O Ministério da Saúde anunciou na semana passada a suspensão temporária da aplicação da vacina da dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. A medida foi adotada após o registro de 42 episódios de reações adversas graves, incluindo dois óbitos.
Os casos estão sob investigação e ainda não há comprovação de que os eventos foram causados pelo imunizante. A suspensão foi adotada como medida de precaução.
Essa não é a primeira vez que uma vacina é pausada – seja para investigações adicionais na fase de testes ou durante a aplicação, seja por motivos comerciais. O Olhar Digital te explica o que leva autoridades a pausarem um imunizante e relembra outros casos de mudanças na estratégia de vacinação.
A suspensão da vacina da dengue do Butantan
A Butantan-DV é a primeira vacina contra a dengue desenvolvida integralmente no Brasil e também a primeira de dose única contra a doença. Antes de receber autorização para uso, o imunizante passou por estudos clínicos envolvendo mais de 11 mil voluntários acompanhados por até cinco anos.
De acordo com o Ministério da Saúde, as reações adversas identificadas incluíram sintomas como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Entre os 42 casos considerados suspeitos, três foram classificados como graves, incluindo dois óbitos.
Antes da suspensão, a vacina da dengue chegou para cerca de meio milhão de pessoas, principalmente para profissionais da atenção primária à saúde e em estratégias específicas conduzidas em Botucatu (SP), Nova Lima (MG), Ibaranguá (CE) e na região do Araguaia, no Tocantins. O número de reações adversas representa cerca de 0,008% das mais de 500 mil doses aplicadas até 30 de maio.
Ainda assim, chamou a atenção das autoridades por envolver manifestações que não haviam sido observadas durante os estudos clínicos nem estavam previstas na bula.
O Ministério da Saúde destacou que ainda não há um resultado conclusivo se as reações têm correlação com a vacina ou se outros fatores, como doenças pré-existentes, infecções concomitantes ou características individuais dos pacientes, podem ter contribuído para os quadros graves.
Por enquanto, os casos seguem sob investigação. A suspensão é temporária e preventiva.
Essa descontinuidade tem um objetivo. Primeiro, trata-se de uma ação de precaução que deve sempre orientar quem respeita a vida e quem respeita a ciência, ainda mais quando estamos falando de vacinação. Segundo, ela permite que o Ministério da Saúde, a Anvisa e o Instituto Butantan aprofundem a investigação dos casos, em especial dos óbitos registrados, para os quais ainda não há informações suficientes que permitam estabelecer uma relação de causalidade com a vacina.
Alexandre Padilha, ministro da Saúde
Outros casos de vacinas pausadas
A vacina da dengue não foi a primeira vez que um imunizante foi suspenso temporariamente. Outros casos incluíram pausas para investigação de reações adversas e, mais recentemente, descontinuação por motivos comerciais.
Rotashield contra rotavírus
Um dos casos foi o da vacina Rotashield, desenvolvida para prevenir infecções por rotavírus em bebês. O imunizante foi aprovado nos Estados Unidos em 1998 após estudos clínicos indicarem eficácia e segurança. Ele passou a ser recomendado para aplicação de rotina em crianças de dois, quatro e seis meses de idade.
No entanto, poucos meses após o início da vacinação em larga escala, sistemas de vigilância identificaram um aumento de casos de invaginação intestinal (uma forma rara e grave de obstrução do intestino) em bebês vacinados. Inicialmente, foram 15 casos, a maioria na primeira semana após a aplicação da primeira dose.
As investigações continuaram e, até outubro de 1999, mais de 100 casos haviam sido notificados. Estudos apontaram um risco significativamente maior de invaginação intestinal entre os vacinados, especialmente nos dias seguintes à primeira dose. Diante das evidências, autoridades de saúde suspenderam a recomendação e a fabricante retirou a vacina do mercado em outubro de 1999.
O caso da Rotashield tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos da importância da farmacovigilância pós-comercialização. Embora os estudos clínicos não tenham detectado o problema antes da aprovação, o monitoramento após o início da aplicação em massa permitiu identificar um efeito adverso raro que só se tornou perceptível quando milhões de doses começaram a ser aplicadas.
Vacina da AstraZeneca contra Covid-19
Durante a pandemia de Covid-19, a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca também passou por períodos de suspensão temporária.
