A SpaceX, empresa fundada por Elon Musk, define nesta quinta-feira (11) o preço de suas ações para a estreia na Nasdaq, nos Estados Unidos. A operação pode se tornar a maior abertura de capital já registrada no mercado americano caso as projeções de avaliação e captação financeira sejam confirmadas.
A companhia busca convencer investidores de que seu futuro não está restrito ao transporte espacial. A estratégia apresentada ao mercado associa telecomunicações, contratos governamentais, inteligência artificial e infraestrutura tecnológica de grande escala como pilares de expansão.
Se as expectativas forem mantidas, a empresa poderá alcançar valor de mercado próximo de US$ 1,75 trilhão, posicionando-se entre os grupos empresariais mais valiosos dos Estados Unidos e ampliando sua influência em diferentes setores da economia digital.
Em verdade, este valor seria maior do que todos os IPOs realizados na bolsa de valores estadunidense. Mesmo as principais referências da indústria aeroespacial operam em outro patamar de valuation. Atualmente, a Boeing vale cerca de US$ 170 bilhões, ante aproximadamente US$ 120 bilhões da Lockheed Martin e US$ 77 bilhões da Northrop Grumman, por exemplo.
Empresa aposta em múltiplas frentes para sustentar avaliação bilionária
A trajetória da SpaceX começou em 2002 com foco no desenvolvimento de veículos espaciais e serviços de lançamento. Ao longo dos anos, porém, a companhia ampliou significativamente sua atuação e passou a reunir atividades que vão desde conectividade global até projetos ligados à inteligência artificial.
No segmento espacial, a empresa consolidou sua presença ao reduzir os custos de acesso à órbita terrestre. Parte desse avanço foi atribuída ao desenvolvimento de foguetes reutilizáveis, especialmente o Falcon 9, tecnologia que permitiu aumentar a frequência das missões e ampliar a carteira de clientes comerciais e institucionais.
Além das operações voltadas ao setor privado, a companhia mantém contratos com órgãos governamentais dos Estados Unidos. Missões para a Nasa e acordos ligados à área de defesa ajudam a garantir receitas recorrentes e fortalecem a posição estratégica da empresa em atividades consideradas sensíveis.
A principal fonte de faturamento atualmente é a Starlink. O serviço de internet via satélite opera em dezenas de países e atende milhões de usuários por meio de uma constelação formada por milhares de equipamentos em órbita. Segundo os números apresentados pela companhia, a divisão respondeu pela maior parcela da receita registrada em 2025.
Outra frente de crescimento está relacionada à inteligência artificial. Após incorporar a xAI às suas operações, a SpaceX passou a incluir o segmento em sua estrutura de negócios e a defender que a crescente demanda por processamento e armazenamento de dados abrirá novas oportunidades de expansão.
Nesse contexto, a empresa aposta em um projeto que prevê o aproveitamento de sua rede de satélites como suporte para infraestrutura computacional. A proposta busca atender às necessidades cada vez maiores de aplicações de inteligência artificial e aparece como um dos principais argumentos utilizados para justificar a avaliação pretendida.
O professor do Inteli, Egon Daxbacher, explicou ao Uol que a valorização projetada se relaciona menos às atividades tradicionais de lançamento espacial e mais ao potencial dessa estrutura tecnológica. “Não é por conta dos foguetes que a SpaceX vale tudo isso. O ativo que faz da SpaceX ser uma empresa única é o imenso data center orbital,” comentou a estratégia da companhia.
Apesar do entusiasmo em torno do projeto, existem avaliações mais cautelosas. O fundador e CEO da Ray Consulting, Guilherme Bastos, reconhece a força operacional da empresa, mas questiona a dimensão do mercado potencial apresentada nos documentos da oferta pública.
Ao analisar os dados divulgados pela companhia, Bastos argumenta que a SpaceX utiliza negócios já consolidados como base para projetar oportunidades extremamente amplas no universo da inteligência artificial. “O problema reside no fato de que o prospecto utiliza essa base como credencial para reivindicar um TAM que incorpora, de maneira acrítica, a quase totalidade da economia digital global de inteligência artificial“, declarou o executivo ao UOL.
Os números mais recentes mostram uma companhia em expansão, mas ainda pressionada pelos investimentos. Em 2025, a SpaceX registrou receita de US$ 18,7 bilhões, crescimento de 32,7% em relação ao ano anterior. Embora tenha apresentado resultado operacional positivo, encerrou o período com prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões.
Parte desse resultado é atribuída aos desembolsos em projetos considerados estratégicos. Entre eles estão o desenvolvimento do Starship, concebido para futuras missões de maior complexidade, e a ampliação das iniciativas ligadas à inteligência artificial.
No Brasil, a presença da empresa ocorre principalmente por meio da Starlink. O serviço atende usuários em áreas urbanas e regiões com infraestrutura limitada, incluindo operações voltadas ao agronegócio, escolas, empresas e órgãos públicos. A companhia também mantém interlocuções relacionadas ao uso da Base de Alcântara e à oferta de conectividade para projetos governamentais.
A precificação das ações representa, portanto, um teste para medir o grau de confiança do mercado na visão de longo prazo defendida por Elon Musk. Mais do que avaliar uma empresa espacial, investidores serão chamados a julgar a capacidade da companhia de transformar sua infraestrutura tecnológica em um dos pilares da economia baseada em inteligência artificial.
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