Gatos idosos podem ajudar a desvendar o envelhecimento do cérebro humano

Recentemente, pesquisadores identificaram que gatos domésticos apresentam alterações cerebrais relacionadas à idade muito semelhantes às observadas em pessoas idosas. A conclusão foi alcançada após uma análise que reuniu milhares de dados biológicos de diferentes espécies. O trabalho foi publicado na revista Biology Open e teve como pesquisadora principal a cientista Christine J. Charvet.

A investigação mostrou que, na fase mais avançada da vida, um gato de cerca de 16 anos apresenta mudanças no cérebro comparáveis às de um ser humano por volta dos 88 anos. Os cientistas defendem que essa equivalência biológica pode transformar os felinos em modelos naturais para pesquisas sobre envelhecimento e doenças neurológicas.

Além das alterações cerebrais, os autores verificaram semelhanças em marcadores sanguíneos e em doenças associadas à velhice, reforçando a possibilidade de aproximar a medicina veterinária e a humana para ampliar o conhecimento sobre a degeneração cerebral.

Modelo biológico substitui comparação tradicional de idade

(Imagem: Hunt Han/Unsplash)

Em vez de recorrer à conhecida conversão entre anos de vida de gatos e humanos, os pesquisadores elaboraram um modelo fundamentado em indicadores biológicos observados ao longo do desenvolvimento dos animais e das pessoas. A proposta mostrou que o envelhecimento não ocorre em velocidade constante, mas acelera e desacelera conforme a fase da vida.

Para chegar a esse resultado, foram analisados 3.754 registros envolvendo exames de imagem, parâmetros sanguíneos, padrões de doenças e marcos do desenvolvimento de gatos, humanos e outros mamíferos. A comparação permitiu estabelecer correspondências entre diferentes etapas da vida das espécies.

Os resultados apontaram que um filhote recém-nascido apresenta estágio biológico semelhante ao de um feto humano próximo das 40 semanas de gestação. Já um gato com cerca de seis meses corresponde aproximadamente aos primeiros anos da infância humana, enquanto a maior equivalência aparece na velhice.

Cérebro dos felinos apresenta mudanças semelhantes às humanas

Cérebro humano – Imagem: FAMILY STOCK/Shutterstock

As imagens obtidas por ressonância magnética revelaram que gatos idosos desenvolvem redução do volume cerebral e ampliação dos ventrículos, alterações também encontradas em pessoas de idade avançada.

A pesquisa ainda identificou modificações em estruturas específicas do cérebro, como a região que conecta os dois lados do tálamo e o padrão de dobras da superfície cerebral. Alterações em determinados marcadores sanguíneos acompanharam essa evolução de forma semelhante nas duas espécies.

Brier Rigby Dames, pesquisadora associada da Universidade de Bath e integrante da equipe responsável pela análise, destacou que a descoberta amplia o entendimento sobre o potencial científico dos animais de companhia.

Foi interessante observar que os gatos apresentam padrões de atrofia cerebral relacionados ao envelhecimento semelhantes aos observados em humanos. Essas descobertas reforçam as evidências de que animais de companhia podem oferecer informações valiosas sobre o envelhecimento“, disse Brier Rigby Dames em entrevista repercutida pelo site Earth.com.

Gatos de estimação podem ampliar pesquisas sobre doenças neurológicas

Pesquisas indicam que gatos encaram humanos para buscar segurança e monitorar intenções – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Os autores também observaram que os gatos desenvolvem, com o avanço da idade, catarata, problemas articulares e acúmulo de proteínas associadas à doença de Alzheimer em seres humanos. Para os pesquisadores, esse conjunto de características reforça o potencial dos felinos como modelo para estudos sobre doenças neurodegenerativas.

Outra diferença importante apareceu na comparação entre animais de estimação e aqueles criados em colônias de pesquisa. Os gatos que vivem em residências costumam alcançar idades mais avançadas e, por isso, oferecem informações mais completas sobre as transformações do cérebro durante a velhice.

Segundo Ryan Gibson, neurologista veterinário da Universidade de Auburn, o aumento da realização de exames cerebrais em animais de companhia cria novas possibilidades para integrar pesquisas veterinárias e médicas.

Esse acesso clínico ampliado cria oportunidades relevantes para pesquisas translacionais, melhorando a compreensão do envelhecimento e das doenças neurológicas de maneiras que podem beneficiar pacientes felinos e humanos“, explicou Ryan Gibson em entrevista repercutida pelo Earth.com.

Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que ainda existem limitações importantes. Entre elas estão a escassez de dados sobre gatos de colônias em idade muito avançada e a ausência de ferramentas capazes de medir, com precisão, o declínio cognitivo dos felinos ao longo do envelhecimento.

A equipe também considera que futuras bases de dados veterinárias, construídas em larga escala e com informações clínicas e relatos de tutores, poderão ampliar a compreensão das doenças relacionadas ao envelhecimento tanto em animais quanto em seres humanos.

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