz dois meses de trabalho a um dia. Pois bem. Lembra do Mythos? Aquele modelo de IA que a sua desenvolvedora, a Anthropic, considerou “perigoso demais” para ser lançado ao público. O Fable é o Mythos “na coleira”.
É o que explicou Roberto “Pena” Spinelli, físico pela USP, com especialidade em Machine Learning pela Universidade de Stanford, e também colunista do Olhar Digital. “Eles perceberam que esse modelo [o Mythos] ainda é muito poderoso. Então, eles colocaram o modelo na coleira”, disse o pesquisador.
“Fizeram um ajuste tão pesado que é o seguinte: toda vez que algum usuário quiser falar de cibersegurança com você [o modelo Fable], você não responde”, explicou Pena. O que acontece é: se você tentar conversar sobre segurança cibernética com o Fable, ele sai de cena, e você passa a conversar com outro modelo da Anthropic, o Opus. Este também é avançado, só que faz parte da geração passada de IA da empresa.
Preocupada com capacidade do Mythos, Anthropic trancou a IA a sete chaves
Para você entender essa história toda, precisamos recapitular o contexto. A Anthropic desenvolveu um modelo de IA capaz de revolucionar a cibersegurança. Mas, ao anunciá-lo, em 7 de abril de 2026, tomou uma decisão incomum: trancou o modelo a sete chaves. E distribuiu as chaves para algumas empresas.
Por quê? Segundo a empresa, o modelo, chamado de Claude Mythos Preview, seria “perigoso demais” para cair nas mãos do público geral. “As consequências – para as economias, a segurança pública e a segurança nacional – podem ser graves”, declarou a empresa na época.
O Mythos é o modelo de IA mais avançado já desenvolvido pela empresa de Dario Amodei até o momento. Ele foi anunciado junto ao Projeto Glasswing, iniciativa liderada pela Anthropic em parceria com big techs como Apple, Google, Microsoft e Nvidia. Em suma, é um consórcio criado para testar o modelo em sigilo.
O forte do Mythos é programação. Ele funciona de maneira semelhante a um engenheiro de software experiente, sendo capaz de detectar bugs sutis, corrigir as próprias falhas e superar a maior parte dos humanos na identificação de brechas de sistemas.
Fabrício Carraro, Program Manager na Alura e colunista do Olhar Digital, explorou o System Card publicado pela empresa. É um documento de 245 páginas no qual a Anthropic detalha seus testes e benchmarks.
“Nos benchmarks de programação, ele [o Mythos] realmente mostrou uma evolução muito, muito grande em comparação ao seu antecessor, o Opus 4.6”, disse Carraro, em entrevista ao Olhar Digital.
O motivo para a Anthropic não liberar o modelo para o público geral é o seu potencial de uso duplo. Isto é, ele poder servir tanto para a proteção de infraestruturas quanto para a execução de ataques cibernéticos.
Testes do Instituto de Segurança de IA do Reino Unido, por exemplo, comprovaram que o Mythos realizou hacking avançado em 73% das tentativas e cumpriu com sucesso uma simulação de ataque de 32 etapas, enquanto relatórios da própria Anthropic revelaram que a IA conseguiu escapar de um ambiente de teste controlado (você pode mergulhar no “Mythos proibido” nessa reportagem especial do Olhar Digital).
Claude Fable 5 é o Mythos ‘na coleira’
Num primeiro momento, a Anthropic anunciou que manteria o Mythos trancado a sete chaves. Mas, de lá para cá, trabalhou em outra alternativa: colocar o modelo “na coleira”, como disse Pena.
“A ideia foi evitar que qualquer usuário possa fazer algum uso maligno. Eu não sei se isso é o suficiente para garantir. Mas eles tentaram. Colocaram na coleira. E aí, eles deram outro nome: Fable. Ou seja, fábula – que seria um, digamos, mito menor”, explicou o pesquisador.
Esse Claude Fable 5 (que também tem system card) é bom mesmo? Segundo Pena, sim. Principalmente para programação (o forte do Mythos, lembra?). “Quando a gente vê os testes de programação, ele vai 10%, 15%, 20% acima dos concorrentes. Normalmente, quando lançam modelos, a diferença fica por volta de 5%, 8%, 10%. Dessa vez, estamos observando saltos muito grandes”, afirmou Pena. “É realmente outro nível.”
A diferença entre o Claude Mythos Preview e o Claude Fable 5 é que o segundo chegou ao público geral. E usuários (pesquisadores, desenvolvedores, programadores) não curtiram muito as restrições.
Usuários relatam que o sistema passou a bloquear temas inofensivos relacionados a biologia e matemática, por exemplo. Não demorou para circularem acusações de que a Anthropic estaria centralizando o controle e dificultando a avaliação independente da tecnologia.
You’re not even allowed to ask Fable about basic biology questions, let alone anything that could potentially be dangerous. pic.twitter.com/FOlGpPJqsB
— Crémieux (@cremieuxrecueil) June 9, 2026
Em resposta ao descontentamento com as restrições (invisíveis, diga-se), a Anthropic pediu desculpas pelo erro de equilíbrio e anunciou que tornará os avisos visíveis. A companhia também prometeu liberar o acesso ao modelo sem essas salvaguardas para a comunidade científica e biomédica.
É mais um episódio que reforça o dilema da Anthropic em equilibrar seus interesses comerciais com suas metas de segurança, que fazem parte do seu posicionamento no mercado. Isso enquanto a empresa está numa corrida acirrada contra a OpenAI por clientes e investidores antes de uma possível abertura de capital (IPO) na Bolsa de Valores.
Enquanto executivos do setor defendem regulações globais, críticos argumentam que os alertas de perigo e os bloqueios excessivos funcionam como marketing corporativo e barreira para sufocar concorrentes de código aberto. E aí, o debate sobre quem deve controlar os limites da IA esquenta ainda mais.
“Agora, a dúvida que fica é: será que esse Fable está realmente seguro? Será que a galera não vai descobrir um jeito de fazer um jailbreak e começar a usar de um jeito ruim?”, questionou Pena. “Será que essa coleira é realmente resistente? Isso a gente vai ter que esperar para ver.”
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