Anunciada em novembro de 2020 como uma “vacina para o mundo”, o imunizante foi suspenso em países europeus em março de 2021 devido a preocupações com possíveis efeitos colaterais, como coágulos sanguíneos associados à redução de plaquetas.
Em 7 de março, a Áustria anunciou a suspensão de um lote específico;
Em 11 de março, Dinamarca, Noruega e Islândia anunciaram a suspensão total até que houvesse mais evidências sobre os efeitos colaterais;
Nos dias seguintes, mais de 20 países da Europa tomaram a mesma decisão.
Análises realizadas pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluíram que os benefícios da vacinação superavam amplamente os riscos. Ainda assim, algumas nações passaram a restringir o uso do imunizante para determinadas faixas etárias.
Depois desse caso, a AstraZeneca publicou os resultados de um grande estudo clínico realizado nas Américas que comprovavam a eficácia do imunizante. Mas veio mais uma polêmica: o Comitê de Monitoramento de Dados e Segurança, responsável pela pesquisa, contestou alguns dados e sugeriu que a empresa havia apresentado “informações desatualizadas” sobre a eficácia, em comunicado em 23 de março.
Segundo a revista Science, as informações foram atualizadas apenas dois dias depois, em 25 de março, pela própria companhia.
Outro caso envolvendo a vacina aconteceu no Brasil. Em maio de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu uma nota técnica recomendando a suspensão imediata da AstraZeneca/Fiocruz em mulheres gestantes e puérperas.
A interrupção aconteceu apenas para esse grupo e por precaução, depois que uma grávida de 35 anos morreu por um tipo de trombose considerado extremamente raro. A nota da Anvisa destacou que não havia comprovação de que a morte foi provocada pela vacina e que os benefícios superam os riscos.
Em maio de 2024, a AstraZeneca anunciou que estava retirando a vacina do mercado por motivos comerciais. Segundo a farmacêutica, com o surgimento de novas variantes do coronavírus, a demanda se voltou para versões mais recentes.
A fabricante destacou que foram mais de 3 bilhões de doses distribuídas e mais de 6,5 milhões de vidas salvas apenas no primeiro ano de uso.
Janssen contra Covid-19
Outro episódio ocorreu com a vacina Janssen, da Johnson & Johnson, contra a Covid-19.
Em abril de 2021, autoridades de saúde dos Estados Unidos recomendaram uma pausa temporária na aplicação do imunizante após o registro de casos raros de trombose envolvendo seios venosos cerebrais (grandes vasos sanguíneos no cérebro) e outros locais do corpo (como vasos sanguíneos no abdômen e nas pernas), além de trombocitopenia (baixa contagem de plaquetas).
Na época, foram seis casos identificados entre mais de 6,8 milhões de doses administradas. A interrupção permitiu que especialistas avaliassem os dados e orientassem profissionais de saúde sobre como reconhecer e tratar a síndrome.
Dias depois, a Food & Drug Administration (FDA), órgão regulador de saúde dos EUA, anunciou que a vacinação poderia ser retomada. As autoridades concluíram que a “probabilidade de ocorrência da Síndrome de Transfusão de Tróficos (TTS) é muito baixa” e que os benefícios da proteção contra a Covid-19 continuavam superiores aos riscos em pessoas maiores de 18 anos.
No ano seguinte, em fevereiro de 2022, o The New York Times informou que a Johnson & Johnson fechou a única fábrica que produzia lotes utilizáveis da Janssen, em Leiden, na Holanda. O encerramento teria acontecido porque a vacina não era mais economicamente rentável.
O que leva uma vacina a ser suspensa?
A suspensão de uma vacina não significa necessariamente que ela seja insegura ou seja a responsável pelas reações adversas.
Na prática, a interrupção faz parte dos protocolos de farmacovigilância adotados por autoridades sanitárias em todo o mundo. O objetivo é analisar reações inesperadas detectadas após o início da vacinação em larga escala. Isso ocorre porque alguns efeitos extremamente raros podem não aparecer durante os estudos clínicos.
Ao Olhar Digital, Gonzalo Vecina, médico sanitarista, fundador e ex-presidente da Anvisa, lembrou que eventos adversos estão dentro das expectativas quando um medicamento sai da fase 3, de ensaios clínicos, para a fase 4, quando é comercializado.
“É bom lembrar que os eventos durante a fase clínica estão ocorrendo numa população que foi escolhida a dedo pra fazer parte da pesquisa. Você tem uma situação um pouco mais controlada do que na fase 4”, afirmou.
O Dr. Klinger Faico, médico infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), também destacou que eventos adversos leves estão previstos.
O que pesa nessa decisão [de suspender temporariamente uma vacina] não é só o número de eventos, mas principalmente a gravidade deles. Quando eu tenho um punhado de eventos graves, isso pesa muito mais do que muitos eventos leves esperados.
Dr. Klinger Faico, médico infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia
Depois da suspensão, vem a investigação.
Faico explicou que a avaliação segue a metodologia da Organização Mundial da Saúde e olha para diferentes variáveis. Por exemplo: a relação temporal com a vacina (se os sintomas fazem sentido dentro do tempo de reação do imunizante), análise do lote e das condições de conservação, se as reações podem ter outra causa (como outras doenças) e o status prévio do paciente. Tudo isso ajuda a determinar se os benefícios superam os riscos.
Ele lembrou que essa paralisação faz parte da estratégia de vacinação e da atuação de sistemas de farmacovigilância. “Não é que significa uma falha de planejamento, é exatamente o planejamento funcionando”, declarou.
O impacto público
Mesmo fazendo parte da estratégia de vacinação, a paralisação na aplicação de um imunizante costuma gerar efeitos na percepção pública.
Pesquisas internacionais mostram que notícias sobre eventos adversos podem reduzir temporariamente a confiança da população na vacinação, especialmente quando as informações são divulgadas sem contexto sobre a frequência dos casos e os benefícios dos imunizantes.
Por exemplo, uma pesquisa publicada em dezembro de 2021 no periódico Elsevier analisou o impacto que a suspensão da vacina da AstraZeneca contra Covid-19 teve na aceitação pública do medicamento em oito países (França, Dinamarca, Alemanha, Hungria, Itália, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos). O estudo concluiu que esse tipo de repercussão gerou efeitos negativos:
Esses resultados sugerem que as notícias sobre os efeitos colaterais da vacina da AstraZeneca e as decisões associadas de suspender a vacinação em 11 de março tiveram efeitos negativos e transnacionais na aceitação de uma vacina contra a COVID-19, coincidindo com o fim de um período de maior aceitação da vacina em diversos países. Assim, os resultados demonstram, na prática, como as preocupações com os efeitos colaterais em alguns países podem reduzir a aceitação da vacina em outros, no contexto da pandemia de COVID-19, criando efeitos internacionais em cadeia a partir de decisões nacionais.
Estudo “Did the European suspension of the AstraZeneca vaccine decrease vaccine acceptance during the COVID-19 pandemic?”
E quem já tomou a vacina da dengue?
Faico tranquilizou: não há motivo para pânico.
Para quem já recebeu a vacina, a orientação é que apenas pessoas imunizadas nos últimos 21 dias e que apresentarem sintomas ou reações adversas (como febre, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura, sonolência excessiva, sinais de desidratação ou piora do estado geral) procurem atendimento médico. Do contrário, não é necessário se preocupar.
As doses já distribuídas não serão descartadas. O governo orientou estados e municípios a manterem os imunizantes armazenados nas redes de frio e nas unidades de saúde até a conclusão das investigações.
As autoridades também reforçam que a suspensão não invalida os resultados de eficácia observados até agora. A vacina continua apresentando proteção contra os quatro sorotipos da dengue.
“Os dados de eficácia mostram que a vacina protege contra os quatro tipos de dengue. Reforçamos para as pessoas que tomaram a vacina que elas estão protegidas”, afirmou Padilha.
A eventual retomada da imunização dependerá do resultado das investigações.
Vecina voltou a destacar a necessidade de uma análise mais aprofundada:
O que é necessário é elucidar as condições em que os eventos adversos ocorreram. Uma pessoa que toma vacina e, ao atravessar a rua, é atropelada, não morreu por causa da vacina.
Gonzalo Vecina, médico sanitarista, fundador e ex-presidente da Anvisa
O post Vacina da dengue suspensa: o que leva um imunizante a ser paralisado? Relembre outros casos apareceu primeiro em Olhar Digital.






